O Quénia é o principal produtor de açúcar na África Oriental. No país, as autoridades procuram impulsionar uma nova dinâmica no setor, com o objetivo de valorizar os produtos e subprodutos da produção açucareira no segmento das bioenergias.
No Quénia, o Conselho do Açúcar (KSB) pretende implementar uma estratégia destinada a acelerar a diversificação da indústria açucareira. Foi o que anunciou Jude Chesire, diretor-geral do regulador, à margem da Informa Africa Sugar Conference, o principal evento africano dedicado à indústria do açúcar e do etanol, que decorreu em Nairobi de 14 a 15 de abril.
Segundo um comunicado publicado no site do Ministério da Agricultura, esta estratégia propõe uma nova orientação que visa passar de uma produção açucareira tradicional para um modelo agroindustrial diversificado, centrado na produção de etanol e nas energias renováveis.
Concretamente, a transformação assenta em três pilares. Primeiro, o aumento da produção de etanol a partir da melaço, um coproduto do refino do açúcar. Depois, a produção de eletricidade através do bagaço, resíduo fibroso da cana-de-açúcar utilizado na cogeração nas fábricas. Por fim, a valorização industrial dos subprodutos, com o objetivo de alcançar uma cadeia de valor com zero desperdício.
“Para acompanhar esta transição, o Kenya Sugar Board está a desenvolver ações de modernização baseadas em variedades de cana de alto rendimento, mecanização e tecnologias de agricultura de precisão, de modo a melhorar a eficiência e a sustentabilidade”, sublinha o comunicado. Estas iniciativas visam aumentar a produção de cana-de-açúcar e apoiar a diversificação industrial através da disponibilidade suficiente de matéria-prima.
Oportunidades para além da comercialização do açúcar
Esta nova orientação no setor açucareiro poderá não só diversificar as receitas dos industriais, como também reforçar a segurança energética local, num país onde a procura de eletricidade continua a crescer.
A procura de eletricidade no Quénia atingiu um novo recorde de 2 439,06 MW em dezembro de 2025. Segundo a Kenya Power, empresa nacional responsável pela transmissão e distribuição de eletricidade, o aumento das ligações à rede elétrica, o crescimento industrial e a expansão da rede estão a exercer uma pressão crescente sobre a oferta, sendo que os clientes industriais já representam mais de metade das vendas.
Esta dinâmica abre caminho a novos investimentos na geração, nomeadamente em energias renováveis, no reforço de capacidades térmicas de reserva e em soluções de armazenamento. Cria também um mercado promissor para produtores independentes de eletricidade e infraestruturas de rede.
Além disso, a produção de bioetanol representa uma oportunidade estratégica como alternativa aos combustíveis fósseis utilizados no transporte rodoviário. Em África, alguns países, como a Nigéria e o Uganda, já implementaram quadros regulatórios que permitem integrar o bioetanol nos combustíveis destinados ao transporte doméstico.
Enquanto se aguardam novos desenvolvimentos, a indústria açucareira queniana ainda gera quase todas as suas receitas a partir da produção e comercialização de açúcar. Segundo dados nacionais, o cultivo da cana-de-açúcar ocupa cerca de 300 000 hectares no Quénia, enquanto a produção de açúcar é estimada em cerca de 677 761 toneladas por ano, em média, entre 2020 e 2024.
Stéphanas Assocle













Windhoek, Namibie