Enquanto Angola enfrenta dificuldades para restaurar sua credibilidade internacional — estando na lista cinzenta do Grupo de Ação Financeira e sem correspondência bancária em dólares há quase dez anos — a International Finance Corporation (IFC) tenta reabrir os canais de financiamento do comércio, ilustrando os desafios de reconexão das economias africanas dependentes de matérias-primas.
A International Finance Corporation, braço dedicado ao setor privado do World Bank Group, concedeu uma facilidade de financiamento ao comércio de 30 milhões de dólares ao Banco de Fomento Angola (BFA). A operação assume a forma de garantia não financiada sobre transações comerciais com duração máxima de 360 dias, estruturada no âmbito do Programa Global de Financiamento do Comércio (GTFP) da instituição.
Nesse mecanismo, a IFC não desembolsa recursos imediatamente, mas compromete-se a cobrir o risco de não pagamento do BFA perante grandes bancos internacionais, chamados bancos confirmadores, responsáveis por garantir aos fornecedores estrangeiros o bom andamento das operações de importação e exportação. Esse sistema permite que o BFA associe suas cartas de crédito à classificação financeira de alto nível da IFC, obtendo assim acesso a linhas de financiamento que dificilmente conseguiria sozinho nos mercados internacionais.
O Banco de Fomento Angola é o segundo maior banco do país em depósitos e créditos. No final de junho de 2025, a instituição contava com 160 agências e mais de 3,4 milhões de clientes. O banco é majoritariamente detido pela operadora de telecomunicações Unitel (36,90%) e pelo grupo bancário português Banco BPI (33,35%), que é uma filial do CaixaBank.
Em setembro de 2025, o banco realizou uma oferta pública inicial (IPO), vendendo 29,75% do seu capital a mais de 8.000 acionistas individuais, uma operação rara em um mercado de capitais ainda pouco desenvolvido.
Financiamento do comércio exterior ainda sob restrições
O financiamento do comércio exterior continua profundamente limitado na África. O déficit de financiamento comercial no continente é estimado em mais de 100 bilhões de dólares, segundo instituições multilaterais, impulsionado pela baixa liquidez em dólares, pelas crescentes exigências de conformidade regulatória e pelas dificuldades na avaliação do risco de crédito.
Em Angola, essas restrições são agravadas pela ausência de correspondência bancária direta com bancos americanos, situação que persiste desde novembro de 2016, após a saída do Deutsche Bank. Desde então, os bancos locais são obrigados a passar por intermediários europeus para realizar pagamentos internacionais, o que aumenta os custos.
O país também foi incluído na lista cinzenta do Grupo de Ação Financeira em outubro de 2024, devido a deficiências no sistema de combate à lavagem de dinheiro, o que tornou ainda mais difícil o acesso às linhas de crédito internacionais.
Apesar disso, alguns avanços positivos foram registrados. No final de 2025, o JPMorgan Chase retomou o clearing em dólares para Angola — ou seja, o processamento e liquidação de transações em moeda americana, interrompidos desde a saída do Deutsche Bank em 2016. Observadores interpretam esse retorno como um sinal de renovada confiança dos atores financeiros internacionais nas reformas iniciadas por Luanda.
Fiacre E. Kakpo












