Num contexto mundial marcado por incertezas económicas e geopolíticas, a BRVM destaca a resiliência do seu mercado e a solidez macroeconómica da UEMOA. Através do seu balanço de 2025, a bolsa regional reafirma o seu papel central no financiamento das economias.
Reunida na terça-feira, 20 de janeiro de 2026, na sua sede do Plateau, em Abidjan, a Bolsa Regional de Valores Mobiliários (BRVM) apresentou à imprensa nacional e internacional o balanço das suas atividades em 2025, bem como as suas perspetivas. Mais do que um simples exercício contabilístico, esta cerimónia anual pretendeu ser um momento de enquadramento estratégico, durante o qual o diretor-geral da Bolsa, Dr. Edoh Kossi Amenounve (foto), procurou situar o desempenho do mercado financeiro regional num contexto internacional profundamente instável, reafirmando simultaneamente o papel estratégico da BRVM no financiamento das economias da União Económica e Monetária da África Ocidental (UEMOA).
Na abertura da sua intervenção, o diretor-geral da BRVM alargou o quadro de análise, recordando que o ano de 2025 decorreu num ambiente global marcado pela subida do protecionismo, por um crescimento moderado, por uma desinflação progressiva, mas também pela persistência de tensões geopolíticas e por elevados níveis de endividamento público à escala internacional. Na sua perspetiva, estas dinâmicas refletem um período de transição, ou mesmo o possível surgimento de uma nova ordem económica mundial, mais fragmentada e menos previsível, à qual os mercados financeiros — incluindo os regionais — terão de se adaptar.
Neste contexto, a BRVM sublinhou que os mercados de capitais já não podem ser analisados apenas sob o prisma do desempenho bolsista. Estão chamados a desempenhar um papel mais amplo, enquanto instrumentos de mobilização da poupança local, alavancas de financiamento de longo prazo e mecanismos de resiliência face a choques externos.
Um ambiente regional apresentado como base de estabilidade
Perante as incertezas internacionais, a direção da BRVM insistiu na robustez do enquadramento macroeconómico da UEMOA, apresentado como um fator-chave da resiliência do mercado financeiro regional. A manutenção de um crescimento sustentado no seio da União, que atingiu 6,7 % em 2025, conjugada com uma forte redução dos défices orçamentais — com um rácio global de 4,1 % no ano passado, contra 8,4 % em 2022 — foi destacada como um elemento de credibilidade para os investidores.
Este enquadramento macroeconómico não foi apresentado de forma neutra. Visou sublinhar que as evoluções observadas no mercado financeiro regional se inserem numa trajetória mais ampla de normalização orçamental e de estruturação progressiva das economias. Segundo a BRVM, esta dinâmica cria as condições necessárias para reforçar a profundidade do mercado e consolidar a confiança, tanto por parte dos emitentes como dos investidores.
O diretor-geral recordou igualmente que o recurso significativo dos Estados ao mercado financeiro regional, nomeadamente através de emissões obrigacionistas, deve ser analisado à luz das necessidades urgentes de infraestruturas de base. Em 2025, um montante recorde de 4 204,7 mil milhões de francos CFA (7,5 mil milhões de dólares) foi mobilizado no mercado primário, amplamente dominado por emissões obrigacionistas (87,6 % dos montantes mobilizados), das quais mais de 95 % foram emitidas por Estados. Longe de ver nesta situação um desequilíbrio estrutural, a BRVM considera-a antes uma etapa no desenvolvimento do mercado, com os Estados a desempenharem um papel de ancoragem e credibilidade, suscetível de facilitar, a prazo, a introdução de instrumentos mais sofisticados e o alargamento da base de investidores.
Um mercado que afirma o seu papel como plataforma de confiança
Ao longo das apresentações, o Dr. Amenounve procurou valorizar não apenas os resultados registados em 2025, mas sobretudo a função sistémica do mercado financeiro regional. Quer no mercado primário, quer no secundário, a bolsa foi apresentada como um canal central de mobilização da poupança local de longo prazo, numa região onde as necessidades de financiamento permanecem elevadas.
O responsável recordou ainda que o interesse dos investidores pelos mercados bolsistas, observado à escala mundial apesar das incertezas, encontra eco ao nível regional. As evoluções positivas dos índices bolsistas internacionais foram citadas como um sinal de que, num ambiente complexo, os mercados continuam a ser um espaço privilegiado de alocação de capital.
Neste sentido, a BRVM destacou a diversificação progressiva dos instrumentos disponíveis, nomeadamente através do desenvolvimento de emissões temáticas no segmento obrigacionista, apresentadas como uma resposta aos desafios contemporâneos de financiamento, sejam eles sociais, ambientais ou ligados à inclusão. Sem entrar numa análise detalhada dos volumes, a Bolsa insistiu sobretudo no posicionamento estratégico da praça regional, hoje reconhecida como a segunda maior bolsa africana em termos de social bonds.
Dólar, fluxos de capitais e oportunidades para os mercados emergentes
Questionado sobre as evoluções do sistema financeiro internacional, nomeadamente sobre a contestação do papel dominante do dólar, o diretor da BRVM adotou um discurso prudente. Recordando o peso ainda central da moeda norte-americana nas reservas cambiais mundiais e no comércio internacional, sublinhou que qualquer inflexão dessa dominância teria necessariamente repercussões globais.
Ainda assim, a BRVM não exclui que estas evoluções possam criar oportunidades indiretas para os mercados emergentes. Num contexto de rendimentos mais baixos nas economias avançadas, certos fluxos de capitais poderão ser reorientados para regiões que ofereçam perspetivas de rentabilidade mais atrativas. Para a bolsa regional, o desafio consiste em posicionar-se como um mercado credível, transparente e suficientemente estruturado para captar parte desses fluxos quando a oportunidade surgir.
Horizonte 2026–2030: uma BRVM em transformação
Para além do balanço de 2025, a cerimónia permitiu também traçar as linhas mestras da visão estratégica da BRVM a médio prazo. No horizonte 2026–2030, a bolsa regional afirma a ambição de uma transformação profunda, estruturada em torno de vários eixos prioritários.
A transformação tecnológica surge como a principal dessas prioridades. A BRVM pretende integrar de forma mais intensa as novas tecnologias nas suas atividades e nos seus processos, quer para melhorar a eficiência operacional, quer para reforçar a transparência e o acesso ao mercado. A referência a ferramentas como a inteligência artificial, a blockchain e a exploração de dados ilustra a vontade de alinhar a praça regional com os padrões internacionais.
A sustentabilidade constitui outro pilar central desta visão. A BRVM pretende reforçar o seu papel na promoção de uma finança mais inclusiva, capaz de responder às necessidades concretas das populações, acompanhando simultaneamente Estados e empresas na estruturação de financiamentos alinhados com os desafios sociais e ambientais.
A direção mencionou ainda o desenvolvimento de novos produtos, nomeadamente ETF (Exchange-Traded Funds — fundos de índice cotados), bem como a implementação progressiva de um mercado de derivados, apresentados como instrumentos destinados a melhorar a cobertura de riscos e a otimização de rendimentos. Estas ambições são acompanhadas por uma aposta reforçada na educação financeira e bolsista, considerada uma condição essencial para alargar a base de investidores e consolidar o enraizamento do mercado nas economias da União.
Moutiou Adjibi Nourou













Marrakech. Maroc