O construtor chinês está atualmente a concluir a aquisição da fábrica sul-africana da Nissan e pretende iniciar a produção até ao final de 2027. Esta ofensiva industrial insere-se numa profunda recomposição do mercado automóvel sul-africano e na estratégia de localização global dos gigantes chineses da indústria automóvel.
Trata-se de um movimento estratégico de grande envergadura que a Chery Automobile está prestes a concretizar na África do Sul. O grupo chinês, cotado em Hong Kong, está prestes a adquirir a fábrica de Rosslyn, perto de Pretória, anteriormente operada pelo construtor japonês Nissan. O objetivo declarado é lançar a produção até ao final de 2027, após uma fase de requalificação e modernização do local, estimada entre 12 e 18 meses. O valor da transação e o investimento total não foram divulgados.
Um mercado automóvel sul-africano em plena recuperação
O momento não é casual. A África do Sul registou em 2025 o melhor desempenho do mercado automóvel em mais de uma década, com vendas totais de veículos novos a subir 15,7% para 596.818 unidades, ultrapassando pela primeira vez os níveis pré-pandemia.
As vendas de automóveis de passageiros foram o principal motor desta dinâmica, com um aumento de 20,1% em relação ao ano anterior, totalizando 422.292 unidades. A Naamsa, Conselho da Indústria Automóvel, prevê um crescimento adicional de 9% a 11% em 2026, impulsionado pela queda da inflação e pela diminuição das taxas de juro.
Esta recuperação não é apenas conjuntural. Reflete uma recomposição estrutural do mercado, liderada principalmente pelas marcas chinesas. Os construtores do gigante asiático cresceram a um ritmo quase 9 vezes superior ao do mercado global, conquistando agora mais de 17% das vendas de veículos de passageiros novos, contra menos de 5% há apenas quatro anos.
Chery, já bem estabelecida localmente
A Chery Automobile não chega a solo desconhecido. Em 2025, o grupo registou um aumento de 26,7% nas vendas, atingindo 25.304 unidades. Isso permitiu consolidar o 8º lugar no ranking dos construtores na África do Sul, com uma quota de mercado de 4,2%.
Desde o seu regresso há quatro anos, a Chery construiu uma rede de 150 concessionários e vende em média 50.000 veículos por ano. Esta base comercial proporciona agora legitimidade e escala suficientes para avançar para a produção local. “Este investimento reflete o apoio incondicional dos nossos clientes e parceiros locais”, declarou Charlie Zhang, vice-presidente executivo do grupo, durante uma conferência em Joanesburgo.
O elétrico como alavanca de exportação
A gama produzida em Rosslyn não se limitará a motores térmicos. A Chery pretende transformar o local num centro de fabricação de veículos eletrificados — híbridos, híbridos plug-in e 100% elétricos — visando abastecer mercados de exportação na África e na Europa.
A escolha dos veículos eletrificados é ainda mais pertinente dado que os híbridos já dominam as vendas de veículos de nova energia na África do Sul, representando cerca de três quartos do segmento NEV, com consumidores a preferirem opções acessíveis e menos dependentes da infraestrutura de carregamento.
Localização, resposta estrutural às barreiras comerciais
Esta decisão segue uma tendência global. Confrontados com barreiras comerciais às exportações, os construtores chineses multiplicam as instalações industriais no estrangeiro: mais de 15 novas fábricas foram abertas desde 2022, da Malásia ao Brasil, passando pela Hungria e Espanha.
Pequim exportou mais de 5,5 milhões de veículos em 2024, tornando-se o maior exportador mundial, número que deverá ultrapassar 7 milhões em 2025. No entanto, esta estratégia de exportação enfrenta limitações face aos direitos aduaneiros, obrigando os atores a localizar produção.
A Chery já possui uma rede global de 16 bases de produção, com presença no Irão, Rússia e expansão ativa para o Sudeste Asiático e Europa. Nos primeiros seis meses de 2025, o grupo foi o maior exportador automóvel chinês, com 548.000 unidades, representando 17,8% das exportações totais da China, posição que pretende consolidar com a produção local.
Um mercado africano em recomposição
A África do Sul continua a ser a porta de entrada privilegiada para qualquer construtor que queira atingir o mercado subsaariano. Ao instalar uma unidade industrial, a Chery posiciona-se para ter um peso duradouro numa região com procura automóvel em crescimento estrutural.
O grupo planeia ainda estruturar uma rede de fornecedores locais em torno da fábrica de Rosslyn, o que poderá gerar impactos significativos na indústria manufatureira sul-africana, uma das mais desenvolvidas do continente, e constituir um argumento sólido perante os reguladores locais.
“Nosso compromisso aqui não é apenas uma etapa da nossa estratégia de globalização, é também um compromisso de longo prazo com o desenvolvimento económico e industrial da África do Sul”, reforçou Charlie Zhang. Uma mensagem semelhante à que a BYD transmite no Brasil e a Geely na Europa.
Fiacre E. Kakpo













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