A Fundação Amadou Hampâté Bâ conduziu um projeto de conservação e digitalização dos seus arquivos, com o objetivo de preservar de forma duradoura a obra e o pensamento de um dos grandes transmissores de saberes africanos. Esta iniciativa visa igualmente garantir o acesso e a transmissão deste património a investigadores, estudantes e ao público em geral.
Preservar a memória escrita e oral de África não é apenas uma questão cultural: é uma condição essencial para a sua transmissão intelectual e para a sua inserção duradoura na história mundial. Foi neste espírito que se realizou o projeto de conservação e digitalização dos arquivos da Fundação Amadou Hampâté Bâ, recentemente concluído com o apoio da UNESCO e dos Arquivos Nacionais da República da Coreia.
Oficialmente encerrado em dezembro de 2025, em Abidjan, este projeto estruturante visava responder a um desafio central: salvaguardar, em condições compatíveis com os padrões internacionais, um fundo documental de valor patrimonial excecional, garantindo simultaneamente a sua acessibilidade a investigadores, estudantes e ao público em geral.
Arquivos frágeis, património ameaçado
Manuscritos, correspondência, notas de investigação, documentos etnográficos: os arquivos conservados pela Fundação constituem um conjunto único para a compreensão da história intelectual, social e cultural da África Ocidental. Durante muito tempo guardado em condições materiais precárias, este património estava exposto aos riscos do tempo, da humidade, do calor e da manipulação repetida, ameaçando a sua durabilidade.
O projeto permitiu um avanço decisivo. Mais de 2 100 manuscritos foram digitalizados, quase 4 000 documentos catalogados, e foi criada uma base documental estruturada através de um sistema de biblioteca open source com metadados detalhados. As condições de conservação foram reforçadas com a instalação de equipamentos adequados, enquanto as equipas locais beneficiaram de formações técnicas em arquivística e digitalização.
Um legado intelectual no centro da iniciativa
A dimensão deste projeto vai muito além da mera vertente técnica. Está diretamente ligada à obra e ao pensamento de Amadou Hampâté Bâ, figura central da história intelectual africana do século XX. Nascido em 1900, em Bandiagara, escritor, etnólogo, historiador e diplomata, dedicou a vida à salvaguarda e ao reconhecimento das tradições orais africanas, que considerava como um sistema de saber completo.
Formado tanto na escola colonial como na educação tradicional, Amadou Hampâté Bâ foi uma rara ponte entre dois universos. Esta dupla pertença alimentou uma obra singular, que combina relatos iniciáticos, pesquisas etnográficas, reflexões filosóficas e testemunhos históricos. Através de obras que se tornaram referências, contribuiu para o reconhecimento da riqueza intelectual das sociedades africanas para além do continente.
O seu combate teve também dimensão institucional. Membro do Conselho Executivo da UNESCO, foi um dos primeiros intelectuais africanos a alertar, já nos anos 1960, para os riscos de desaparecimento irreversível dos saberes tradicionais face às rápidas transformações das sociedades africanas. A sua famosa frase — «Em África, quando um velho morre, é uma biblioteca que arde» — traduzia menos uma metáfora do que uma constatação metodológica: sem mecanismos de recolha, conservação e transmissão, uma parte essencial da memória do continente estava condenada a desaparecer.
Os arquivos hoje preservados pela Fundação testemunham esta abordagem pioneira. Reúnem várias décadas de notas de campo, manuscritos e correspondência, constituindo uma fonte preciosa para o estudo da história social, religiosa e intelectual da África Ocidental. A sua digitalização significa, assim, preservar não apenas o legado de um homem, mas também uma visão africana do saber e da sua transmissão.
Uma dinâmica que continuará
Embora esta fase do projeto represente um avanço importante, trata-se apenas de uma etapa. A disponibilização progressiva dos arquivos online, a sua valorização junto do meio académico e cultural, assim como a continuação dos esforços de conservação a longo prazo, permanecem desafios em curso.
A preparação de um dossiê para a inscrição do fundo no Registro Internacional Memória do Mundo da UNESCO ilustra esta ambição de reconhecimento e de preservação a nível global. Num contexto em que muitos patrimónios documentais africanos permanecem ameaçados, a iniciativa da Fundação Amadou Hampâté Bâ impõe-se como um modelo: o de uma memória protegida, partilhada e transmitida, ao serviço das gerações futuras.
Moutiou Adjibi Nourou













Marrakech. Maroc