O telefone móvel tornou-se uma ferramenta vital para trabalhar, aprender, pagar e manter-se ligado em África. A questão da sua longevidade vai muito além do simples conforto de utilização. Remete para questões de poder de compra, justiça social e responsabilidade industrial.
A partir de 18 de fevereiro de 2027, todos os telemóveis comercializados na União Europeia (UE) deverão estar equipados com baterias amovíveis, ou seja, que possam ser facilmente retiradas e substituídas pelo utilizador. Trata-se de um regresso a uma tecnologia antiga, abandonada nos últimos anos pela maioria dos grandes fabricantes de telemóveis. A medida está inscrita no artigo 11 do regulamento europeu adotado a 12 de julho de 2023 sobre baterias e respetivos resíduos, que atualiza as regras em vigor e substitui os antigos textos.
Visto de África, esta decisão europeia vai muito além do debate técnico. No continente, o telemóvel, em particular o smartphone, não é um simples acessório de conforto. É muitas vezes a principal ferramenta de comunicação, informação, trabalho, pagamento, comércio e aprendizagem. Acima de tudo, continua a representar uma despesa pesada para muitos agregados familiares.
A União Internacional das Telecomunicações (UIT) lembra que o custo dos dispositivos continua a ser um dos principais obstáculos ao acesso digital e que, na África subsaariana, um smartphone ainda representa cerca de 45% do rendimento mensal médio. Por sua vez, a Associação Global dos Operadores de Telecomunicações Móveis (GSMA) sublinha, em 2026, que a acessibilidade financeira continua a ser a principal causa do baixo nível de adoção de smartphones em África.
Um desafio financeiro e ambiental
Nestas condições, a bateria não é um detalhe. É muitas vezes ela que determina a “morte” de um telemóvel ainda funcional. Ecrã intacto, placa-mãe operacional, aplicações ainda úteis, mas autonomia em colapso, carregamento instável, sobreaquecimento, desligamentos repentinos. E, na ausência de uma bateria substituível a um custo razoável, todo o aparelho torna-se inutilizável. O desafio no continente não é apenas o direito de reparar, mas também o direito de prolongar a vida de um bem caro.
A outra urgência é ambiental. O mundo gerou 62 milhões de toneladas de resíduos eletrónicos em 2022, segundo a UIT e o Instituto das Nações Unidas para Formação e Investigação (UNITAR), e apenas 22,3% foram documentados como corretamente recolhidos e reciclados. A este ritmo, o volume global poderá atingir 82 milhões de toneladas em 2030. As duas instituições salientam ainda que os resíduos eletrónicos crescem cinco vezes mais depressa do que a taxa de reciclagem documentada.
África não está imune, longe disso. A taxa de recolha e reciclagem formal de resíduos eletrónicos no continente é inferior a 1%, contra 42,8% na Europa. Ora, os telemóveis fazem claramente parte do problema. Ou seja, milhões de dispositivos acabam fora dos circuitos adequados, muitas vezes devido a uma avaria ou a uma bateria danificada, quando poderiam ainda ter uma segunda vida.
A responsabilidade dos reguladores africanos
É aqui que a decisão europeia interpela diretamente África. Se os fabricantes conseguem produzir para a Europa smartphones mais duráveis, mais reparáveis, com baterias substituíveis, peças disponíveis e suporte de software prolongado, porque devem os consumidores africanos continuar a receber ou a comprar dispositivos concebidos como produtos descartáveis? Porque é que um mercado onde muitas vezes os telemóveis são usados durante mais tempo deve continuar a ser o terreno ideal da obsolescência programada?
A interrogação deve ser dirigida claramente aos grandes fabricantes presentes no continente, como a Transsion, Huawei, Samsung, Apple, Xiaomi e outros. África não pode continuar a ser tratada como uma zona de escoamento de smartphones difíceis de reparar, com baterias seladas, peças escassas e atualizações limitadas. O continente precisa de dispositivos concebidos para durar, fáceis de manter, reparáveis localmente e capazes de permanecer úteis muito para além de dois ou três anos. Um smartphone não deve ser um produto descartável de luxo, mas sim um equipamento fiável do dia a dia.
Esta exigência diz também respeito aos poderes públicos africanos. A Europa demonstra que a regulação pode influenciar o design industrial global. Nada impede os Estados africanos, os reguladores, as organizações regionais e as associações de consumidores de abrirem igualmente o debate sobre a reparabilidade, a disponibilidade de baterias, o acesso a peças sobressalentes, a transparência sobre a duração de vida e a responsabilidade dos fabricantes na recolha de resíduos eletrónicos. A economia circular não deve permanecer um slogan importado: pode tornar-se uma política industrial e social adaptada às realidades africanas.
No fundo, a bateria amovível não é um regresso nostálgico aos telemóveis de antigamente. É talvez, pelo contrário, uma ideia de futuro: a de uma tecnologia menos espetacular, mas mais justa. Para África, onde cada compra conta, onde cada aparelho pode durar mais tempo e onde a montanha de resíduos eletrónicos cresce mais depressa do que as soluções de reciclagem, esta evolução europeia tem valor de sinal. Ela diz algo simples: o progresso não deve ser medido apenas pela potência de um smartphone, mas pela sua capacidade de durar.
Muriel Edjo













Meknès - Durabilité de la production animale et souveraineté alimentaire