No início deste ano, o mercado regional da dívida funciona plenamente como um mercado de preços. A sua profundidade já não está em causa, tal como a sua capacidade de absorver volumes elevados. Em contrapartida, os fundamentos orçamentais, políticos e institucionais voltam a ocupar um lugar central na formação das taxas de juro.
A Costa do Marfim, que angariou de uma só vez mais de 320 mil milhões de FCFA (569,1 milhões de dólares) na sua primeira emissão do ano no mercado regional; o Benim, que mobilizou 60 mil milhões de FCFA logo no dia seguinte; e o Mali, que arrecadou 44 mil milhões de FCFA de imediato, tudo isto no espaço de uma semana: os leilões soberanos deram o tom para o ano de 2026. Com taxas de subscrição largamente superiores a 100%, o mercado regional da dívida arranca a todo o vapor.
Estamos longe das tranches de 20 mil milhões de FCFA que, ainda há alguns anos, alimentavam a ideia de que o mercado da UMOA carecia de profundidade. Após mais de 11 000 mil milhões de FCFA (19,5 mil milhões de dólares) mobilizados em 2025 — um recorde histórico — a dinâmica observada no início deste ano confirma que o mercado regional é agora capaz de financiar os Estados em larga escala.
E, enquanto se aguarda a publicação dos objetivos previsonais de financiamento para 2026, uma coisa é certa: a liquidez existe. Bancos e investidores institucionais estão presentes, e os leilões sucedem-se sem tensão aparente em termos de volumes.
Um mercado profundo, mas disciplinado?
Esta abundância não significa, contudo, que o mercado financie sem discernimento. Os primeiros leilões de 2026 prolongam uma dinâmica já percetível no ano passado: a seletividade instalou-se, quase silenciosamente. Todos os Estados encontram compradores, mas não ao mesmo preço, e essa diferenciação torna-se clara quando se observa a estrutura das maturidades.
No curto prazo, a liquidez mantém-se abundante e relativamente pouco discriminatória. Os bilhetes do Tesouro a três, seis ou doze meses continuam a ser amplamente subscritos a rendimentos contidos. O Benim financia-se em torno de 5% a três meses, enquanto o Mali permanece abaixo de 6,1% a seis meses. Nestes horizontes curtos, o risco é considerado controlável: remete sobretudo para necessidades imediatas de tesouraria, num enquadramento regional de liquidação ainda percecionado como sólido.
O cenário muda assim que se avança para o médio e longo prazos. A maturidade de três anos, que se tornou uma referência para os investidores, oferece uma primeira ilustração. O Benim financia-se a 6,34%, o nível mais baixo observado no início do ano. A Costa do Marfim, apesar de ser a locomotiva económica da zona, tem de aceitar 6,81%, ou seja, cerca de 7% mais para a mesma maturidade. Uma prima moderada que o mercado parece associar sobretudo à dimensão das suas necessidades de financiamento. Em 2025, Abidjan angariou mais de 5 000 mil milhões de FCFA através da UMOA-Titres, mais de dez vezes o volume mobilizado pelo seu atual principal “desafiante” em termos de taxas, o Benim.
Quando a maturidade se torna um teste
O contraste é ainda mais marcante no caso do Mali. A 8,42% para três anos, o país paga quase um terço a mais do que o Benim e cerca de 24% a mais do que a Costa do Marfim para captar fundos. Concretamente, cada tranche de 100 mil milhões de FCFA emprestada traduz-se em mais de 2 mil milhões de FCFA em juros adicionais ao longo da vida do título. Para muitos observadores, esta prima não reflete apenas fragilidades orçamentais ou macroeconómicas. Integra também, de forma mais difusa, uma incerteza institucional que se revela plenamente à medida que o horizonte de financiamento se alonga. A médio prazo, o mercado já não financia apenas um Estado, mas a estabilidade do enquadramento regional no qual a dívida deverá ser honrada.
Esta leitura reforça-se nas maturidades longas. O Benim consegue ainda levantar fundos a cinco e sete anos com rendimentos entre 6,4% e 6,9%, sinal de uma confiança relativa na sua trajetória orçamental e institucional. Em contrapartida, o Mali vê os seus custos aumentarem de forma significativa: a cinco anos, o rendimento exigido ultrapassa os 8%. Quanto maior a maturidade, mais o mercado arbitra sobre a permanência do enquadramento monetário e financeiro, num contexto em que os debates em torno da ancoragem regional dos países da Aliança dos Estados do Sahel (AES) alimentam uma prudência crescente por parte dos investidores. Tal como em 2025, estes países, bem como o Senegal ainda marcado pelo episódio da dívida ocultada, evoluem agora sob uma prima de risco explícita.
Fiacre E. Kakpo












