Em África, a regulamentação relativa aos OGM continua a ser rigorosa na maioria dos países, sobretudo no que diz respeito à comercialização. Este contexto jurídico restritivo limita as trocas agrícolas com parceiros comerciais como os EUA, que são líderes na biotecnologia agrícola.
Nos Estados Unidos, organizações do sector agrícola apelam à administração de Donald Trump para utilizar a AGOA (African Growth and Opportunity Act) como instrumento para incentivar os países africanos a adotarem regras mais favoráveis aos produtos provenientes das biotecnologias agrícolas (Organismos Geneticamente Modificados – OGM).
Num documento enviado na sexta-feira, 15 de maio, ao Gabinete do Representante Comercial dos Estados Unidos, um grupo de pressão constituído por 15 organizações, entre as quais a Associação Nacional dos Produtores de Milho e a Federação Americana dos Agricultores, considera que as barreiras não pautais ligadas às biotecnologias em África devem ser eliminadas para permitir um maior acesso ao mercado africano.
«A AGOA oferece acesso comercial isento de direitos aduaneiros aos países elegíveis, com o objetivo de gerar benefícios económicos e reforçar as relações com os Estados Unidos. No âmbito destes critérios de elegibilidade, os países devem demonstrar progressos significativos na eliminação dos obstáculos ao comércio e ao investimento. Infelizmente, a grande maioria dos países africanos não adotou políticas que facilitem o comércio de produtos provenientes das biotecnologias agrícolas, o que fecha esses mercados aos agricultores americanos, que precisam de diversificar e conquistar novos mercados em todo o mundo», lê-se no documento.
Lançado em maio de 2000, o programa AGOA permite aos países elegíveis da África Subsaariana exportar mais de 1 800 produtos para os Estados Unidos, incluindo produtos agroalimentares, sem pagamento de direitos aduaneiros, além dos mais de 5 000 produtos já abrangidos pelo Sistema Generalizado de Preferências (GSP).
Um contexto favorável às reivindicações do lobby agrícola americano
Depois de o acordo comercial ter expirado a 1 de outubro de 2025, o presidente americano Donald Trump promulgou, a 3 de fevereiro de 2026, uma nova lei que autoriza a prorrogação da AGOA até ao final do ano. Embora esta extensão de 11 meses represente um alívio para os países beneficiários, Washington apresentou-a como uma fase experimental destinada a «modernizar o programa para o alinhar com a política America First do presidente Trump».
A Casa Branca precisou ainda que os países africanos deverão abrir mais os seus mercados aos produtos americanos para continuarem a beneficiar deste programa de preferências comerciais. «Este esforço de modernização da AGOA representa um momento importante para estabelecer critérios que favoreçam o acesso aos mercados para os agricultores americanos e para lançar as bases de futuras relações comerciais mutuamente benéficas. Sem incentivar os países beneficiários da AGOA a alinharem-se com as políticas americanas relativas às biotecnologias agrícolas, os países africanos correm o risco de continuar a adotar políticas alinhadas com países que não privilegiam a ciência nem respeitam as normas internacionais», defendem as organizações agrícolas americanas.
A questão é ainda mais estratégica porque as trocas agrícolas entre os EUA e África estão a evoluir favoravelmente para os países africanos, reforçando o peso americano nas negociações. Dados compilados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram, por exemplo, que o valor das trocas agroalimentares entre os Estados Unidos e os países africanos aumentou 55 % em 2025, atingindo cerca de 11,57 mil milhões de dólares.
Além disso, a balança comercial apresenta um ligeiro excedente a favor de África, no valor de 141 milhões de dólares, marcando 2025 como o primeiro ano, em cinco anos, em que o continente africano exportou mais produtos agroalimentares para os Estados Unidos do que importou.
Uma fraca integração dos OGM nos sistemas alimentares africanos
Em África, o cultivo de plantas OGM continua limitado a um pequeno número de países, enquanto a maioria dos Estados mantém regulamentações rigorosas ou proibições totais. Dados compilados pelo USDA indicam que, até 2019, apenas seis países africanos autorizavam culturas OGM em diferentes graus (comerciais ou experimentais), entre os quais a África do Sul, o Sudão, a Nigéria e o Quénia, motivados, entre outros fatores, pela procura de soluções para aumentar os rendimentos agrícolas, combater pragas e reforçar a resiliência face às alterações climáticas.
