A Guinéia inicia a revisão profunda do ensino secundário para aproximar a escola das necessidades reais do mercado de trabalho, num contexto em que o desemprego entre jovens diplomados é estimado em mais de 60%.
Conscientes da necessidade de alinhar o sistema educativo com a realidade económica, as autoridades guineenses estão a fazer da ligação entre escola e emprego um eixo central das políticas públicas. Nesta dinâmica, o Ministério da Educação Nacional, da Alfabetização, do Ensino Técnico e da Formação Profissional lançou, na sexta-feira, 17 de abril, a revisão dos programas do ensino secundário. Este processo abre “um projeto estratégico no centro da refundaçāo do sistema educativo guineense”.
Segundo as autoridades, esta reforma pretende romper com um modelo pedagógico baseado na memorização. Em vez disso, propõe uma escola centrada na competência, na análise e na ação. O pensamento crítico, a criatividade, o espírito de iniciativa e a capacidade de adaptação tornam-se pilares centrais. Os conteúdos são reorganizados em torno de competências transferíveis, com destaque para o digital, o empreendedorismo e as ciências aplicadas.
Dois eixos, três princípios
De acordo com o comunicado do ministério, o ensino secundário deverá evoluir para uma estrutura baseada em duas grandes orientações: um ensino geral modernizado e percursos diferenciados entre as áreas científica e literária. Está também prevista uma melhor articulação entre ciclos para reforçar a coerência e a exigência do sistema.
Três princípios orientam o conjunto da reforma: a pertinência, que adapta os conteúdos às realidades guineenses mantendo abertura ao mundo; a inclusão, que dá atenção especial às raparigas, às pessoas com deficiência e às populações rurais; e a exigência, que garante a implementação efetiva no terreno.
“Nenhuma criança deve ficar para trás”, afirmou o ministro da Educação, Alpha Bacar Barry, durante a cerimónia. Ele definiu ainda uma linha clara: “Osemos inovar, mas mantenhamo-nos ancorados na realidade das nossas salas de aula, pois o tempo dos programas inoperacionais acabou”.
Um ato de soberania educativa
O ministro atribui à reforma um alcance político assumido. “O que iniciamos hoje vai muito além de um simples ajuste técnico. É um ato estratégico para o futuro da nação”, afirmou. Conceber programas adaptados às prioridades nacionais significa, segundo ele, “retomar o controlo do que ensinamos”. A escola deve agora “preparar para viver, agir e empreender”, e não apenas instruir.
Esta reforma surge num contexto de forte pressão no mercado de trabalho guineense. Segundo o boletim do mercado de trabalho publicado em janeiro pelo Ministério do Trabalho e da Função Pública, o desemprego entre jovens dos 15 aos 24 anos é de 7,3%. Mais preocupante ainda, 34% estão fora do emprego, da educação e da formação (NEET). O emprego informal representa cerca de 80% dos postos de trabalho no país, e o diploma já não garante acesso ao mercado formal.
Os dados da Agência Guineense para a Promoção do Emprego e do Empreendedorismo (AGUIPEE) confirmam a pressão crescente. No segundo trimestre de 2025, 631 candidatos a emprego registaram-se na agência, um aumento de 166% face a 2024. Os diplomados do ensino superior representam 62,8% dos inscritos. As mulheres são 43% dos candidatos, mas apenas 11,5% dos contratos de trabalho. O fosso entre formação e emprego continua estrutural.
Perante esta realidade, a Guiné tem implementado várias respostas. Em novembro de 2023, a União Europeia, Alemanha, Bélgica e França assinaram com Conacri um programa de 248,5 mil milhões de francos guineenses (cerca de 28 milhões de dólares) para melhorar a formação profissional e reforçar a inserção no mercado de trabalho. A revisão do ensino secundário insere-se neste esforço mais amplo e atua agora sobre as bases do sistema educativo. Resta saber se os resultados serão efetivos no terreno.
Félicien Houindo Lokossou













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