A empresa pública de telecomunicações da Serra Leoa atravessa dificuldades há vários anos. O mercado é hoje amplamente dominado por operadores privados, nomeadamente a Orange, a Africell e a Qcell.
Durante muito tempo travado pelos elevados custos de reabilitação e exploração das infraestruturas, o governo serra-leonês decidiu optar pelo modelo de Operador de Rede Móvel Virtual (MVNO) para relançar a sua operadora histórica, a Sierratel. Neste contexto, a empresa pública passará a basear-se nas infraestruturas de telecomunicações da Africell, com a qual foi assinado um acordo de parceria com a duração inicial de dez anos.
A iniciativa foi anunciada na terça-feira, 21 de abril, pela ministra da Comunicação, Tecnologia e Inovação, Salima Bah, durante uma conferência de imprensa. A governante fez questão de sublinhar que esta opção não corresponde a uma privatização, mas sim a um reposicionamento estratégico. Segundo ela, as anteriores tentativas de privatização falharam após a retirada de investidores, desencorajados pelos elevados custos de modernização das infraestruturas, pelos passivos laborais associados ao pessoal e pela forte concorrência num mercado já bastante saturado.
A ministra recordou ainda as dificuldades estruturais enfrentadas pela Sierratel. Estas incluem uma rede envelhecida que exige investimentos significativos, problemas de recursos humanos acumulados ao longo de vários anos e uma perda significativa de quota de mercado face aos operadores privados.
A título de exemplo, a empresa enfrenta compromissos com os seus trabalhadores estimados em 6,3 milhões de dólares, num contexto de degradação progressiva das condições de trabalho. Acumula igualmente uma dívida externa importante, incluindo cerca de 35 milhões de dólares devidos a dois bancos. No plano comercial, dados do regulador das telecomunicações indicam que a sua quota de mercado caiu para apenas 1,95% no final de 2019.
Um relançamento sem rede própria
O recurso ao modelo MVNO surge, neste contexto, como uma alternativa que permite contornar os elevados investimentos de capital. A Sierratel prevê assim relançar, num prazo relativamente curto, os seus serviços de voz, dados e mobile money. A operadora apoiará a sua atividade na cobertura existente da Africell, que atingia 92,16% em 2G, 77,48% em 3G e 61,72% em 4G, segundo dados do regulador. A Africell detinha ainda a maior quota de mercado, estimada em 54,51% no final de dezembro de 2024.
Neste modelo, a Sierratel manterá a sua marca e poderá capitalizar a sua notoriedade histórica, ainda amplamente reconhecida pelo público. A aposta centra-se na melhoria da acessibilidade dos serviços e no reforço da concorrência. O regresso da operadora histórica é visto como uma forma de alargar as opções dos consumidores e pressionar a descida dos preços.
Além disso, a parceria pretende responder melhor a alguns segmentos ainda pouco servidos pelas ofertas existentes. Destina-se em particular a estudantes e jovens envolvidos nos setores digital e criativo, através do desenvolvimento de produtos e serviços adaptados às suas necessidades. Esta orientação reflete a vontade de alinhar as ofertas comerciais com os novos usos e dinâmicas da economia digital.
“Não se trata de maximizar os lucros, mas de garantir aos serra-leoneses o acesso a serviços de telecomunicações acessíveis”, afirmou a ministra, acrescentando que a parceria funcionará num modelo de partilha de receitas com a Africell.
De forma mais ampla, a escolha do modelo MVNO insere-se numa tendência observada em vários mercados de telecomunicações em todo o mundo. Segundo a Associação Global de Operadores Móveis (GSMA), este modelo é amplamente utilizado em mercados móveis mais avançados para alargar o acesso aos serviços, diversificar ofertas e estimular a concorrência. Permite aos operadores concentrarem-se em atividades de maior valor acrescentado, como marketing, relação com o cliente ou desenvolvimento de ofertas de nicho, recorrendo simultaneamente à infraestrutura de um operador terceiro. Esta abordagem reduz significativamente os custos de implementação e manutenção da rede, ao mesmo tempo que promove o surgimento de serviços mais flexíveis e competitivos.
Isaac K. Kassouwi













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