As culturas abrangidas incluem sobretudo o algodão Bt, o milho geneticamente modificado e o feijão-frade Bt. Para vários governos africanos, a prudência regulamentar em relação aos OGM responde a preocupações de biossegurança, soberania das sementes e preservação de determinados mercados comerciais sensíveis. Resta saber se os desafios económicos ligados à AGOA poderão influenciar a evolução das posições regulamentares africanas.
Stéphanas Assocle
O Libéria é o terceiro maior produtor africano de borracha natural, depois da Costa do Marfim e do Gana. Tal como acontece com a maioria das matérias-primas agrícolas em África, a falta de infraestruturas de transformação limita a criação de valor acrescentado e os benefícios para os produtores e para o Estado.
O Libéria acaba de obter um compromisso de investimento de 36 milhões de dólares do grupo agroindustrial asiático Mainland, sediado no Camboja. Segundo informações divulgadas pelo meio de comunicação local Liberian Observer, este projeto de investimento destina-se a reforçar a transformação local da borracha e a melhorar a integração dos pequenos produtores de seringueira nas cadeias de valor.
Este desenvolvimento resulta de um encontro realizado entre Alexander Nuetah e representantes do grupo em Phnom Penh, no âmbito de uma missão de trabalho do Ministério da Agricultura da Libéria ao Camboja, entre 19 e 24 de maio.
Um projeto centrado na transformação local
Segundo os termos do acordo em discussão, a Mainland compromete-se a instalar unidades de transformação da borracha no Libéria. O projeto insere-se numa dinâmica de valorização local das matérias-primas agrícolas, numa altura em que o país continua fortemente dependente da exportação de produtos brutos.
Para assegurar um fornecimento regular de matéria-prima, o projeto prevê também a criação de um sistema de produção por contrato, destinado a ligar os pequenos produtores às unidades de transformação. «A nossa prioridade é construir cadeias de valor agrícolas que beneficiem diretamente os agricultores liberianos. Este investimento representa uma oportunidade, estabilidade e capacitação económica a longo prazo para milhares de famílias produtoras de borracha em todo o país», declarou Alexander Nuetah.
Por enquanto, os detalhes relativos à escolha dos locais de implementação e ao calendário de execução do projeto ainda não são conhecidos. Em todo o caso, se se concretizar, permitirá garantir mercados de escoamento para muitas famílias rurais dependentes da cultura da borracha e estimular o interesse dos pequenos agricultores pela fileira da seringueira.
Uma fileira em busca de estabilidade
A produção de borracha natural continua marcada por grande volatilidade no Libéria. Segundo o Banco Central da Libéria (CBL), recuou 2,3 % em 2025, fixando-se em 73 769 toneladas, devido sobretudo à quebra da produção dos pequenos agricultores. Num período mais alargado, a oferta aumentou 14,34 % desde 2022, de acordo com dados da CBL, o que evidencia as dificuldades persistentes da fileira em estabilizar de forma duradoura a sua produção.
No âmbito do Plano Nacional de Desenvolvimento Agrícola 2024-2030 (NADP), o governo prevê o desenvolvimento de 20 000 hectares de novas plantações de seringueira destinadas a pequenos produtores, bem como a reabilitação de 10 000 hectares de plantações existentes. Estas iniciativas refletem a vontade de Monróvia de reforçar a base produtiva de uma fileira que continua a ser a principal fonte de receitas agrícolas de exportação.
Segundo a CBL, as exportações liberianas de borracha natural geraram cerca de 115 milhões de dólares em 2025.
Stéphanas Assocle
Em África, o Marrocos é um dos países mais afetados pelo défice hídrico. Com vários anos consecutivos de seca e os efeitos das alterações climáticas, o governo aposta na construção de novas barragens para reforçar o abastecimento do país em recursos hídricos.
O Marrocos está a reforçar a sua estratégia de adaptação ao stress hídrico com o lançamento de uma nova obra hidráulica no sudeste do país. Segundo informações divulgadas pelos meios de comunicação locais na segunda-feira, 25 de maio, o Ministério do Equipamento e da Água abriu um concurso internacional para a construção da barragem de Falit, na província de Figuig.
