Mais uma união fracassada? Ao retirar-se do projeto Kabanga, na Tanzânia, o gigante australiano mostra mais uma vez sua dificuldade em se ancorar de forma duradoura na África. A cessão de sua participação minoritária indireta nesse projeto de níquel soma-se a duas décadas de avanços seguidos de retiradas do setor mineiro africano. Retrato de uma relação feita de impulsos e desilusões no continente.
Primeiras incursões e primeiros fracassos
Antes de seu renovado interesse pelos recursos minerais africanos nos últimos anos, a BHP já atuava no continente desde os anos 1990. Em 1994, a empresa associou-se à Delta Gold para desenvolver a jazida de platina Hartley, no Zimbábue. Porém, em 1999, anunciou a venda de sua participação de 67% no projeto. Segundo John Grubb, chefe da filial local da BHP, foram investidos 585 milhões de dólares no depósito, mas o retorno obtido foi de apenas 40 milhões.
“Apesar dos consideráveis esforços da BHP e da Zimbabwe Platinum Mines e do apoio positivo do governo em todas as etapas do desenvolvimento de Hartley, não foi possível superar as dificuldades operacionais e financeiras”, explicou então.
Aversão ao risco?
Nos anos 2000, a BHP volta a marcar presença na África com a fusão com a Billiton, concluída em 2001. Durante mais de uma década, a BHP Billiton manteve um forte ancoramento no continente, com fundições na África do Sul e em Moçambique, além de minas de carvão e manganês na África do Sul. Entre 2001 e 2014, o valor da ação multiplicou-se por 8. Mas, em 2015, uma cisão transfere a maioria dos ativos africanos para a nova empresa South32.
Paralelamente, a BHP já havia renunciado ao projeto Tenke Fungurume, na RDC, vendido sua participação em diamantes em Angola (2009), minerais de titânio em Moçambique e, em 2013, retirou-se também de sua participação na Samancor (manganês) no Gabão. O projeto de refinaria de bauxita em Sangaredi, na Guiné, iniciado em 2007, também foi abandonado. Em 2019, foi a vez do minério de ferro de Nimba, também na Guiné.
Essas retiradas revelam, de fato, uma aversão ao risco dentro do grupo australiano. O então diretor Andrew Mackenzie já afirmava em 2013: “Nossa decisão de nos concentrar na OCDE foi deliberada e, ouso dizer, cada vez mais parece a escolha certa”.
Um retorno tímido
Com Mike Henry à frente desde 2020, a BHP reabre cautelosamente a porta da África. A transição energética aumenta o interesse pelo cobre e pelo níquel, enquanto uma melhora percebida no ambiente de negócios oferece algumas oportunidades.
Assim, em 2022, o grupo investe 40 milhões de dólares no projeto de níquel Kabanga, na Tanzânia, dobrando sua participação para 17,8% em 2023 e adquirindo uma opção de até 60,7%. Paralelamente, lança o acelerador BHP Xplor, que apoia empresas juniores de mineração no Botswana.
Em 2024, a ambição cresce: a BHP oferece até 49 bilhões de dólares pela Anglo American, visando sobretudo seus ativos de cobre na América Latina, mas que implicaria também um retorno mais forte à África. A proposta fracassou diante da recusa dos acionistas.
Que futuro para a BHP na África?
Após o fracasso com a Anglo, a BHP vendeu em 2025 sua participação de 17% em Kabanga para a Lifezone Metals, por até 83 milhões de dólares. A justificativa foi a queda do preço do níquel, provocada pela superoferta da Indonésia.
Apesar desse revés, a empresa não abandonou totalmente suas ambições africanas. O Botswana continua no radar, mas os grandes depósitos de cobre estão na RDC, o 2º maior produtor mundial, e em países como a Zâmbia e a Namíbia.
A África concentra 30% das reservas mundiais de minerais críticos. Para o maior grupo mineiro listado em bolsa no mundo, afastar-se definitivamente do continente significaria perder um terço do campo de batalha onde se decide a corrida pelos metais da transição energética.
Emiliano Tossou












