Nos últimos anos, os países africanos intensificaram os investimentos em infraestrutura para reduzir a lacuna digital no continente. Isso resultou em uma diminuição significativa da população sem cobertura, mas a adoção real dos serviços ainda enfrenta dificuldades.
Na Serra Leoa, 60% da população não utiliza serviços de telecomunicações, segundo as autoridades locais. Essa defasagem no uso persiste, apesar de um investimento global de 400 milhões de dólares, que possibilitou a expansão da rede nacional de fibra óptica para 14 dos 16 distritos do país.
Salima Monorma Bah, Ministra da Comunicação, Tecnologia e Inovação, destacou essa situação na semana passada, durante uma consulta setorial organizada pela Comissão Parlamentar de Informação e Comunicações. O encontro contou com a participação de parlamentares, autoridades da Autoridade Nacional de Telecomunicações (NatCA), diretores das empresas Sierratel, SALPOST, do projeto Felei Tech City, além de representantes das operadoras móveis e da sociedade civil.
A Lacuna Digital Persistente
A lacuna digital ainda é uma realidade evidente na Serra Leoa. De acordo com o Índice de Desenvolvimento das TIC 2024 da União Internacional de Telecomunicações (UIT), o país ocupa a 38ª posição no ranking africano, entre os 47 países analisados, com uma pontuação de 34,3 em 100. Esse resultado é fruto de dez indicadores, que incluem o percentual de indivíduos utilizando Internet, a penetração da telefonia móvel de banda larga, o tráfego de dados móveis, o preço dos dados móveis e serviços de voz, além da taxa de posse de telefones móveis.
De acordo com os dados da UIT, em 2024, a Serra Leoa apresentou uma cobertura de 2G de 96% e 3G de 97,2%, enquanto a 4G cobria 81,6% da população. Apesar dessa cobertura relativamente ampla, a utilização efetiva desses serviços ainda é limitada. O Índice de Penetração da Telefonia Móvel não ultrapassou 50,3%, e a penetração da Internet ficou estagnada em apenas 25,1%.
A Mutualização das Infraestruturas: Um Caminho para a Conectividade Universal
Para reduzir essa lacuna, a Ministra Bah pediu que a indústria assuma mais responsabilidades e aposte na mutualização das infraestruturas. Esse processo visa a redução dos custos operacionais, que são um dos principais impedimentos à acessibilidade dos serviços. Segundo a ministra, ganhos de eficiência são essenciais para alcançar a conectividade universal.
No continente africano, a mutualização tem ganhado força. Ela envolve o compartilhamento de equipamentos físicos e tecnológicos entre as operadoras, ao invés de cada uma delas implementar redes paralelas de maneira individual.
O relatório da Ecofin Pro, publicado em dezembro de 2024, distingue dois modelos de compartilhamento: o compartilhamento passivo, que envolve apenas elementos não eletrônicos, como torres, postes e instalações, onde cada operador mantém sua rede ativa de forma exclusiva; e o compartilhamento ativo, que inclui também equipamentos eletrônicos, como switches e nós de acesso rádio.
A UIT também destaca que o compartilhamento ativo pode incluir a itinerância móvel, o que permite que um operador utilize a rede de um concorrente em áreas onde não possui infraestrutura própria. Isso reduz consideravelmente os custos de implantação, especialmente em áreas rurais ou mercados marginais.
Segundo a UIT, essa estratégia pode incentivar a migração para novas tecnologias e o desdobramento da internet móvel de alta velocidade, além de aumentar a concorrência entre os operadores, quando forem adotadas medidas de salvaguarda para evitar comportamentos anticompetitivos.
Além da Infraestrutura
Embora a mutualização das infraestruturas seja uma estratégia relevante, ela não é suficiente por si só para resolver os desafios de inclusão digital. A redução efetiva dos custos dependerá também de outros fatores, como a fiscalidade do setor, o nível de concorrência entre os operadores e os custos com energia e manutenção das redes.
Além disso, a acessibilidade financeira não garante automaticamente um aumento no uso dos serviços. A inclusão digital deve ser acompanhada de esforços na disponibilização de dispositivos adequados, no desenvolvimento de competências digitais, na melhoria da qualidade dos serviços, e na oferta de conteúdos e serviços relevantes.
Por exemplo, a adoção de smartphones, que são essenciais para o acesso à Internet, ainda é marginal na Serra Leoa. De acordo com o Banco Mundial, apenas 28,53% da população maior de 15 anos possuía um smartphone em 2024. Esse fenômeno é comum em várias regiões da África, sendo atribuído ao alto custo desses dispositivos.
Isaac K. Kassouwi













Londres - Royaume-Uni - Sommet réunissant l'écosystème tech africain et les investisseurs internationaux à Londres.