Com um custo total estimado em cerca de 428 milhões de dirhams (aproximadamente 46,5 milhões de dólares), as obras desta nova infraestrutura hidráulica deverão arrancar por volta de 2029/2030.
Uma barragem com vários usos
Prevista a norte de Bouarfa, no uádi Mouloudah, a futura barragem terá uma capacidade de armazenamento de 25 milhões de m³. Será construída em betão compactado com rolo (BCR), terá 59 metros de altura e estará equipada com um sistema de evacuação de cheias, bem como uma conduta de descarga capaz de libertar até 28 m³/s, permitindo esvaziar a albufeira em cerca de quinze dias, se necessário.
Segundo as autoridades, a infraestrutura terá três funções principais: abastecimento de água potável, irrigação agrícola e proteção contra cheias, frequentes em zonas áridas durante episódios de chuvas intensas.
A região de Figuig ilustra os paradoxos hidrológicos do leste marroquino, marcado por precipitações raras, mas por vezes violentas e concentradas, gerando períodos prolongados de seca e riscos de cheias súbitas. As estimativas hidrológicas apontam para uma afluência média anual de 10,3 milhões de m³ no local, com picos que podem atingir 40,8 milhões de m³. Neste contexto, a barragem visa captar e regular uma água altamente irregular, muitas vezes perdida por falta de infraestruturas de armazenamento.
Um investimento estratégico face ao stress hídrico
Para além da gestão da água, estes investimentos refletem uma estratégia mais ampla de segurança hídrica e de apoio ao desenvolvimento agrícola em zonas áridas. A agricultura irrigada representa cerca de 45% do valor acrescentado agrícola, 75% do volume das exportações agrícolas e 86% da produção das culturas industriais no país, segundo dados oficiais.
Reforço da capacidade de armazenamento de água
De forma mais ampla, a construção da barragem de Falit irá reforçar a capacidade de retenção de água no país. O Marrocos, que já explora mais de 150 grandes barragens com uma capacidade total de cerca de 20,8 mil milhões de m³, prepara a entrada em funcionamento de cerca de vinte novas infraestruturas até 2027.
Em abril, o ministro do Equipamento e da Água, Nizar Baraka, afirmou que 16 grandes barragens estão em construção em fases avançadas, enquanto outras sete estão programadas para os próximos anos. Esta política faz parte do Programa Nacional de Abastecimento de Água Potável e de Irrigação 2020-2027, que também prevê a dessalinização da água do mar e a reutilização de águas residuais tratadas.
Num país em stress hídrico estrutural, estas infraestruturas tornaram-se um pilar central das políticas públicas, na interseção entre clima, segurança alimentar e desenvolvimento territorial. Em 2020, o Marrocos dispunha de 620 m³ de água por habitante, contra 2 560 m³ em 1960, segundo o Banco Mundial. Este valor poderá cair abaixo dos 500 m³ por habitante até 2030, limiar de escassez absoluta.
Stéphanas Assocle
Principal produtor africano de milho, a África do Sul afirma-se igualmente como o principal exportador desta cultura no continente. Com o início da campanha de comercialização de 2026/2027, a fileira já estabelece novos objetivos de crescimento no mercado internacional.
A África do Sul poderá colocar cerca de 3 milhões de toneladas de milho no mercado internacional durante a campanha comercial de 2026/2027, que teve início em maio. É o que indica Wandile Sihlobo, economista-chefe da Câmara das Empresas Agrícolas, numa análise publicada na segunda-feira, 25 de maio.
Esta previsão, caso se concretize, representaria um aumento de 50% face ao volume total exportado na temporada anterior (2 milhões de toneladas). Segundo o responsável, esta perspetiva de crescimento assenta numa oferta abundante.
O país colheu 16,8 milhões de toneladas de milho em 2026, um volume recorde, com uma subida de 1% em relação ao ano anterior, ao qual se juntam stocks elevados provenientes da campanha anterior. Com um consumo interno estimado em cerca de 12 milhões de toneladas por ano, a África do Sul dispõe assim de um excedente significativo destinado aos mercados externos.
Pretória antecipa também um aumento da procura nos seus principais mercados da África Austral, uma região exposta a riscos de seca. «Uma procura sustentada poderá surgir na África Austral, sendo que alguns países poderão enfrentar episódios de seca ligados ao fenómeno El Niño, o que poderá reduzir as suas colheitas na próxima campanha agrícola», explica Sihlobo.
