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Sukuk, Samurai, Panda, Kangaroo: quando os emitentes africanos se voltam para a Ásia

Sukuk, Samurai, Panda, Kangaroo: quando os emitentes africanos se voltam para a Ásia
Segunda-feira, 8 de Junho de 2026

Nove níveis separam a notação atribuída ao Afreximbank pela Fitch (BB+) da atribuída pela chinesa CCXI (AAA), cinco níveis no caso da AFC e dois no da BOAD. Por detrás da deslocação do financiamento africano para a Ásia desenha-se também uma transformação das classificações de risco: as agências asiáticas validam um risco que as «Big Three» desvalorizam. Estarão Tóquio, Pequim, Sydney e Riade a tornar-se a nova geografia obrigacionista africana?

Costa do Marfim em ienes, Benim em sukuk, Afreximbank em yuan, Africa Finance Corporation em murabaha, Banco Africano de Desenvolvimento em dólares australianos: em doze meses, a África financeira multiplicou as emissões em mercados até agora periféricos na sua estratégia de financiamento. Esta reorientação revela tanto a prudência dos credores ocidentais como o surgimento de uma nova geografia do capital, agora polarizada em torno de Tóquio, Pequim, Sydney, Riade e Abu Dhabi.

O sindicato bancário do mais recente empréstimo da Africa Finance Corporation (AFC), anunciado a 4 de junho em Lagos, ilustra-o de forma particularmente clara. Dos 2 mil milhões de dólares angariados, cerca de 60% provêm de bancos da Ásia em sentido lato: 35% de instituições da região Ásia-Pacífico e 25% de entidades do Golfo e do Médio Oriente. A Europa representa apenas 35% e a África 5%. «Habitualmente temos uma base de financiamento diversificada, mas desta vez participaram muito mais bancos asiáticos. Temos bancos da China, de Hong Kong e da Coreia. Estão claramente mais empenhados», confirmou Samaila Zubairu, presidente executivo da AFC.

Uma sucessão de estreias em doze meses

O movimento está longe de ser isolado. No mercado japonês, o terceiro maior mercado obrigacionista do mundo, a Costa do Marfim tornou-se, em julho de 2025, o primeiro Estado da África Subsaariana a emitir uma obrigação Samurai: 50 mil milhões de ienes, equivalentes a 336 milhões de dólares, a 2,3% por dez anos, parcialmente garantidos pelo Japan Bank for International Cooperation (JBIC). Quatro meses depois, o Afreximbank concluiu a sua segunda emissão consecutiva de obrigações Samurai, no montante de 81,8 mil milhões de ienes (527 milhões de dólares), após uma operação inaugural em 2024.

O banco pan-africano sediado no Cairo tinha já aberto caminho em março de 2025 em Pequim, com a primeira emissão de uma obrigação Panda por uma instituição financeira multilateral africana (2,2 mil milhões de yuans, ou 303 milhões de dólares, a 2,99% por três anos), na sequência da primeira emissão soberana realizada pelo Egito em outubro de 2023 (3,5 mil milhões de yuans, cerca de 479 milhões de dólares, a 3,51% por três anos, garantidos pelo Banco Africano de Desenvolvimento e pelo Banco Asiático de Investimento em Infraestruturas – AIIB).

Em Sydney, o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) colocou, a 13 de janeiro de 2026, a maior emissão Kangaroo da sua história: uma obrigação social de mil milhões de dólares australianos (cerca de 620 milhões de euros) a cinco anos, com uma taxa de 4,6%, registando um livro de ordens recorde superior a 2,6 mil milhões de dólares australianos. A operação foi subscrita em 93% por investidores da Austrália (49%) e da Ásia excluindo a Austrália (44%), à frente da região EMEA (6%) e dos Estados Unidos (1%).

No Golfo, o Egito vendeu, em junho de 2025, um sukuk privado de mil milhões de dólares à Kuwait Finance House, enquanto o Benim inaugurou, em janeiro de 2026, o primeiro sukuk soberano internacional da África Subsaariana desde a África do Sul em 2014: 500 milhões de dólares, denominados em euros, a 4,92% por sete anos, fortemente sobressubscritos graças a uma procura significativa dos investidores do Golfo.

Quando as agências ocidentais recuam, as asiáticas certificam ao mais alto nível

Esta mudança geográfica é acompanhada por uma divergência crescente nas classificações de risco. A 28 de janeiro de 2026, a Fitch Ratings baixou a notação do Afreximbank de BBB- para BB+, colocando-a na categoria especulativa, antes de retirar todas as suas avaliações sobre a instituição pan-africana. Cinco dias antes, o próprio Afreximbank tinha terminado a sua relação com a agência nova-iorquina, argumentando publicamente que «o exercício de notação já não reflete uma compreensão adequada do acordo constitutivo do banco, da sua missão e do seu mandato».

