Segundo um relatório da Smile ID, cerca de 69% das fraudes biométricas que visam as fintech africanas são agora geradas por inteligência artificial, numa altura em que os cibercriminosos passam a visar cada vez mais contas já existentes. Uma evolução que poderá fragilizar a confiança nos serviços financeiros digitais e travar os progressos da inclusão financeira no continente.
Cerca de 69% das fraudes biométricas dirigidas às fintech africanas são atualmente geradas por inteligência artificial, segundo um novo relatório publicado pela empresa de verificação de identidade Smile ID, uma plataforma africana especializada em verificação de identidade digital, deteção de fraude e conformidade KYC/AML. O estudo destaca uma transformação profunda nos métodos utilizados pelas redes criminosas na economia digital do continente.
Intitulado «Digital Identity Fraud in Africa 2026», o relatório baseia-se na análise de mais de 200 milhões de verificações de identidade realizadas em 2025 em 35 países africanos, provenientes de uma base de dados acumulada com mais de 400 milhões de verificações desde 2019. As conclusões mostram que a fraude está a deslocar-se progressivamente para contas já existentes, em vez de se concentrar na criação de perfis falsos.
Durante muito tempo, as plataformas fintech concentraram os seus sistemas de segurança na fase de abertura de conta, exigindo a apresentação de um documento de identificação e um selfie para verificar a identidade dos novos utilizadores. No entanto, os fraudadores passaram agora a direcionar os ataques para momentos críticos de acesso às contas, como inícios de sessão, redefinições de palavra-passe ou mudanças de dispositivo.
Segundo a Smile ID, estas tentativas de apropriação de contas são agora cinco vezes mais frequentes do que as fraudes na fase de registo. Os sistemas de segurança são muitas vezes menos rigorosos nestas etapas, criando oportunidades para os cibercriminosos.
O estudo revela também o crescimento de redes organizadas capazes de realizar ataques em grande escala. Num único caso observado em 2025, um grupo de fraudadores terá utilizado cerca de uma centena de rostos biométricos roubados para lançar mais de 160 mil tentativas de verificação num mês em várias plataformas fintech africanas.
Algumas identidades foram utilizadas mais de 12 mil vezes em tentativas de acesso, o que demonstra uma reutilização sistemática de dados biométricos roubados. Para os investigadores da Smile ID, estas práticas evidenciam o surgimento de verdadeiras «cadeias de fornecimento» de identidades digitais, alimentadas por bases de dados pirateadas ou por credenciais recolhidas em mercados clandestinos.
Uma ameaça direta à inclusão financeira
A inteligência artificial desempenha agora um papel central nestas operações. O relatório estima que 69% dos casos de fraude biométrica detetados em 2025 envolveram tecnologias de IA, incluindo deepfakes, rostos sintéticos ou manipulações faciais automatizadas.
Estas ferramentas permitem aos fraudadores criar identidades digitais credíveis a custos muito baixos e testar repetidamente os sistemas de segurança até encontrarem uma vulnerabilidade.
A pressão é particularmente visível na África Ocidental, onde as tentativas de fraude na banca de retalho aumentaram cerca de 50% em 2025, sobretudo durante acessos às contas ou processos de recuperação de conta.
Para os especialistas, esta evolução levanta um desafio importante para o futuro das finanças digitais em África. Na última década, a proporção de adultos africanos com uma conta financeira passou de 34% para quase 60%, o que representa mais de 200 milhões de novas contas.
No entanto, este progresso poderá ser comprometido caso a confiança dos utilizadores seja afetada.
«Se as pessoas considerarem que é mais seguro regressar ao dinheiro físico ou aos circuitos informais, os avanços alcançados em matéria de inclusão financeira poderão ser postos em causa», alertou Mark Straub, diretor-executivo da Smile ID.
Fiacre E. Kakpo