Importa notar que o Zimbabué se tornou o principal cliente do milho sul-africano em 2025/2026, concentrando cerca de 39% dos volumes exportados, ou aproximadamente 780 770 toneladas.
Uma situação delicada no mercado externo
Para além das perspetivas para 2026/2027, o aumento esperado poderá sobretudo sinalizar uma recuperação do setor após vários anos de quebra nas exportações.
Dados da Agbiz mostram que as exportações sul-africanas caíram de um pico histórico de 4,1 milhões de toneladas em 2021/2022 para apenas 2 milhões em 2025/2026, uma queda de 51% no período, refletindo igualmente uma redução da procura pelo milho sul-africano no mercado internacional.
Entre os fatores que explicam esta diminuição da procura em alguns mercados tradicionais, nomeadamente no Extremo Oriente, a Agbiz aponta a abundância de milho barato no mercado mundial como principal obstáculo. «Esta situação reduziu a necessidade de importar milho de um fornecedor tão distante como a África do Sul», explica Sihlobo.
Neste contexto, a Agbiz considera que a fileira do milho deve ser mais integrada nas políticas de promoção das exportações agrícolas. Para a África do Sul, o desafio passa agora por consolidar e diversificar os mercados externos de forma a escoar de forma sustentável volumes cada vez maiores. Em 2025, as exportações de milho geraram 760 milhões de dólares, representando 5% das receitas agrícolas de exportação do país.
Stéphanas Assocle
Enquanto África deverá concentrar a maior parte do crescimento demográfico mundial nas próximas décadas, os grandes exportadores de cereais estão a multiplicar iniciativas para assegurar os seus mercados no continente. Um dos pesos-pesados da América do Norte, o Canadá, já manifesta ambições claras.
O Canadá considera a África como um dos principais motores de crescimento para as exportações de trigo nos próximos anos. Foi o que afirmou Leif Carlson, vice-presidente responsável pelos mercados e pelo comércio da associação Cereals Canada, que representa os principais intervenientes da fileira cerealífera do país norte-americano, no dia 22 de maio, ao meio de comunicação Canada Cattleman.
«Consideramos a África como uma oportunidade. Já estamos presentes, mas acreditamos que é possível ir muito mais longe», afirmou. Segundo ele, o crescimento demográfico, a urbanização e o aumento dos rendimentos deverão continuar a impulsionar a procura de produtos à base de trigo no continente.
Uma procura em forte expansão
Segundo projeções demográficas das Nações Unidas, a população africana poderá atingir cerca de 2,5 mil milhões de habitantes em 2050, contra aproximadamente 1,5 mil milhões em 2025, enquanto o continente se afirma atualmente como a segunda região importadora de trigo, logo a seguir à Ásia.
Dados compilados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) mostram que o continente importou em média 52,8 milhões de toneladas de trigo por ano entre as campanhas de comercialização de 2021/2022 e 2023/2024, evidenciando o potencial de crescimento da procura.
Uma quota ainda limitada
Embora o Canadá já exporte trigo para vários mercados africanos importantes, sobretudo no Norte e na África Ocidental, a sua presença continua relativamente modesta à escala continental. Segundo dados da plataforma Trade Map, o país exportou cerca de 5 milhões de toneladas de trigo para África em 2025, um recorde dos últimos cinco anos.
A Argélia representa cerca de metade dessas compras, seguida por Marrocos, Nigéria, Gana e Moçambique. No total, o Canadá fornece cerca de 11% do trigo importado pelo continente africano. As importações africanas totais de trigo atingiram 45,9 milhões de toneladas em 2025, o que abre espaço para crescimento dos exportadores canadianos.
Neste contexto, a Cereals Canada identifica o Quénia, o Camarões e Moçambique como mercados com potencial de expansão. O Quénia importa mais de 2 milhões de toneladas por ano, o Camarões ultrapassa 1 milhão de toneladas e Moçambique importa mais de 700 mil toneladas anuais.
Intensificação da concorrência internacional
As ambições canadianas inserem-se num contexto de concorrência crescente entre grandes exportadores de cereais para aceder ao mercado africano em expansão. A Rússia, atualmente um dos principais fornecedores de trigo em vários países africanos, procura reforçar ainda mais a sua presença no continente.
