Impulsionadas pelas tensões geopolíticas, pelas perturbações nas rotas marítimas e pela subida dos preços do petróleo, a volatilidade dos mercados e as restrições de abastecimento intensificam-se, levando vários países africanos a explorar alternativas.
Países como o Gana, a África do Sul e o Quénia estão agora a voltar-se para a refinaria do grupo Dangote, na Nigéria, para garantir o seu abastecimento de combustíveis, segundo o jornal nigeriano The Nation, que cita fontes próximas do processo.
Esta reorientação ocorre num contexto em que o barril de Brent ultrapassou os 100 dólares, atingindo picos em torno dos 120 dólares nos últimos dias, impulsionado pela escalada das tensões entre os Estados Unidos, Israel e o Irão. As perturbações no estreito de Ormuz, um ponto estratégico para o transporte mundial de petróleo, agravam as limitações da oferta no mercado.
Entrando em produção em 2024 após vários atrasos e um investimento significativo, a refinaria com capacidade de 650 mil barris por dia afirma-se como uma alternativa para países africanos historicamente dependentes das importações de produtos refinados provenientes do Médio Oriente. Vários Estados iniciaram negociações para contratos de fornecimento a médio prazo, com o objetivo de garantir volumes num contexto de incerteza.
No entanto, cerca de três quartos da produção da refinaria destinam-se ao mercado interno nigeriano, o que limita os volumes disponíveis para exportação. Apesar desta restrição, a procura regional continua a crescer, impulsionada pela necessidade de fontes de abastecimento mais próximas.
Uma dependência posta à prova pela crise energética
Esta dinâmica reflete uma vulnerabilidade estrutural do continente. Muitos países africanos importam grande parte dos seus produtos refinados, apesar de serem produtores de petróleo bruto, com uma dependência particularmente elevada na África Oriental, onde cerca de 75% das importações provêm do Médio Oriente. A ausência de reservas estratégicas alinhadas com os padrões internacionais aumenta ainda mais a exposição a ruturas no abastecimento.
Neste contexto, o surgimento de capacidades regionais de refinação representa uma resposta parcial aos desafios de dependência logística e comercial. O papel da refinaria de Aliko Dangote ilustra a crescente importância dos atores privados na estruturação da oferta energética no continente. Desde o início da crise, a refinaria tem ajustado os seus preços em função das flutuações internacionais, absorvendo parcialmente os aumentos para limitar o impacto no mercado nigeriano.
A curto prazo, a concorrência entre compradores africanos deverá permanecer elevada para aceder a volumes limitados. A médio prazo, o aumento das capacidades locais poderá reduzir parte da dependência das importações, sem, contudo, eliminar totalmente o défice regional. As estratégias nacionais deverão, assim, continuar a combinar diversificação de fontes, gestão de stocks e acordos bilaterais. A persistência das tensões geopolíticas continuará a ser um fator determinante para a evolução dos fluxos e dos preços, enquanto o desenvolvimento das infraestruturas de refinação em África poderá gradualmente reconfigurar os circuitos de abastecimento no continente.
Paralelamente, alguns Estados terão de reforçar as suas capacidades de armazenamento para aumentar a resiliência face a choques externos e gerir melhor os períodos de tensão.
Olivier de Souza













Marrakech. Maroc