Impulsionada por um crescimento superior à média regional e por um peso demográfico em forte expansão, a África francófona surge como um dos motores económicos do continente. No entanto, apesar de uma língua comum e de quadros jurídicos partilhados, a integração económica entre estes países permanece limitada, revelando um potencial ainda largamente subexplorado.
A África subsaariana francófona tem-se afirmado, há vários anos, como um dos principais motores do crescimento africano. Segundo um relatório do Centre d’étude et de réflexion sur le monde francophone (CERMF), baseado em dados do Banco Mundial, este conjunto de 22 países registou em 2025 um crescimento médio de 4,9%, contra 3,4% no restante da África subsaariana. A região foi assim o motor do crescimento continental pelo décimo segundo ano consecutivo e pela décima terceira vez em catorze anos.
Este desempenho económico insere-se num contexto demográfico e linguístico favorável. Segundo estimativas da Organização Internacional da Francofonia (OIF), o mundo conta atualmente com 396 milhões de francófonos, dos quais cerca de 65% vivem em África, confirmando o papel central do continente no futuro da língua francesa.
Para além do seu papel cultural, o francês constitui também uma ferramenta económica. É atualmente considerado a terceira língua dos negócios e estaria associado a cerca de 20% do comércio mundial, um trunfo teórico para facilitar as trocas entre países que partilham este espaço linguístico.
Uma integração económica ainda limitada
Apesar destas vantagens, a francofonia africana ainda não se traduz numa verdadeira integração económica. Segundo um relatório do Observatório da Francofonia Económica (OFE), publicado em setembro de 2019, as trocas entre países africanos francófonos representavam apenas 10,6% do seu comércio total, num contexto em que o comércio intra-africano continua globalmente baixo, representando menos de 20% das trocas do continente.
O exemplo contrastante das organizações regionais
Algumas organizações regionais demonstram, no entanto, que uma integração económica mais profunda é possível.
No seio da União Económica e Monetária da África Ocidental (UEMOA), as trocas intra-comunitárias são relativamente dinâmicas, representando 16% das trocas globais no quarto trimestre de 2025. A Costa do Marfim e o Senegal representam, por si só, 55,3% da oferta intra-comunitária, enquanto o Burkina Faso e o Mali concentram 44,8% da procura.
Este desempenho continua bastante superior ao observado na Comunidade Económica e Monetária da África Central (CEMAC), onde as trocas intra-comunitárias registaram um crescimento de 2,2% no período 2023-2024. Nesta zona, os Camarões continuam a ser o principal exportador, enquanto o Chade e a República Centro-Africana figuram entre os principais importadores.
Estas disparidades ilustram as diferenças na estruturação económica entre as sub-regiões francófonas do continente.
«Vários agentes económicos da mesma região não se conhecem», declarou Louise Mushikiwabo, secretária-geral da OIF, citada pelo meio DW. Perante este défice de integração, apresenta as missões económicas da Francofonia como «momentos de introdução e de intercâmbio entre países por vezes vizinhos, mas economicamente distantes».
Desde o seu lançamento, estas missões económicas favoreceram encontros que geraram vários milhões de dólares em contratos comerciais, nomeadamente nos setores agroindustrial, digital e das energias renováveis. Durante a 6.ª edição em Cotonou, em junho de 2025, foi assinado um acordo de cerca de 30 milhões de euros entre uma empresa belga e uma empresa beninense.
Três pilares potenciais da francofonia económica
Neste espaço francófono, alguns países concentram importantes vantagens económicas suscetíveis de estruturar uma dinâmica regional mais integrada.
A República Democrática do Congo (RDC), gigante demográfico e mineiro, conta com mais de 100 milhões de habitantes, dos quais cerca de 57 milhões são francófonos. O país possui vastos recursos naturais, incluindo cerca de 70% das reservas mundiais de cobalto, além de cobre, coltan e ouro. Este potencial confere-lhe um papel estratégico nas cadeias de valor da transição energética.
A Costa do Marfim, por sua vez, afirma-se como uma locomotiva económica na África Ocidental, com um crescimento robusto e uma estratégia de industrialização ambiciosa. Abidjan acolhe também a Bolsa Regional de Valores Mobiliários (BRVM), reforçando o seu papel como hub financeiro.
Os Camarões ocupam uma posição estratégica na África Central, com uma economia relativamente diversificada e uma localização geográfica que os coloca no cruzamento de vários corredores comerciais regionais.
A ZLECAf como oportunidade estratégica
A implementação progressiva da Zona de Livre Comércio Continental Africana (ZLECAf) poderá reforçar o papel económico da francofonia.
«A criação de novas zonas de integração económica como a ZLECAf contribui certamente para o reforço do panafricanismo económico», sublinha o OFE.
Neste contexto, a língua francesa pode constituir uma vantagem comparativa, desde que acompanhada por políticas concretas: facilitação do comércio, desenvolvimento de redes empresariais francófonas, financiamento das PME e maior mobilidade de competências.
De espaço cultural a plataforma económica
As economias francófonas africanas apresentam um crescimento sólido e um peso demográfico significativo, representando já um mercado de centenas de milhões de consumidores. No entanto, na ausência de uma cooperação económica estruturada, ainda não tiram pleno partido da sua língua comum.
O desafio para as próximas décadas será transformar a francofonia de um espaço essencialmente cultural numa verdadeira plataforma económica, capaz de estimular o comércio, atrair investimento e apoiar a transformação estrutural das economias africanas.
A questão permanece: conseguirá a francofonia responder a este desafio?
Charlène N’dimon, Ingrid Haffiny













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