O Mecanismo Africano de Revisão pelos Pares (APRM) da União Africana apoiou publicamente esta posição, acusando a Fitch de uma «classificação errónea» dos empréstimos devido à recusa em reconhecer ao Afreximbank o estatuto de credor preferencial, estatuto esse reconhecido ao Banco Africano de Desenvolvimento e ao Banco Mundial.

Contudo, relativamente à mesma instituição e no mesmo período, a China Chengxin International (CCXI) mantém uma classificação AAA com perspetiva estável, atribuída pela primeira vez, em janeiro de 2025, a uma instituição financeira multilateral africana. A Japan Credit Rating Agency (JCR) atribui-lhe uma classificação A- estável para as suas emissões Samurai. A Moody’s, única sobrevivente das «Big Three» no caso do Afreximbank, mantém a classificação Baa2.

A diferença entre a Fitch (BB+, antes da retirada) e a CCXI (AAA) atinge nove níveis para a mesma instituição, com o mesmo balanço, o mesmo mandato e operações maioritariamente denominadas em dólares.

O Afreximbank não é um caso isolado. A AFC é classificada com A pela S&P Global Ratings (perspetiva positiva) e A3 pela Moody’s, mas apresenta uma classificação AAA junto da S&P Global (China) Ratings e A+ junto da JCR. Isto representa uma diferença de cinco níveis entre a S&P de Nova Iorque e a sua filial chinesa relativamente ao mesmo risco de crédito.

O Banco Oeste-Africano de Desenvolvimento (BOAD), que obteve em maio de 2026 a sua classificação inaugural A estável junto da JCR, surge dois níveis acima do BBB atribuído pela Fitch e do Baa1 atribuído pela Moody’s.

«A classificação da JCR reforça a nossa estratégia de alargamento da base de investidores e de exploração de novos mercados, em particular no Japão e na Ásia», comentou Serge Ekué, presidente do BOAD, em Kigali.

«Isto recorda-nos que as economias asiáticas dispõem há muito tempo das suas próprias agências de notação. África deve construir a sua, ancorada localmente, para desenvolver uma verdadeira cultura de crédito no continente», afirmou Benedict Oramah, presidente cessante do Afreximbank, à margem do 4.º Africa Sovereign Investors Forum, em apoio à African Credit Rating Agency, atualmente em criação sob a égide da União Africana.

Um movimento estrutural, não conjuntural

Para além da diversidade dos formatos, uma única lógica une estas operações do lado dos emitentes: procurar na Ásia e no Golfo a diversificação das fontes de financiamento e a profundidade de capital que o ecossistema tradicional dos eurobonds já não consegue proporcionar por si só.

Esta reorientação é igualmente facilitada por uma dinâmica tecnológica e regulamentar. O Banco Popular da China alargou o acesso dos emitentes africanos ao mercado interbancário de Pequim através do programa Panda Bond. A JBIC estruturou a sua primeira garantia Samurai para um soberano da África Subsaariana, a Costa do Marfim.

Segundo a S&P Global Ratings, o mercado mundial de sukuk atingiu 264,8 mil milhões de dólares em 2025, um aumento de 13%, dos quais 45% concentrados na Arábia Saudita, Malásia e Emirados Árabes Unidos. A Fitch estima as emissões africanas de sukuk em 3 mil milhões de dólares em 2025, contra apenas 112 milhões no ano anterior.

«Existe um apetite muito mais amplo por parte do Golfo para financiar mercados emergentes, em particular África», observou Admassu Tadesse, presidente do Trade and Development Bank (TDB).

A janela dos eurobonds, que esteve praticamente fechada para os soberanos africanos entre 2022 e 2024, reabriu no início de 2026, mas a custos ainda elevados. A S&P estima o custo médio do endividamento soberano africano em 7,7% em 2025.

Os sukuk denominados em euros emitidos pelo Benim a 4,92%, as obrigações Samurai da Costa do Marfim a 2,3%, as obrigações Panda do Afreximbank a 2,99% e as emissões Kangaroo do BAD a 4,6% estão a redefinir as regras do financiamento soberano e multilateral do continente.

«Trata-se de um ponto de viragem para os soberanos africanos. Isto permite uma maior diversificação em termos de instrumentos e, consequentemente, da base de investidores», analisa Gatien Bon, banqueiro-consultor da Rothschild.

Vários Estados africanos, com destaque para o Senegal e a Nigéria, estudam atualmente emissões internacionais de sukuk. Nos próximos seis a doze meses, será a capacidade dos emitentes africanos para repetir estas operações que determinará se esta transformação asiática se consolidará de forma duradoura ou se não passará de um ciclo temporário.

Fiacre E. Kakpo

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