Durante o quinto Fórum Russo dos Cereais, realizado em Sochi entre 20 e 23 de maio, Moscovo anunciou negociações com o Egito, maior importador mundial de trigo, para a criação de um hub regional de comércio e armazenamento de cereais nos portos do país.
Esta iniciativa reflete a estratégia russa de consolidar a sua posição no mercado egípcio, onde já é líder, e de reforçar a sua presença no Norte de África, principal região importadora do continente.
Mais cedo, em abril, a Ucrânia inaugurou no Gana o seu primeiro hub agrícola em África, com o objetivo de facilitar a ajuda humanitária e expandir a sua presença comercial na África Ocidental.
Além destes dois países da região do mar Negro, fornecedores tradicionais como a França, a Austrália e os Estados Unidos também procuram reforçar a sua posição no mercado africano. Neste contexto, a concorrência deverá intensificar-se à medida que a procura africana aumenta.
Stéphanas Assocle
A África do Sul enfrenta, desde o início de 2026, episódios recorrentes de inundações que afetam tanto as zonas urbanas como as áreas rurais. Esta situação já atinge os principais bacias de produção de citrinos, em plena campanha de comercialização.
Na África do Sul, as fortes chuvas registadas nos últimos dias perturbaram significativamente as zonas de produção de citrinos nas províncias do Cabo Oriental e do Cabo Ocidental. «As primeiras indicações mostram que pomares foram inundados, com algumas árvores arrancadas, e as estimativas iniciais indicam que cerca de 10% a 12% da colheita local poderá ser afetada», declarou o diretor-geral da CGA, Boitshoko Ntshabele, ao meio de comunicação Business Day a 18 de maio.
Esta situação ocorre em plena fase de colheita de limões e tangerinas no âmbito da campanha de comercialização de 2026. Importa referir que a época de exportação de citrinos desta campanha teve início na segunda semana de janeiro e deverá terminar no início de outubro.
Esta nova realidade é ainda mais preocupante porque as províncias afetadas estão entre os principais polos de produção do país. Segundo uma nota do United States Department of Agriculture publicada a 21 de maio, o Cabo Oriental e o Cabo Ocidental concentram, por si só, 46,3% da área total dedicada aos citrinos na África do Sul.
Neste contexto, as inundações poderão resultar numa redução da oferta de fruta, além das perdas económicas associadas aos danos nos pomares e nas infraestruturas agrícolas.
Uma ameaça adicional às perspetivas de 2026
Sendo a produção de citrinos fortemente orientada para a exportação, qualquer quebra na oferta pode também afetar o desempenho do setor nos mercados internacionais.
Esta situação agrava as perspetivas da fileira sul-africana, que já enfrentava riscos ligados a uma procura mais fraca em alguns mercados, nomeadamente no Médio Oriente, onde tensões geopolíticas têm perturbado os fluxos comerciais e a logística marítima. Segundo estatísticas oficiais, esta região absorve cerca de 18% das exportações sul-africanas de citrinos em valor.
Para recordar, os citrinos constituem a principal fonte de receitas de exportação agrícola da África do Sul. Dados da plataforma Trade Map indicam que o país exportou 3,23 milhões de toneladas de citrinos em 2025, gerando cerca de 2,51 mil milhões de dólares em receitas.
Stéphanas Assocle
A Tanzânia afirma-se como o segundo maior produtor africano de mel, depois da Etiópia. Tal como na maioria dos países do continente, a apicultura baseia-se sobretudo em sistemas tradicionais, e o défice de competências dos criadores limita o potencial da fileira.
Na Tanzânia, o governo prevê formar mais de 3 000 apicultores durante o exercício orçamental de 2026/2027, com o objetivo de melhorar o desempenho do setor do mel. O anúncio foi feito por Daniel Pancrasi, diretor interino do departamento de Florestas e Apicultura do Ministério dos Recursos Naturais e Turismo, durante um encontro com os intervenientes da fileira organizado na região de Tabora.
Segundo informações divulgadas pelo meio de comunicação local Daily News a 21 de maio, esta iniciativa será acompanhada também pela distribuição de 11 000 colmeias modernas aos produtores. Concretamente, as formações incidirão sobre técnicas modernas de apicultura, melhoria da qualidade dos produtos da colmeia e a sua valorização comercial.
