Confrontado a restrições orçamentais, o Senegal pretende recorrer cada vez mais a investidores privados para continuar o desenvolvimento das suas infraestruturas. A dívida pública reduz, de facto, a capacidade do Estado de financiar sozinho os projetos estruturantes previstos na agenda «Senegal 2050».
O novo documento de estratégia de país 2026-2031 do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) faz do financiamento privado uma alavanca central para apoiar os grandes projetos de transporte no Senegal, num contexto de reduzida margem orçamental devido à dívida externa. No final de 2025, a carteira ativa da BAD no país representava 2,6 mil milhões de dólares, distribuídos por 37 operações. Os transportes concentravam sozinhos 36% dos compromissos, à frente da agricultura e das finanças, confirmando o seu estatuto de setor prioritário para a transformação económica do país.
Esta orientação surge num momento em que várias infraestruturas estratégicas necessitam de investimentos avultados. Apesar dos programas lançados nos últimos anos, a rede rodoviária senegalesa degradou-se entre 2019 e 2024, segundo a instituição, nomeadamente devido a um défice de manutenção. As autoridades também visam a expansão da rede de autoestradas para mais de 900 quilómetros até 2030, de forma a melhorar a mobilidade de pessoas e mercadorias.
O setor ferroviário figura igualmente entre as prioridades. O governo prevê, nomeadamente, a reabilitação da linha Dakar–Bamako, um eixo-chave para as trocas com o vizinho Mali. Este projeto responde a uma vontade de reforçar a integração regional e de oferecer uma alternativa mais competitiva ao transporte rodoviário neste corredor.
Para financiar estas ambições num contexto de fortes restrições orçamentais, a BAD prevê aumentar significativamente o recurso a operações ditas não soberanas, ou seja, financiadas diretamente pelo setor privado sem garantia do Estado. Estas operações deverão representar 42% do programa indicativo 2026-2031, contra apenas 5% da carteira atual.
As parcerias público-privadas (PPP) deverão assim ganhar maior relevância como modelos de execução de infraestruturas de transporte. A estratégia prevê igualmente o recurso a mecanismos inovadores como o «asset recycling», que consiste em conceder a exploração ou valorização de infraestruturas existentes a operadores privados, de forma a libertar recursos para financiar novos projetos.
Esta abordagem deverá criar novas oportunidades para concessionárias de infraestruturas, grupos de transporte e logística, bem como para investidores institucionais à procura de ativos de longo prazo no mercado africano. Estas soluções propostas para o Senegal fazem parte das opções recomendadas pela BAD no seu relatório «Perspetivas Económicas em África 2026».
Para a instituição, as restrições orçamentais e as dificuldades de acesso ao financiamento continuam a alimentar o défice de infraestruturas no continente africano, estimado em 1 300 mil milhões de dólares por ano, apesar de existirem cerca de 4 000 mil milhões de dólares em poupanças por mobilizar. A maior mobilização de capitais privados surge assim como uma alavanca para acelerar a execução de projetos estruturantes sem aumentar ainda mais o endividamento público.
No entanto, o sucesso desta estratégia dependerá de vários fatores, nomeadamente da capacidade do Senegal em manter um enquadramento macroeconómico estável, reforçar a manutenção das suas infraestruturas e estruturar projetos suficientemente atrativos para mobilizar capital privado de forma sustentável. A qualidade do enquadramento regulatório das PPP e a capacidade de propor projetos financiáveis serão elementos determinantes para atrair investidores.
Nos segmentos rodoviário, ferroviário e logístico, o desafio passa agora por transformar esta nova abordagem financeira em realizações concretas no terreno.
Henoc Dossa













Johannesburg