Em Cotonou, o Banco Mundial e vários governos africanos anunciam estratégia para transformar a conectividade existente em uso real, visando custos, habilidades digitais, serviços digitais essenciais e infraestruturas compartilhadas.
A principal dificuldade enfrentada é um déficit no acesso e não em infraestrutura. Cerca de 70% das pessoas não conectadas já vivem em áreas cobertas.
Reunidos em Cotonou, o Banco Mundial e vários governos africanos anunciaram uma nova estratégia para transformar a conectividade existente em uso real. A iniciativa mira nos custos, habilidades e serviços digitais essenciais, além da compartilha de infraestruturas.
Em Cotonou, o diagnóstico foi claro: a África sofre menos com um déficit de infraestrutura do que com uma falta de uso. Esse se tornou a nova frente de batalha na era digital. No "Cúpula Regional sobre a Transformação Digital na África Ocidental e Central", realizada de 17 a 18 de novembro, governos, o Banco Mundial e várias instituições regionais discutiram um paradoxo central: apesar do crescimento na cobertura móvel, quase dois terços dos africanos permanecem offline. Segundo dados apresentados pelo Banco Mundial, cerca de 70% das pessoas desconectadas já vivem em áreas cobertas.
Persistência de barreiras econômicas e sociais
Em uma região que carecia de torres de cell-site, fibra ou backbone, essa mudança de análise marca uma ruptura. "O desafio não é mais cobrir, mas incluir", resumiu Ousmane Diagana, vice-presidente do Banco Mundial para a África Ocidental e Central, durante a sessão de abertura. Atrás dessa frase, surge uma nova certeza: a batalha pela conectividade agora é jogada no campo da acessibilidade econômica, das habilidades digitais e da relevância de uso.
As razões são primeiramente econômicas. O acesso à internet móvel ainda custa em média 4,6% da renda mensal, mais do que o dobro do limite recomendado internacionalmente. O acesso a um plano fixo de banda larga chega a representar 21,5% da renda mensal, um valor sem equivalente no mundo. No Liberia, um caso extremo, os preços representam até 153% do rendimento mensal médio para um acesso fixo, tornando a assinatura fora de alcance para a grande maioria das famílias. Em muitos países da região, o preço de um smartphone de entrada ainda é equivalente a uma ou duas semanas de renda para uma família urbana, ainda mais em áreas rurais.
Mas o obstáculo também é social. Em muitos países, o nível de alfabetização digital ainda é insuficiente para aproveitar ao máximo os serviços online.
Mudança de paradigma
Nesse cenário, a cúpula de Cotonou adquiriu uma dimensão estratégica. O Banco Mundial está mudando sua abordagem. Ao longo de vinte anos, a instituição financiou principalmente a infraestrutura. Agora, ela busca abordar diretamente a questão do uso. Isso significa financiar bens digitais públicos - identidades digitais, sistemas de pagamento, registros unificados, plataformas interoperáveis - que tornam os serviços mais acessíveis e estimulam a demanda.
Desenvolvimento de habilidades digitais
O outro eixo prioritário, amplamente discutido, diz respeito às habilidades digitais. As estimativas do Banco Mundial são claras: até 2030, 230 milhões de postos de trabalho na África exigirão habilidades digitais ou relacionadas à IA. Até agora, a maioria dos sistemas educacionais não está alinhada com essas necessidades.
Mercado Único Digital africano
A perspectiva de um Mercado Único Digital africano, apoiado pela União Africana, ocupou uma parte significativa das discussões. O encontro deve levar a uma Declaração Comum, comprometendo os países a reduzir os custos de acesso, a compartilhar infraestruturas transfronteiriças, a reforçar a interoperabilidade e a desenvolver serviços compartilhados.Vários oradores sublinharam que o investimento privado em centros de dados, computação em nuvem e fibra ótica terrestre só poderá acelerar se a região oferecer uma estrutura harmonizada e mais transparente para os operadores. "A era dos projetos isolados acabou: os nossos países precisam de criar sinergias regionais", destacou Aurélie Adam Soulé Zoumarou.
Fiacre E. Kakpo













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