Embora o continente contribua com apenas cerca de 4 % das emissões globais de CO₂, o relatório sublinha a necessidade de um financiamento internacional mais robusto e de uma transferência de tecnologias para apoiar os esforços locais de adaptação.
O nível do mar ao largo das costas africanas tem aumentado desde a década de 2010 a um ritmo quatro vezes mais rápido do que durante a década de 1990, devido, nomeadamente, ao derretimento das calotes glaciares, segundo um relatório publicado em 15 de dezembro de 2025 na revista científica Communications Earth & Environment.
Intitulado «Accelerating sea level rise in Africa and its large marine ecosystems since the 1990s», o relatório baseia-se na análise dos ecossistemas marinhos africanos ao longo de um período de 31 anos, de 1993 a 2023, recorrendo a dados altimétricos por satélite.
Durante este período, investigadores africanos e ocidentais constataram que o nível médio do mar ao largo das costas do continente aumentou cerca de 10,2 centímetros (cm), o que corresponde a uma média de aproximadamente 3,31 milímetros (mm) por ano. Este valor é comparável ao observado à escala mundial, mas as tendências em África são particularmente alarmantes, uma vez que se verificou uma aceleração significativa a partir de 2010. Uma grande parte da elevação do nível do mar durante o período analisado ocorreu após esse ano.
Durante a década de 1993-2002, o aumento do nível do mar ao largo das costas africanas situou-se, em média, em cerca de 0,96 mm por ano. Este valor passou depois para uma média de 2,93 mm por ano no período de 2003-2012.
O período de 2013-2023 apresenta uma elevação média do nível do mar de 4,34 mm por ano. Este ritmo anual, quatro vezes mais rápido do que o registado durante a primeira década do período total abrangido pelo estudo, não constitui um pico passageiro, mas sim uma nova referência.
O relatório indica ainda que duas causas são geralmente aceites pela comunidade científica para explicar o fenómeno da elevação do nível do mar, amplamente induzido pelas alterações climáticas. O nível do mar aumenta quer devido à adição de água, principalmente resultante do derretimento das calotes glaciares, quer devido à dilatação da água existente à medida que esta aquece ou se torna menos salgada. (À medida que a concentração de sais dissolvidos na água do mar diminui, esta torna-se menos densa e a mesma massa de água ocupa mais espaço.)
Os autores do relatório acompanharam, por isso, as alterações de temperatura e salinidade em diferentes locais, utilizando instrumentos flutuantes, para calcular a parte atribuída à expansão térmica e a parte resultante da adição de água. Os resultados mostram que apenas cerca de 20 % do aumento do nível do mar ao largo das costas africanas se deve à expansão da água induzida pelo aquecimento. Por dedução, os restantes 80 % da elevação do nível do mar durante o período estudado resultam de um aporte adicional de água.
O mar Vermelho e a Corrente da Guiné são as regiões mais afetadas
À escala global, as componentes «adição» e «expansão» contribuem de forma quase equilibrada para a elevação do nível do mar, ao contrário do que se observa em África. Tal explica-se, nomeadamente, pela oceanografia local (as ressurgências de águas frias que mantêm algumas águas de superfície africanas mais frescas e as condições de salinidade ao longo da costa mediterrânica do continente), bem como pela forma como a água proveniente do degelo dos glaciares se distribui sob o efeito da gravidade e da rotação da Terra.
A elevação do nível do mar ocorre de forma desigual nas diferentes regiões do continente. Os aumentos mais significativos foram registados no mar Vermelho e na Corrente da Guiné (uma corrente lenta de águas quentes que flui para leste ao longo da costa da Guiné, na África Ocidental). A região mediterrânica é menos afetada, uma vez que as suas águas se tornam mais densas à medida que a salinidade aumenta.
O relatório sublinha igualmente que a elevação do nível do mar em África representa uma ameaça significativa para os ecossistemas costeiros e para os meios de subsistência de cerca de 250 milhões de pessoas que vivem nas zonas costeiras do continente. As suas consequências incluem inundações recorrentes, erosão costeira, perda de biodiversidade, colapso de infraestruturas, deslocação de comunidades costeiras e intrusão de água salgada nos aquíferos de água doce.
A vulnerabilidade é particularmente acentuada em megacidades densamente povoadas como Lagos (Nigéria), Alexandria (Egipto) e Dar es Salaam (Tanzânia). Só em Lagos, o abatimento do solo poderá duplicar a frequência das inundações até 2050, ameaçando mais de 12 milhões de habitantes.
Segundo as projeções, até 117 milhões de africanos poderão ser afetados por uma elevação do nível do mar de 0,3 metros até 2030. Esta vulnerabilidade acrescida é agravada pela rápida urbanização e pelo planeamento costeiro inadequado em muitas cidades africanas, criando uma cascata de riscos interdependentes.
A contribuição negligenciável de África para as emissões globais de CO₂, estimada em cerca de 4 %, contrasta fortemente com os impactos desproporcionados que o continente deverá sofrer devido aos efeitos das alterações climáticas. Esta disparidade sublinha a necessidade urgente de um financiamento internacional para o combate às alterações climáticas e de uma transferência de tecnologias para apoiar os esforços de adaptação no continente. Além disso, a aceleração do ritmo das mudanças, com taxas de elevação do nível do mar que passaram de 0,96 mm/ano nos anos 1990 para mais de 4,3 mm/ano nos últimos anos, sugere que as estratégias de adaptação atualmente em vigor poderão revelar-se insuficientes para enfrentar os desafios futuros.
Walid Kéfi













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