O Fórum África-Europa chama para mudar da ajuda ao co-investimento estratégico na atual reconfiguração das cadeias de valor globais em torno de minerais críticos.
A união entre a União Africana e a União Europeia, no encontro em Luanda, marca uma nova fase na competição por acesso a recursos, mercados e tecnologias.
Em um momento no qual as cadeias de valor globais estão se reestruturando em torno de minerais críticos, o eixo África-Europa tem assumido um papel central no palco geoeconômico. No encontro de Luanda, que começa nesta segunda-feira, a Fundação África-Europa apela por uma transição da ajuda ao co-investimento estratégico.
Nestes 24 e 25 de novembro de 2025, a União Africana e a União Europeia se reúnem em Luanda, em Angola, em torno de um tema explícito: "Promover a paz e a prosperidade através de um multilateralismo efetivo". Este evento, que comemora os 25 anos da parceria UE-UA desde a Cúpula do Cairo em 2000, marca uma nova etapa, em um momento em que o mundo enfrenta uma fragmentação econômica e geopolítica, e onde a competição pelo acesso a recursos, mercados e tecnologias estão se intensificando.
A escolha de Angola, um país rico em recursos naturais, não é coincidência. Ela traduz o peso crescente das questões relacionadas aos minerais críticos, à segurança energética, ao clima e à reconfiguração dos fluxos de investimento para a África. É nesse contexto que o relatório "Status da África-Europa 2025 - Financiando nosso futuro", liderado pela Fundação África-Europa, é publicado.
De acordo com o diretor executivo, Paul Walton, já passou da hora de renovar um modelo herdado do pós-guerra e é hora de transformar profundamente a relação entre os dois continentes. Ele enfatiza que "se há um momento em que a parceria África-Europa precisa se fortalecer, esse momento é agora".enquanto alguns grandes atores tradicionais se retraem do multilateralismo, deixando um vazio estratégico a ser preenchido.
Rumo ao fim do modelo doador–beneficiário.
No coração do relatório, uma ideia central: romper definitivamente com a relação assimétrica entre doador e beneficiário e avançar para um modelo baseado em co-investimento, compartilhamento de riscos e co-construção de políticas públicas e projetos de infraestrutura.
Paul Walton enfatiza que "o antigo modelo - muitas promessas do lado africano, muita ajuda tradicional do lado europeu - não funciona para ninguém".
Se os dois continentes multiplicaram anúncios e compromissos nos últimos anos — sobre energia, saúde, conectividade ou ainda emprego —, a implementação permanece amplamente aquém das ambições declaradas. Para Paul Walton, a problemática não é apenas financeira, mas também estrutural e institucional. As arquiteturas herdadas de 1945 — sejam as Nações Unidas ou o sistema financeiro internacional — já não estão adaptadas à realidade do século XXI.
Essa mudança de modelo implica, antes de tudo, uma mudança de postura: construir em conjunto plataformas de co-investimento, co-conceber projetos de infraestruturas, decidir conjuntamente as prioridades geográficas, setoriais e tecnológicas. Já não se trata de simples compromissos políticos seguidos de desembolsos condicionados, mas de uma lógica de alinhamento estratégico entre interesses africanos e europeus.
Nesse movimento, alguns setores surgem como aceleradores naturais de convergência, a começar pela economia azul, ausente da cimeira anterior, mas agora identificada como uma alavanca fundamental. Ela encarna esse ponto de junção entre imperativo climático e desenvolvimento económico, especialmente para os países costeiros africanos. Após anos de tensão em torno da transição ecológica, oferece um terreno concreto de compromisso entre crescimento, emprego e sustentabilidade.
Minerais críticos e soberania industrial: um teste de credibilidade
Um dos dossiês mais sensíveis, que pairará sobre as discussões de Luanda, diz respeito aos minerais críticos e de transição. Face à explosão da procura mundial por lítio, cobalto, níquel, cobre ou terras raras, a África — que concentra uma parte importante desses recursos — volta a encontrar-se no centro das cobiças globais.
De acordo com Walton, a partir de agora não se trata mais de compromissos políticos seguidos por pagamentos condicionados, mas de uma lógica de alinhamento estratégico entre os interesses africanos e europeus.
No relatório, há uma insistência na necessidade de ancorar qualquer estratégia europeia na visão pan-africana da União Africana, de modo a garantir a criação de valor local, o desenvolvimento de capacidades industriais, o aumento de habilidades tecnológicas e benefícios diretos para as comunidades locais.
Os protocolos de acordo assinados nos últimos anos constituem uma primeira etapa, mas o seu verdadeiro teste começa agora: o da implementação operacional.
Uma transição energética bem-sucedida não poderá ocorrer sem a industrialização africana. É nesta equação que se joga a credibilidade da parceria.
A urgência de um novo contrato de investimento
No campo do financiamento, o diagnóstico é claro: apesar de um elevado potencial, a África continua a ser percebida por grande parte dos investidores europeus como um espaço de alto risco. Essa perceção reflete-se, nomeadamente, nas taxas de juro elevadas impostas aos Estados africanos nos mercados internacionais, muitas vezes superiores às de países com fundamentos económicos comparáveis.
Em alguns casos, os governos africanos recorrem à China ou aos países do Golfo, considerados mais rápidos e menos exigentes. Face a essa concorrência, a Europa deve demonstrar um valor acrescentado claro.
Para sustentar a sua análise, a Africa-Europe Foundation examinou um portefólio de cerca de 150 projetos energéticos na Serra Leoa, enquanto mantinha um diálogo com fundos de pensão nórdicos, nomeadamente na Dinamarca. O constatado: o potencial de investimento é real, mas os projetos esbarram frequentemente no que Paul Walton denomina de “último quilómetro” — a fase crítica de estruturação financeira e de viabilidade económica.
É aqui que entra a noção de smart money: não apenas mais dinheiro, mas um financiamento mais inteligente, melhor estruturado, acompanhado de engenharia financeira, reforço de capacidades e ferramentas eficazes de acompanhamento. Mais uma vez, a solução não é necessariamente quantitativa, mas qualitativa.
Da política ao concreto: a passagem do “o quê” ao “como”
No plano do acompanhamento, a cimeira de Bruxelas lançou uma primeira pedra: o “o quê”, ao reconhecer a necessidade de melhor monitorizar os compromissos. Luanda deve agora responder ao “como”: que ferramentas, que indicadores, que plataformas digitais para medir, comparar e acelerar a implementação real no terreno?
Para Paul Walton, esta parte é talvez a menos “sexy” da parceria, mas é certamente a mais determinante. Sem mecanismos sólidos de governação, prestação de contas e avaliação, nenhuma ambição política pode traduzir-se em transformação concreta.
Para além das questões económicas, o encontro de Luanda deverá também reafirmar uma aliança estratégica entre África e Europa num mundo multipolar, onde o multilateralismo é cada vez mais contestado. Os progressos conjuntos registados no seio do G20, no processo sobre o financiamento do desenvolvimento ou ainda em torno de certos tratados internacionais mostram que essa cooperação continua possível — desde que seja reequilibrada, modernizada e assumida.
Até 2030, o verdadeiro indicador de sucesso não será apenas financeiro. Também será medido pela percepção dos cidadãos africanos e europeus: eles verão nessa parceria apenas mais uma cúpula ou, ao contrário, o início de um novo capítulo baseado na igualdade, na co-criação e na prosperidade compartilhada?
Moutiou Adjibi Nourou













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