A medida insere-se na continuidade dos esforços de Dodoma para modernizar o setor e aumentar a produção local de mel. «Durante o exercício 2025/2026, o governo tinha fornecido um total de 9 215 colmeias e formado 4 934 apicultores através de diversos cursos sobre apicultura moderna», explicou Pancrasi.
No país da África Oriental, o potencial apícola ainda está largamente por explorar. Segundo estimativas da Agência dos Serviços Florestais da Tanzânia, o país tem capacidade para produzir 52 000 toneladas de mel por ano. Em comparação, dados compilados pela FAO indicavam uma produção de 32 000 toneladas em 2024.
Para além de satisfazer a procura interna, a exploração deste potencial representa também uma oportunidade comercial importante, sobretudo porque o mel está a ganhar cada vez mais relevância como fonte de receitas de exportação no país.
De acordo com dados do Ministério dos Recursos Naturais, as exportações tanzanianas de mel natural aumentaram 67,82% num ano, passando de 951 toneladas em 2024 para 1 596 toneladas em 2025. Paralelamente, as receitas geradas cresceram 68,4%, atingindo 19,2 mil milhões de xelins (7,37 milhões de dólares) no mesmo período.
Stéphanas Assocle
O chá é a bebida mais consumida no mundo depois da água. Em 2026, o mercado mundial enfrenta fortes tensões devido à volatilidade dos preços das matérias-primas agrícolas e às tensões geopolíticas que estão a redesenhar o comércio marítimo.
As exportações mundiais de chá geraram cerca de 8,1 mil milhões de dólares por ano, em média, entre 2021 e 2025, dos quais 20% foram realizados por países africanos, segundo dados compilados na plataforma Trademap. Por ocasião do Dia Internacional do Chá, proclamado pela ONU em 2019 e celebrado anualmente a 21 de maio, eis os principais pontos a reter sobre os desafios do mercado mundial da folha em 2026 e os fatores suscetíveis de perturbar o setor.
Segundo ano consecutivo de queda dos preços
O chá prepara-se para registar, em 2026, o segundo ano consecutivo de queda dos preços no mercado mundial, segundo as mais recentes projeções do Banco Mundial publicadas em abril no relatório Commodity Outlook. Depois de atingir uma média de 3,04 dólares/kg em 2024, o preço da folha recuou 4% em 2025 e deverá registar uma nova descida de 2% este ano.
Segundo a instituição de Bretton Woods, os preços mundiais já caíram 8% no primeiro trimestre de 2026, em comparação trimestral, devido a uma oferta mundial abundante, sobretudo proveniente da Ásia, principal centro de produção.
«Apesar de algumas preocupações relativas à produção no Quénia e no Uganda, o mercado mundial do chá continua bem abastecido, principalmente graças ao aumento da produção na Índia… As perturbações da oferta ligadas às condições meteorológicas, combinadas com uma forte procura de chá de qualidade superior, sustentaram os preços no leilão de Mombaça, enquanto os preços nos leilões de Calcutá e Colombo caíram 22% e 5%, respetivamente, refletindo uma oferta abundante», sublinha o relatório.
O impacto do conflito no Médio Oriente
Para além dos fatores ligados à oferta mundial, o mercado do chá enfrenta há vários meses as consequências das tensões geopolíticas no Médio Oriente.
Numa análise publicada na segunda-feira, 30 de março, a agência especializada Expana Markets indica que o conflito regional resultante da ação militar dos Estados Unidos e de Israel no Irão está a perturbar cada vez mais os fluxos comerciais da folha desde fevereiro de 2026.
Segundo várias fontes industriais citadas pela agência, os comerciantes da África Oriental e do Sul da Ásia enfrentam dificuldades logísticas e financeiras, num contexto de desaceleração da procura proveniente do Irão e dos mercados do Golfo. Vários compradores do Golfo hesitam atualmente em confirmar encomendas ou efetuar pagamentos devido ao aumento dos prémios de risco e às incertezas logísticas. Esta situação reduz a participação nos leilões e exerce pressão adicional sobre os preços das qualidades premium, historicamente destinadas aos mercados do Médio Oriente.
