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Johannesburg conduz a primeira cúpula do G20 na África, apesar das pressões e divergências

Johannesburg conduz a primeira cúpula do G20 na África, apesar das pressões e divergências
Sexta-feira, 28 de Novembro de 2025

A primeira Cúpula do G20 na África foi realizada em Johannesburg, apesar das pressões e divergências e do boicote dos Estados Unidos.
O evento destacou a necessidade de alívio da dívida dos países em desenvolvimento, as barreiras comerciais, a transição energética e aumentar a resiliência climática.

A Cúpula do G20 foi realizada pela primeira vez no solo africano. Isso tem grande importância política para a África do Sul, que a apresentou como uma oportunidade de incorporar de forma duradoura as preocupações do continente na governança econômica global. Essa ambição enfrentou um ambiente internacional marcado por uma série de incertezas, incluindo um boicote americano, a ausência de vários líderes-chave e persistentes divergências sobre a guerra na Ucrânia e a crise climática.

Desde que assumiu a presidência rotativa do G20 em dezembro de 2024, a África do Sul destacou sua vontade de fortalecer a cooperação multilateral e dar um lugar visível às prioridades africanas. O alívio do ônus da dívida dos países em desenvolvimento, a questão das barreiras comerciais, a transição energética e maneiras de aumentar a resiliência aos choques climáticos foram destacados como temas-chave. A entrada da União Africana como membro permanente do grupo deu realce especial a essas ambições.

No entanto, nos dias que antecederam a cúpula, uma série de anúncios tornou a agenda incerta. Washington confirmou que não enviaria nenhum representante de alto nível, Pequim informou que Xi Jinping não participaria, deixando sua delegação nas mãos do primeiro-ministro Qiang. Outros líderes como Vladimir Putin, Javier Milei e Claudia Sheinbaum também comunicaram que não estariam presentes. A acumulação dessas ausências alimentou dúvidas sobre o alcance real da cúpula de Joanesburgo.

Uma declaração foi adotada apesar da ausência dos Estados Unidos

Apesar desse contexto, a cúpula de Joanesburgo foi realizada com a participação significativa de países do Sul e de parceiros europeus. As delegações do Brasil, Índia, Arábia Saudita, Indonésia, Turquia, União Europeia e União Africana participaram ativamente das sessões plenárias e das reuniões marginais à cúpula. "Não devemos permitir que nada diminua o valor, a estatura ou o impacto da primeira presidência africana do G20", declarou em seu discurso de abertura o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa.

O aspecto notável desta edição é a adoção de uma declaração final abordando vários desafios globais, apesar das objeções americanas. A Argentina se retirou da última sessão de discussões, alegando que a seção dedicada ao Oriente Médio não refletia toda a complexidade do conflito, mas não bloqueou o processo. A África do Sul considerou que o nível de consenso alcançado era suficiente para avançar e defendeu a ideia de que o texto representa o resultado de um ano de trabalho coletivo. "Trabalhamos o ano todo para esta adoção, e a última semana tem sido particularmente intensa", disse Vincent Magwenya, porta-voz do presidente sul-africano, segundo declarações relatadas pela Reuters. Ele ressaltou que o texto não pode ser "renegociado".

Segundo os detalhes divulgados, a declaração aborda vários dos temas destacados por Pretória desde o início de sua presidência. Afirma a necessidade de reduzir o peso da dívida nos países em desenvolvimento e pede a reforma do sistema financeiro internacional para ajudar as economias de baixa renda a investir em suas infraestruturas, saúde ou educação.

Insiste na urgência climática e na importância de um financiamento muito mais ambicioso, sugerindo uma mudança de montantes ainda limitados para volumes capazes de atender às necessidades reais da transição. Os líderes também apoiam o fortalecimento das capacidades de adaptação, o acesso à energia para populações vulneráveis e a implementação de sistemas de alerta precoce para desastres climáticos.

O texto enfatiza a questão dos minerais estratégicos, uma questão crucial para as economias africanas. Apela para a segurança de cadeias de abastecimento cada vez mais expostas a tensões geopolíticas e a medidas comerciais unilaterais, destacando a importância desses recursos para a transição energética e as tecnologias emergentes. Além disso, contém um apelo a uma paz duradoura em várias zonas de conflito.

Os líderes afirmam a intenção de trabalhar para uma resolução justa e completa no Sudão, na República Democrática do Congo, nos territórios palestinos ocupados ou na Ucrânia. Essa formulação é a única menção ao dossiê ucraniano, enquanto, à margem da cúpula, os europeus destacaram os limites do plano americano e mencionaram a necessidade de propor uma alternativa.

Salvando o multilateralismo

Além da declaração, a cúpula foi marcada por discussões paralelas que refletem as prioridades variáveis das diferentes regiões do mundo. A Bloomberg informa que vários líderes ocidentais se reuniram em Joanesburgo para examinar a proposta americana relativa à guerra na Ucrânia e tentar formular uma resposta comum. O meio de comunicação também indica que os países do Sul prestam atenção especial à dívida, à transição energética, ao comércio e às tecnologias emergentes, temas que voltam regularmente às suas prioridades políticas.

À margem da cúpula, a Índia, o Brasil e a África do Sul realizaram uma reunião trilateral, iniciativa que faz parte de seus esforços de cooperação. O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva lembrou, por sua vez, que o multilateralismo ainda pode produzir resultados, apesar das tensões geopolíticas que marcam a atualidade internacional. "Acredito que o multilateralismo prevalecerá, porque todos aqui sabem que juntos, seremos muito mais fortes, muito mais competentes, e será mais fácil resolver os problemas do mundo", declarou, contrapondo-se à vontade do presidente americano Donald Trump de "fortalecer o unilateralismo".

Para o chanceler alemão Friedrich Merz, "novas alianças estão emergindo e o mundo está se reorganizando. [...] Os Estados Unidos não desempenharam nenhum papel nisso. Não acho que tenha sido uma decisão sábia da parte deles não estar lá". A mesma opinião foi expressa pelo primeiro-ministro canadense Mark Carney, que indicou que o centro de gravidade da economia mundial está se deslocando. “A cúpula reuniu nações representando três quartos da população mundial, dois terços do PIB mundial e três quartos do comércio internacional, e isso sem a participação oficial dos Estados Unidos”.

Perspectivas

A primeira cúpula do G20 na África terminou no domingo, 23 de novembro, em Joanesburgo. Apesar das declarações otimistas, muitas perguntas permanecem, especialmente porque a presidência do grupo agora será assumida pelos Estados Unidos.
Washington já reagiu à declaração recentemente adotada, acusando a África do Sul de ter "instrumentalizado" sua presidência. Segundo a porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, "a vontade da África do Sul de publicar uma declaração dos líderes do G20 apesar das objeções americanas constantes e firmes [...] mostra que eles instrumentalizaram sua presidência para minar os princípios fundadores do G20".

Alguns elementos do texto de fato divergem das posições expressas pela administração Trump nos últimos meses. Os exemplos incluem referências à mudança climática, ao investimento em energias renováveis e às necessidades de adaptação dos países vulneráveis. Os EUA já expressaram a vontade de "restaurar a legitimidade" do G20 no próximo ano, quando assumirão a presidência rotativa.

Se a cúpula sul-africana conseguiu incorporar várias prioridades da África na discussão internacional, a continuidade desses avanços pode depender das orientações que Washington dará ao G20 num contexto internacional que permanece incerto.

Louis-Nino Kansoun

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