Desde junho de 2025, a UEMOA regista uma inflação negativa inédita, impulsionada pela queda dos preços dos alimentos e da energia. Em dezembro, a diminuição atingiu –0,8 % em termos anuais. A deflação é explicada pela redução de preços importados, pelo efeito da taxa de câmbio e por uma boa campanha agrícola, sem, contudo, refletir uma recuperação da procura interna.
Um fenómeno raro na região
A inflação é negativa na União Económica e Monetária do Oeste Africano (UEMOA) desde junho de 2025. Em dezembro, a descida dos preços atingiu –0,8 % em termos anuais, após –0,5 % em novembro. Esta situação contrasta com as fortes pressões inflacionistas observadas nos anos anteriores e levanta uma questão central: de onde vem esta deflação duradoura?
Uma queda de preços em grande parte importada
O primeiro fator explicativo é o ambiente internacional. Em 2025, os preços globais das matérias-primas caíram significativamente. O preço do petróleo bruto recuou 16 % em relação ao ano anterior, enquanto os produtos alimentares importados pelos países da UEMOA registaram uma diminuição média de 27,6 %.
No detalhe, a descida foi especialmente acentuada para o arroz (–40 %), o açúcar (–31,9 %), o leite (–17,7 %) e os óleos vegetais (–7,2 %). Em economias em que a alimentação representa uma parte importante do cesto de consumo das famílias, estas variações têm um efeito direto sobre o índice de preços no consumidor.
O efeito amplificador da taxa de câmbio
A esta deflação importada soma-se um efeito cambial favorável. Em 2025, o euro apreciou-se mais de 12 % face ao dólar. O franco CFA, atrelado à moeda europeia, beneficia mecanicamente desta evolução. Como resultado, as importações denominadas em dólares, nomeadamente os hidrocarbonetos e alguns produtos alimentares, tornam-se mais baratas para os países da União, reforçando a tendência descendente dos preços.
Boa campanha agrícola, mas procura interna ainda fraca
A manutenção da inflação negativa deve-se também à melhoria da oferta agrícola. Segundo a BCEAO, as primeiras estimativas da campanha 2025/2026 indicam um aumento de 7,7 % na produção de cereais na União, dinâmica que tem um efeito direto na queda dos preços dos produtos básicos. Este choque positivo na oferta, combinado com a forte descida dos preços alimentares importados, sustenta a deflação observada desde meados de 2025, sem, contudo, sinalizar uma recuperação robusta da procura interna. A inflação subjacente – que exclui os produtos alimentares frescos e a energia, mais voláteis – situou-se em 0,1 % em dezembro de 2025, enquanto a inflação global era negativa. Ou seja, excluindo os produtos voláteis, os preços praticamente estagnam.
Simultaneamente, o índice global de atividade da União, que passou para 100,9 após 101,2 em outubro e 100,8 em novembro, manteve-se próximo da média de longo prazo. Esta evolução traduz uma atividade globalmente estagnada no comércio, na indústria e nos serviços, insuficiente para contrariar a queda dos preços importados.
A prudência persistente da BCEAO
Perante esta situação, o Banco Central dos Estados da África Ocidental (BCEAO) decidiu manter a sua política monetária inalterada. Desde junho de 2025, a taxa mínima para submissão a leilões de liquidez está fixada em 3,25 %, e a taxa da janela de empréstimo marginal em 5,25 %. Apesar de sete meses de inflação negativa, a instituição privilegia a estabilidade financeira e o controlo dos riscos orçamentais, num contexto de elevadas necessidades de financiamento dos Estados.
Se, por um lado, a atual deflação alivia temporariamente o poder de compra das famílias, por outro permanece frágil e dependente de fatores externos. O crescimento da União continua robusto, com um PIB real estimado em 6,7 % em 2025. Contudo, a transmissão desta dinâmica para a procura privada é parcial. No final de dezembro de 2025, os créditos à economia aumentaram apenas 7,1 % em termos anuais, ritmo moderado face à forte expansão monetária do período (+17,4 % da massa monetária).
Neste contexto, uma subida dos preços mundiais da energia ou dos alimentos poderia inverter rapidamente a tendência deflacionista, explica um académico baseado no Togo. Por outro lado, uma inflação persistentemente negativa colocaria questões sobre o apoio à atividade e a capacidade da região de reforçar o financiamento do setor privado para consolidar a procura interna. Estes são desafios que tornam 2026 um ano decisivo para as economias da UEMOA.
Fiacre E. Kakpo













Marrakech. Maroc