O impacto é particularmente visível no Quénia, principal exportador mundial de chá preto. Numa entrevista concedida à Reuters em abril passado, George Omuga, diretor-geral da Associação dos Comerciantes de Chá da África Oriental, responsável pelos leilões de chá de Mombaça, indicava que as perdas acumuladas desde 1 de março atingiam cerca de 8 milhões de dólares por semana.
«O atual conflito no Médio Oriente teve um impacto direto e negativo sobre este leilão… Nenhum chá estava atualmente a ser enviado para o Médio Oriente, que representa entre 20% e 25% das exportações de chá do Quénia, enquanto os compradores também reduziam as suas aquisições, porque até os stocks já adquiridos deixaram de circular.»
Com o abrandamento das compras iranianas e dos países do Golfo, os exportadores são agora obrigados a redirecionar parte dos seus volumes para outros mercados na África do Norte, Europa ou Ásia Central, muitas vezes a preços inferiores. Esta situação fragiliza ainda mais fileiras já expostas à volatilidade dos preços mundiais e aos riscos climáticos.
Estrutura das exportações africanas
Entre a queda dos preços e as tensões geopolíticas, África encontra-se inevitavelmente influenciada pela dinâmica do mercado internacional. Esta situação exerce uma pressão crescente sobre os países exportadores, sobretudo os da sub-região oriental, motores da oferta continental.
Os dados da Trademap mostram que as exportações africanas de chá geraram 1,45 mil milhões de dólares em 2025. Líder histórico das exportações, o Quénia representou cerca de 80% das remessas, tanto em volume como em valor. Entre os outros grandes intervenientes destacam-se o Uganda, o Ruanda e o Malawi. Para estes países, a queda prolongada dos preços representa um risco direto para as receitas de exportação e para os rendimentos de milhões de pequenos produtores.
Importa igualmente referir que, em 2025, os países do Médio Oriente absorveram cerca de 20% das exportações de chá provenientes do continente africano, num valor aproximado de 321,2 milhões de dólares.
Stéphanas Assocle
O digital dava até agora a impressão de ter escapado às velhas restrições da geografia, da energia e das infraestruturas. Os debates centravam-se sobretudo nos algoritmos, nos dados, nos semicondutores ou nos talentos tecnológicos. Mas a corrida mundial pela inteligência artificial recorda uma evidência muito mais material: por trás de cada infraestrutura de IA esconde-se, antes de mais, uma questão energética.
No Quénia, esta realidade voltou a surgir de forma espetacular. Quase dois anos após o anúncio com grande destaque do projeto de centro de dados liderado pela Microsoft e pelo grupo emiradense G42, as discussões avançam mais lentamente do que o previsto. As dificuldades dizem respeito naturalmente às garantias financeiras, mas sobretudo às necessidades energéticas da infraestrutura. O próprio presidente William Ruto reconheceu recentemente que seria quase necessário “cortar a eletricidade a metade do país” para alimentar uma instalação desta dimensão. Se a expressão marcou os espíritos, ela revela sobretudo algo muito mais profundo sobre a nova economia mundial que está a emergir.
A IA dá um valor ainda mais estratégico à eletricidade
O problema vai muito além do caso do Quénia. Segundo a Agência Internacional de Energia, o consumo elétrico mundial dos centros de dados poderá quase duplicar até 2030 devido à explosão da inteligência artificial.
Por trás das promessas de soberania digital, a IA coloca novamente os Estados perante uma equação muito clássica: sem energia abundante, estável e controlável, não haverá nem cloud soberano nem capacidade de computação sustentável. Melhor ainda, a capacidade de produzir e garantir grandes quantidades de eletricidade torna-se progressivamente um dos principais determinantes da hierarquia digital mundial.
É precisamente isto que torna a situação africana paradoxal, enquanto a McKinsey prevê que a procura de centros de dados no continente será multiplicada por mais de três até ao final da década. No momento em que o continente procura acelerar a sua transição digital, a IA transforma as infraestruturas energéticas em ativos geopolíticos fundamentais e a África tem de lidar com sistemas elétricos ainda frágeis, caros ou insuficientemente interligados.
