Um relatório do BCG estima entre 140 e 150 mil milhões de dólares o potencial de exportação do setor criativo africano até 2030, impulsionado em mais de 60% por mulheres. No entanto, o financiamento continua praticamente inexistente.
Existe uma ironia persistente na narrativa económica africana. O continente, que alberga mais de 30% das reservas minerais mundiais, há muito que exporta as suas riquezas brutas para vê-las transformadas, valorizadas ou até renomeadas noutros lugares, antes de as recomprar a preços elevados. Ora, surge agora um tipo de recurso não extrativo, não externalizável e impossível de esgotar, que começa a remodelar esta equação. Trata-se da criatividade, e ela tem predominantemente rosto feminino.
Esta é a tese central de um relatório publicado em fevereiro de 2026 pelo Boston Consulting Group, intitulado «Africa Unleashed: Empowering Women in Creative Industries». O documento, assinado por Lisa Ivers e Zineb Sqalli, apresenta um retrato impressionante de um setor ao mesmo tempo dinâmico e estruturalmente negligenciado. A economia criativa africana, que engloba, entre outros, moda, música, cinema, design e conteúdos digitais, representa atualmente cerca de 59 mil milhões de dólares.
Isto representa menos de 3% de um mercado global avaliado em quase 2 000 mil milhões de dólares. A diferença é vertiginosa, mas constitui também, segundo o BCG, uma oportunidade.
A demografia como motor
Três motores sustentam esta perspetiva. O primeiro é demográfico: a África alberga cerca de 890 milhões de pessoas com menos de 25 anos, correspondendo a quase 60% da sua população total. Esta juventude constitui não só um reservatório de mão de obra, mas também uma base de consumidores culturais ávidos, e uma geração de criadores nativamente digitais.
O segundo motor é digital: entre 300 e 400 milhões de africanos interagem ativamente nas redes sociais, com a rápida disseminação dos smartphones e a melhoria da conectividade. Plataformas de entretenimento como TikTok, YouTube e Spotify tornaram-se circuitos de exportação cultural a baixo custo.
O terceiro motor é patrimonial: as tradições e códigos africanos em design, estética e narrativa constituem um capital de propriedade intelectual cultural ainda largamente submonetizado nos mercados externos, mas amplificado por uma diáspora de mais de 200 milhões de pessoas que aumenta a sua projeção comercial.
Segundo o BCG, se a África conseguisse duplicar a sua quota no mercado criativo mundial até 2030 — passando de 3% para 6% —, as suas exportações criativas poderiam atingir entre 140 e 150 mil milhões de dólares. Um cenário que pressupõe que as condições de investimento consigam acompanhar, pelo menos parcialmente, o potencial identificado.
Moda, setor-chave de 31 mil milhões de dólares, impulsionado por mulheres
No coração deste sistema está o género feminino. No setor da moda e design, avaliado em 31 mil milhões de dólares, as mulheres representam mais de 60% da força de trabalho a nível continental. No Quénia e em Madagascar, esta proporção ultrapassa os 80%.
Desde a produção têxtil até à direção criativa, passando pelo comércio transfronteiriço, elas estão presentes em todos os elos da cadeia de valor. Segundo o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), com apoio adequado, a indústria da moda africana poderia contribuir até 50 mil milhões de dólares para o PIB continental e criar 400 000 empregos na África subsariana.
No entanto, os números de investimento contam uma história radicalmente diferente. Em 2024, as indústrias criativas africanas captaram menos de 1% do financiamento de capital de risco no continente, correspondendo a apenas 1,5 milhões de dólares em transações divulgadas. Ao mesmo tempo, a fintech mobilizava 1,35 mil milhões de dólares. Mais de 90% das empresas de moda operam com capital inferior a 1000 dólares. As mulheres, em particular, recebem menos de 10% do financiamento disponível, um valor que muitas vezes cai abaixo de 1% na Nigéria.
Para além do capital…
O BCG toma cuidado em não reduzir a solução apenas ao acesso ao financiamento. Estudos de caso na Etiópia, onde o parque industrial de Hawassa criou mais de 24 000 empregos, 80% ocupados por mulheres, e no Ruanda, cuja política de restrição à importação de roupas usadas fez passar o número de empresas têxteis de menos de 10 para cerca de 70 em seis anos, mostram que uma intervenção pública direcionada pode produzir efeitos mensuráveis.
Nos dois casos, a variável determinante não foi o mercado, mas sim a vontade política. Segundo o gabinete, o que precisa ser construído é um ecossistema viável: capital adaptado às realidades informais e sazonais, hubs de produção descentralizados, acesso a mercados formais, proteção jurídica da propriedade intelectual e formação digital podem constituir os seus pilares.
Fiacre E. Kakpo












