O Marrocos consolida a sua dupla posição: primeiro produtor automóvel africano e líder regional da reciclagem. A Stellantis aposta num mercado de veículos em fim de vida (VHU) estimado em 544 milhões de dólares até 2030, face aos operadores informais, numa recomposição continental que vê a África do Sul perder terreno.
No Marrocos, a Stellantis inaugurou na quarta-feira, 6 de maio, o seu primeiro centro de desmantelamento automóvel destinado à região Médio Oriente e África (MEA). A unidade, com uma área de 6000 metros quadrados e localizada no bairro de Aïn Sebaâ, pode tratar até 10 000 veículos em fim de vida por ano.
O investimento, de 1,6 milhão de euros (cerca de 1,9 milhão de dólares), eleva para três o número de centros deste tipo operados pelo grupo no mundo, depois de Turim, em Itália, e São Paulo, no Brasil. O centro marroquino deverá gerar cerca de 150 empregos diretos e indiretos em plena capacidade, segundo o construtor.
Uma estratégia industrializada de economia circular
A operação integra-se na estratégia de economia circular da Stellantis, implementada através da sua unidade dedicada SUSTAINera. Os veículos em fim de vida, recolhidos junto de seguradoras, plataformas de leilão e canais especializados, são desmontados para recuperar peças ainda funcionais. Estas peças são depois revendidas através da rede pós-venda do grupo e das plataformas digitais B-Parts, Distrigo e Piyes. As baterias de tração dos veículos eletrificados também beneficiam de uma cadeia específica de reaproveitamento.
«O mercado marroquino de peças reutilizadas poderá atingir 5 mil milhões de dirhams, ou cerca de 544 milhões de dólares, até 2030», declarou à imprensa Jean-Christophe Bertrand. O reino conta com cerca de 4,7 milhões de veículos em circulação e mais de 17 000 atingem anualmente o fim da sua vida útil, segundo dados divulgados pelo grupo.
Marrocos, plataforma industrial regional
A implantação em Casablanca reflete também o peso industrial do país no mapa automóvel africano. Em 2025, Marrocos ultrapassou a África do Sul como maior produtor automóvel do continente, ultrapassando pela primeira vez o limiar simbólico de um milhão de unidades produzidas num único ano, segundo dados nacionais.
Na África Subsaariana, a concorrência chinesa e a crise energética pesam sobre a indústria sul-africana: a fabricante japonesa Nissan vendeu recentemente a sua histórica fábrica de Rosslyn ao grupo chinês Chery, enquanto a alemã Volkswagen colocou a sua fábrica de Kariega sob vigilância.
Para a Stellantis, o centro de desmantelamento vem complementar um dispositivo marroquino já robusto: o complexo industrial de Kenitra, cuja expansão anunciada em julho de 2025 mobiliza 1,2 mil milhões de euros para duplicar a capacidade de produção e elevar a taxa de integração local para 75% até 2030, e o Africa Technical Center, também sediado em Casablanca.
«Dispomos de numerosas oportunidades de crescimento no Médio Oriente e em África, e aquilo que estamos a fazer em Marrocos poderá constituir um modelo de desenvolvimento para vários mercados», acrescentou Jean-Christophe Bertrand. O centro de Casablanca, concebido como projeto-piloto regional, deverá servir o mercado marroquino e também o da África Ocidental, onde a Stellantis procura expandir a cadeia de valor das peças sobressalentes.
Resta saber como os operadores informais do mercado de peças usadas, estruturalmente presentes nas cidades africanas, irão reorganizar-se perante esta industrialização progressiva da reciclagem automóvel.
Fiacre E. Kakpo












