Nesta entrevista concedida à Agence Ecofin, Abdourahman Ali Abdillahi, diretor-geral da Air Djibouti, fala sobre a decisão inédita da companhia nacional de contribuir voluntariamente para o registro de carbono soberano do Djibouti. Ele detalha o funcionamento desse mecanismo inovador, seus impactos concretos e a visão estratégica da empresa em matéria de transição ecológica, desenvolvimento regional e soberania econômica. Uma iniciativa proativa que pretende inspirar outras companhias africanas.
AAA: A Iniciativa de Carbono Soberano da República de Djibouti foi concebida, desde o início, para redirecionar os esforços financeiros dos poluidores internacionais para o país onde eles operam, isentando os operadores nacionais. O objetivo é claro: conciliar ambição ambiental e desenvolvimento econômico.
Porém, as mudanças climáticas são uma realidade urgente que devemos enfrentar coletivamente. Cada um deve assumir sua parte de responsabilidade. Como lembrou o Presidente Ismaïl Omar Guelleh: “Diante da crise climática, a inação não é uma opção.”
Na Air Djibouti, embora sejamos uma companhia modesta na cena internacional, estamos plenamente conscientes do nosso papel. Estamos determinados a contribuir, na nossa escala, para o esforço de descarbonização do setor aéreo e a participar ativamente dessa transformação necessária.
AAA: O Registro de Carbono Soberano de Djibouti foi criado para registrar todos os movimentos de aviões (e navios) na chegada e na partida do território. Ele calcula a pegada de carbono desses trajetos, com base nas metodologias reconhecidas pela OACI (Organização da Aviação Civil Internacional).
A contribuição está fixada em 17 USD por tonelada de CO₂, calculada sobre 50% da pegada de carbono de cada movimento. Os 50% restantes são de responsabilidade do país de origem ou de destino.
O registro é administrado por uma Fundação independente, que garante a integridade e a transparência do mecanismo, com auditorias regulares realizadas por terceiros.
Desde 2023, os recursos arrecadados já financiaram mais de cinquenta projetos de impacto: acesso à água, saúde, gestão de resíduos, programas ambientais e de transição energética em Djibouti. No setor aéreo, eles já contribuíram para a descarbonização do aeroporto de Djibouti, como a aquisição de veículos elétricos. Isso permitiu ao aeroporto obter a certificação Airport Carbon Accreditation, que reconhece seu compromisso com uma trajetória de baixo carbono.
AAA: Sim, claramente. As questões ambientais estão no centro das nossas reflexões, operações e estratégia. Dentro das nossas capacidades, exploramos todas as opções tecnológicas, incluindo os combustíveis sustentáveis (SAF – Sustainable Aviation Fuel).
Já implementamos medidas concretas em Djibouti, como a adoção de veículos logísticos elétricos, em parceria com o aeroporto e a Agência de Carbono Soberano.
AAA: Sim. A Iniciativa Carbone Souveraine lançada em Djibouti tem vocação continental. Por meio da Fundação do Registro de Carbono Soberano Africano, promove-se um mecanismo padronizado e harmonizado para apoiar outros países na criação de suas próprias iniciativas.
É uma oportunidade única para a África financiar estratégias soberanas de desenvolvimento sustentável e luta contra as mudanças climáticas, afirmando sua legitimidade nos mecanismos internacionais.
A República do Gabão, por exemplo, lançou em 2024 sua própria iniciativa inspirada no modelo djiboutiano, sinalizando uma dinâmica de cooperação Sul-Sul em torno de soluções africanas para desafios globais.
AAA: Djibouti quer tirar partido de sua posição única no cruzamento entre Ásia, Europa e Oriente Médio. Localizado em uma das rotas marítimas mais movimentadas do mundo, o país está destinado a se tornar um hub regional, tanto marítimo quanto aéreo.
A Air Djibouti materializa essa ambição, reforçando a conectividade do país com seus parceiros econômicos e logísticos. Investimos em infraestruturas modernas e soluções sustentáveis para fazer da Air Djibouti um ator de referência na região. O objetivo é posicionar Djibouti como plataforma de trânsito, trocas e inovação a serviço do comércio e do desenvolvimento regional.
AAA: Nossos eixos estratégicos atuais são três:
Fortalecer a frota e a rede regional, abrindo gradualmente novas rotas para capitais africanas e hubs do Golfo.
Digitalizar os serviços, com reservas modernas, gestão integrada de carga e ferramentas de rastreamento em tempo real.
Formação e capacitação das equipes, especialmente em funções técnicas e comerciais da aviação, em linha com nossa estratégia de RSE (incluindo a redução do impacto ambiental).
Air Djibouti está em uma dinâmica de crescimento controlado e inclusivo, a serviço da conectividade regional e do desenvolvimento nacional.
AAA: Absolutamente. Não podem mais ser vistas apenas como transportadoras. Elas têm um papel estratégico como instrumentos de soberania econômica, integração regional e transição ecológica.
Num contexto em que questões climáticas, industriais e comerciais estão interligadas, podem ser catalisadoras de políticas públicas: apoiar indústrias locais (manutenção, formação, combustíveis sustentáveis), reforçar a conectividade e contribuir para a redução das emissões.
É hora de vê-las como ferramentas estratégicas de uma visão africana de desenvolvimento sustentável e competitividade global.