Em 2024, as superfícies certificadas como orgânicas no continente africano diminuíram 17,6%. Uma contração inédita, em parte devido ao endurecimento das normas europeias, mas que não freia a dinâmica comercial do setor.
Em 2024, a África registrou uma contração significativa em suas áreas dedicadas à agricultura orgânica, passando de cerca de 3,4 milhões de hectares para pouco mais de 2,8 milhões de hectares. Essa informação foi divulgada na última edição do relatório The World of Organic Agriculture, publicado no dia 14 de fevereiro pelo Instituto de Pesquisa em Agricultura Orgânica (FiBL).
A queda de 600.000 hectares representa uma redução de 17,6% em relação ao ano anterior e marca, além disso, a primeira contração das áreas destinadas à agricultura orgânica no continente em mais de uma década, desde 2011.
De acordo com o relatório, a contração das superfícies orgânicas declaradas na África coincide com a transição para o novo regulamento de agricultura orgânica da União Europeia (UE), que exige, a partir de 2024, que as importações provenientes de países terceiros sigam os mesmos padrões exigidos aos operadores europeus. Esse quadro regulatório marca o fim progressivo do sistema de equivalência, que permitia que alguns países terceiros exportassem para a UE de acordo com suas próprias normas, consideradas comparáveis.
Nesse contexto, a redução observada nas áreas declaradas pode ser explicada pela necessidade, por parte dos organismos de certificação, de revisar seus dados e considerar apenas as terras totalmente em conformidade com os novos requisitos europeus.
A África representa agora 2,8% das terras agrícolas orgânicas no mundo, mas apenas 0,2% de sua própria área agrícola. A distribuição das superfícies dedicadas à agricultura orgânica no continente ainda é muito concentrada, com quatro países respondendo por quase metade das terras certificadas.
Liderando o ranking, Uganda mantém sua posição como o país africano com maior área certificada, com 505.308 hectares em 2024, seguido por Burkina Faso (251.000 hectares), Etiópia (227.000 hectares) e Togo, que ocupa o quarto lugar com mais de 225.000 hectares.
Exportações em alta, impulsionadas pela demanda americana
Apesar da redução das áreas de cultivo, as exportações africanas de produtos agrícolas orgânicos continuam a se consolidar. De acordo com o FiBL, o continente exportou 687.395 toneladas dessa categoria de produtos para o mercado internacional em 2024, registrando um crescimento de 7,6% em relação ao ano anterior.
O principal destino, a UE, absorveu 62,38% das exportações africanas, mas as compras do bloco econômico caíram ligeiramente em 0,4%, somando 428.845 toneladas. O segundo destino preferido para os produtos agrícolas orgânicos exportados da África, os Estados Unidos, registraram um aumento de 24,4% nas compras do continente, atingindo 258.550 toneladas.
Com mais de 340.000 toneladas e cerca de 50% das exportações orgânicas africanas, a soja e seus derivados foram o principal grupo de produtos agrícolas orgânicos exportados, seguidos pelos óleos vegetais (63.000 toneladas, principalmente óleo de oliva) e bananas (48.000 toneladas). O maior exportador africano continua sendo o Togo, que exporta principalmente soja e seus derivados, seguido pela Tunísia, conhecida por seu óleo de oliva, e Gana, que se destaca pelas exportações de bananas.
Perspectivas favoráveis para os próximos anos?
Para os exportadores africanos, o novo regulamento da União Europeia sobre agricultura orgânica representa tanto um desafio de adaptação regulatória quanto uma porta de entrada para um mercado em expansão, mas também um dos mais exigentes do mundo. Embora essa transição implique custos adicionais de conformidade e uma melhor estruturação das cadeias produtivas, alguns sinais indicam que um movimento de transformação já está em andamento no continente.
Embora ainda não haja dados consolidados sobre as superfícies certificadas, volumes produzidos ou exportações de 2025, o FiBL observa uma progressão tangível na adoção de práticas agrícolas orgânicas e agroecológicas.
Em seu relatório, a instituição menciona que, até o final de 2025, 14 países africanos haviam implementado políticas ou leis em favor da agroecologia, enquanto 42 universidades ofereciam programas acadêmicos dedicados, revelando uma transformação institucional gradual. Em comparação, apenas 5 países do continente tinham legislações sobre agricultura orgânica em 2022.
Além disso, há a expansão dos Sistemas de Garantia Participativa (PGS), uma forma de certificação alternativa desenvolvida pela iniciativa continental plurianual sobre agricultura orgânica ecológica (EOA-I) e pelo Centro de Conhecimento para Agricultura Orgânica e Agroecologia na África (KCOA). Em 2025, 1.326 agricultores foram certificados via PGS, com 18 grupos adicionais em processo de certificação, segundo o relatório.
Stéphanas Assocle













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