A África possui ativos energéticos muito procurados
O paradoxo não significa, contudo, que o continente esteja condenado a ficar à margem. Pelo contrário, a África dispõe provavelmente de alguns dos ativos energéticos mais estratégicos da futura economia digital mundial. Hidroeletricidade, energia solar, geotermia, potencial eólico, hidrogénio verde… várias regiões africanas possuem recursos consideráveis num momento em que as grandes potências e os gigantes tecnológicos procuram capacidades energéticas capazes de alimentar as suas infraestruturas digitais.
Durante muito tempo considerados sobretudo sob o ângulo do acesso à eletricidade ou da transição energética, estes recursos ganham agora um novo valor. A escolha de Olkaria pela Microsoft e pela G42 não é, aliás, inocente. A região é conhecida pelo seu importante potencial geotérmico, frequentemente apresentado como uma das fontes de energia renovável mais estáveis do continente.
Os gigantes do cloud já não procuram apenas mercados ou utilizadores. Procuram também territórios capazes de produzir a energia necessária às suas infraestruturas digitais. E é precisamente aí que começa o verdadeiro desafio estratégico para a África.
A questão já não é apenas saber se o continente participará na revolução da inteligência artificial. Trata-se agora de determinar sob que forma o fará. Construirá a África a sua própria soberania digital em torno das suas capacidades energéticas e infraestruturas de computação? Ou tornar-se-á sobretudo um território energético destinado a alimentar as infraestruturas cloud e as ambições tecnológicas dos outros?
Por trás dos megawatts necessários aos centros de dados e à inteligência artificial joga-se também uma parte do futuro industrial do continente. Mineração, transformação local, mobilidade elétrica, cloud, serviços digitais, indústria transformadora… todos estes setores dependerão, no futuro, da capacidade dos Estados africanos de construir sistemas energéticos muito mais robustos, interligados e financiados em grande escala.
Enquanto as promessas de transformação energética do continente ainda não foram plenamente concretizadas, a revolução da IA devolve um novo valor económico, geopolítico e industrial a investimentos durante muito tempo considerados demasiado caros ou complexos.
Será ainda necessário que os Estados africanos, as instituições regionais, os bancos de desenvolvimento e os atores privados consigam pensar esta questão energética como um projeto estratégico continental, e não como uma sucessão de projetos nacionais isolados.
Louis-Nino Kansoun, Redator-Chefe
A criação de abelhas faz parte integrante da agricultura e do desenvolvimento rural em África. Em Moçambique, onde ainda ocupa um lugar marginal na economia, as autoridades pretendem desenvolver o setor através da modernização das infraestruturas de produção.
Moçambique prevê mobilizar cerca de 10 milhões de dólares para desenvolver a sua cadeia apícola, com o apoio do Banco Mundial. Foi o que revelou Roberto Albino, ministro da Agricultura, do Ambiente e das Pescas, a 20 de maio, por ocasião do Dia Mundial das Abelhas celebrado em Maputo.
Segundo informações divulgadas pelo média local Club of Mozambique, esta verba será utilizada em dois principais eixos. O primeiro prevê apoio direto às comunidades produtoras sob a forma de subsídios destinados, nomeadamente, à aquisição de colmeias, equipamentos de proteção e formação de apicultores. O segundo será dedicado ao desenvolvimento da agroindústria apícola através de créditos concessionais destinados às atividades de transformação, acondicionamento, certificação e transporte.
Através desta iniciativa, o governo pretende aumentar a produção nacional de mel, ao mesmo tempo que melhora a valorização local da colheita. Os dados compilados pela FAO mostram que o país da África Austral produziu, em média, 592 toneladas de mel por ano entre 2020 e 2024, embora tenha capacidade para produzir cerca de 3.600 toneladas por ano.
Para além da insuficiência de infraestruturas modernas, as autoridades consideram também que o défice de dados fiáveis constitui um dos principais entraves ao desenvolvimento do setor. “A ausência de estatísticas fiáveis constitui um dos principais obstáculos ao crescimento do setor… Não dispomos de estatísticas consolidadas sobre o que se passa na cadeia de valor apícola”, afirmou o ministro Albino.
Para o ministro, esta situação dificulta a elaboração de políticas comerciais e a avaliação das reais necessidades de importação de mel. Neste contexto, Maputo pretende também reforçar a organização e o registo dos atores da cadeia de valor.
Stéphanas Assocle