O setor aéreo nigeriano evitou a paralisação, após o cancelamento temporário de uma greve anunciada pelas companhias aéreas, que denunciam o aumento do preço do combustível de aviação, dificultando as suas operações.
Reunidas na Airline Operators of Nigeria (AON), cerca de uma dúzia de companhias nigerianas ameaçavam suspender os seus voos a partir desta segunda-feira, 20 de abril, alegando um aumento insustentável dos custos do combustível de aviação. Perante esta pressão, o ministro da Aviação e do Desenvolvimento Aeroespacial, Festus Keyamo, interveio numa carta datada de quinta-feira, 16 de abril, apelando à contenção por parte das companhias, ao mesmo tempo que reconheceu a pressão causada pela escalada dos custos.
Uma suspensão condicional, à espera de negociações
Após uma reunião de emergência realizada no domingo, 19 de abril, as companhias aceitaram suspender o movimento de forma condicional. Esta decisão depende dos resultados de um encontro previsto para quarta-feira, 22 de abril, em Abuja, com as autoridades, reguladores e intervenientes do setor, com o objetivo de encontrar uma solução considerada sustentável.
A tensão surgiu devido a um aumento extremamente rápido do preço do jet fuel na Nigéria, estimado em cerca de 300%. O litro passou de aproximadamente 900 para 3300 nairas (cerca de 0,67 a 2,45 dólares), um nível que as companhias consideram incompatível com a continuidade das suas atividades em condições normais. No país, o combustível representa mais de um terço dos custos operacionais das companhias aéreas, tornando o setor particularmente sensível às variações de preços.
Esta crise local insere-se num contexto internacional marcado pelo aumento dos preços do combustível de aviação, ligado às perturbações do mercado energético decorrentes do conflito no Irão. À escala global, os preços aumentaram cerca de 30%, mas o impacto é amplificado em África devido a constrangimentos estruturais. O combustível de aviação é adquirido no continente a níveis pelo menos 17% superiores à média mundial, enquanto cerca de 70% do abastecimento transita pelo estreito de Ormuz, uma zona exposta a tensões geopolíticas.
Uma fragilidade estrutural do transporte aéreo africano
Para além do preço, a própria estrutura do setor acentua a fragilidade das companhias africanas. O combustível representa entre 30% e 40% dos seus custos operacionais, contra 20% a 25% a nível mundial. Esta forte dependência torna qualquer variação de preços imediatamente crítica para o equilíbrio financeiro. As companhias nigerianas referem também constrangimentos de tesouraria agravados por exigências de pagamentos antecipados impostas por alguns serviços e fornecedores.
A suspensão da greve ocorre num país onde o transporte aéreo se tornou um meio essencial de mobilidade interna. A Nigéria registou mais de 10,5 milhões de passageiros domésticos em 2025, num contexto em que as alternativas terrestres continuam limitadas devido ao congestionamento rodoviário e a uma rede ferroviária pouco desenvolvida.
A decisão de suspender a greve permanece, no entanto, condicionada aos resultados das discussões de 22 de abril.
As companhias aguardam medidas concretas para estabilizar os custos e assegurar a continuidade das operações. Insistem igualmente na necessidade de manter os serviços aeroportuários e reduzir as pressões financeiras imediatas.
Uma crise reveladora das vulnerabilidades do continente
Esta crise ultrapassa o contexto nigeriano. Ilustra a vulnerabilidade do transporte aéreo africano aos choques energéticos globais e às tensões geopolíticas. Em vários países do continente, as companhias já começaram a repercutir o aumento dos custos através de sobretaxas de combustível, refletindo uma adaptação progressiva, mas socialmente sensível.
A reunião em Abuja surge, assim, como um momento decisivo para evitar uma desestabilização mais profunda do setor aéreo nigeriano. A longo prazo, o desafio será a capacidade do setor de absorver de forma sustentável choques de preços num ambiente energético instável, sem comprometer a conectividade e a mobilidade na região.
Olivier de Souza













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