Reconhecível pelo seu aspeto cinzento prateado, o lítio é um metal estratégico para a indústria das baterias, sobretudo as destinadas a veículos elétricos. Esta importância reforça os desafios associados ao seu abastecimento, num contexto em que se prevê um défice da oferta mundial até 2035.
No Zimbabué, o grupo chinês Zhejiang Huayou prevê produzir carbonato de lítio de qualidade para baterias a partir da sua mina Arcadia. Anunciada no final da semana passada pelo ministro das Minas, Polite Kambamura, esta ambição surge alguns meses após a primeira produção africana de sulfato de lítio realizada pela mesma empresa. Para além do caso zimbabueano, este anúncio ilustra o papel central desempenhado pelos capitais chineses no desenvolvimento da fileira do lítio em África, desde a extração até ao refino.
Do Zimbabué ao Mali, projetos dominados por atores chineses…
Esta realidade é particularmente visível no Zimbabué. Além da Zhejiang Huayou, as suas congéneres Sinomine Resources, Sichuan Yahua, Chengxin Lithium e Tsingshan controlam as principais minas de lítio do país, nomeadamente Bikita, Kamativi, Sabi Star e Gwanda. Desenvolvidos no âmbito de uma vaga de investimentos iniciada no início da década de 2020, estes ativos contribuíram de forma decisiva para fazer do Zimbabué o principal produtor africano do metal.
A influência chinesa estende-se também ao Mali, o outro país produtor de lítio no continente, onde as duas únicas minas industriais em atividade contam entre os seus acionistas a Hainan Mining e a Ganfeng Lithium.
Esta forte presença já se reflete nas estatísticas globais. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), a quota de África na produção mundial de lítio passou de 6% em 2023 para 11% em 2024. Esta progressão poderá ainda aumentar com a entrada em produção prevista para este ano de Manono, na República Democrática do Congo, um projeto liderado pela Zijin Mining. Paralelamente, a Zhejiang Huayou procura assumir o controlo do projeto Ewoyaa, anunciado como a primeira mina de lítio da história do Gana.
A influência chinesa não se limita, contudo, à extração. Como referido anteriormente, a Zhejiang Huayou já transforma o concentrado de lítio produzido na sua mina no Zimbabué em sulfato de lítio, cujas primeiras exportações africanas foram registadas em abril passado. A mesma dinâmica verifica-se na Sinomine e na Sichuan Yahua, que estão a desenvolver as suas próprias unidades de produção de sulfato. A Zijin também prevê seguir este caminho no âmbito do desenvolvimento da sua mina congolesa.
Uma lógica de segurança de abastecimento…
Por detrás desta dominância da China na cadeia de valor africana está sobretudo uma estratégia de segurança de abastecimento. A maior parte do lítio produzido no Mali e no Zimbabué destina-se ao mercado chinês, onde abastece as indústrias de baterias para veículos elétricos e de armazenamento de energia.
A questão torna-se ainda mais relevante tendo em conta que a AIE prevê tensões crescentes na oferta mundial. Segundo a instituição, serão necessárias cerca de 55 novas minas até 2035 para responder à procura esperada de lítio.
Ao multiplicarem os seus investimentos na fileira africana, os grupos chineses asseguram maiores volumes de abastecimento para o seu mercado interno. Esta estratégia reforça a posição da China, já entre os principais produtores mundiais do metal, a par da Austrália e do Chile, mas também líder global no refino, com 62% da capacidade em 2024, segundo a AIE.
O reforço da transformação local em África insere-se igualmente nesta lógica, permitindo responder às exigências dos países anfitriões em matéria de criação de valor e evitar restrições ligadas a políticas de limitação da exportação de minerais em bruto. É o caso do Zimbabué, onde o governo prevê suspender as exportações de concentrado de lítio a partir de 2027, privilegiando produtos de maior valor acrescentado como o sulfato e o carbonato.
Neste contexto, a adaptação a estas exigências permite também consolidar posições já adquiridas, enquanto outras potências procuram igualmente posicionar-se nestes recursos estratégicos. Na RDC, a empresa norte-americana KoBold Metals investe, por exemplo, na exploração de concessões na zona de Manono. A União Europeia também não fica atrás, tendo o Banco Europeu de Investimento (BEI) anunciado este ano apoio financeiro à futura mina de lítio de Uis, na Namíbia.
E as vantagens para África?
Para os países africanos envolvidos, o desafio central continua a ser a capacidade de transformar esta expansão da fileira em benefícios económicos concretos. Isso passa sobretudo por projetos de transformação local, vistos como uma forma de aumentar receitas através de maior captura de valor acrescentado.
Esta dinâmica vem acompanhada por uma crescente concentração de atores ao longo da cadeia de valor, ainda fortemente ligados geograficamente à China.
Assim, as margens de manobra dos países produtores parecem estar estreitamente dependentes das escolhas industriais e estratégicas de um mesmo polo. Ainda assim, existem caminhos possíveis, como a diversificação de parceiros e o surgimento de atores industriais locais capazes de integrar melhor a cadeia de valor. Este desafio é particularmente relevante no Zimbabué, onde a empresa pública Kuvimba Mining desenvolve o projeto Sandawana.
Aurel Sèdjro Houenou













Johannesburg