A lacuna digital continua particularmente acentuada na República Democrática do Congo (RDC). De acordo com dados da União Internacional de Telecomunicações (UIT), 55% da população não tinha cobertura 4G em 2024, enquanto cerca de 80% não utilizava a Internet.
Na terça-feira, 31 de março, a operadora de torres de telecomunicações Helios Towers anunciou um programa de expansão da cobertura da sua rede na RDC. Avaliado em cerca de 100 milhões de dólares, este projeto visa reforçar o acesso aos serviços de telecomunicações, sobretudo em áreas pouco servidas.
O programa conta com o apoio da Agência Nacional de Promoção de Investimentos (ANAPI), com a qual a Helios Towers RDC assinou um acordo. A agência afirma apoiar investimentos no país através de um dispositivo integrado que cobre todas as fases dos projetos, desde a concepção até à implementação.
Segundo o comunicado da ANAPI, a expansão da Helios Towers abrangerá 23 províncias, incluindo: Kinshasa, Haut-Katanga, Kongo Central, Maniema, Ituri, Kasaï Central, Kasaï Oriental, Norte e Sul de Kivu, Lualaba, Tanganyika, Equador, Haut-Uélé e Kasaï.
Melhoria da cobertura e da adoção de serviços
Esta iniciativa surge num contexto em que as autoridades procuram acelerar a cobertura e a adoção dos serviços de telecomunicações, no quadro das suas ambições de transformação digital. Em 2024, as redes 2G, 3G e 4G cobriam, respetivamente, 75%, 55% e 45% da população congolesa, segundo a UIT. O mesmo organismo estimava a taxa de penetração da telefonia móvel em 44,3%, contra 19,7% para a Internet.
Embora não tenha divulgado detalhes financeiros do programa, o modelo da Helios Towers assenta na construção, aquisição e exploração de torres de telecomunicações partilhadas, capazes de acolher múltiplos operadores. A empresa fornece uma oferta completa de infraestruturas passivas e energia, incluindo aquisição e construção de locais, manutenção, segurança e gestão energética, bem como espaços dedicados aos equipamentos dos clientes.
“Nosso modelo de partilha de infraestruturas permite que os operadores móveis expandam e densifiquem as suas redes de forma mais rápida e econômica, reduzindo as emissões e contribuindo para acelerar a inclusão digital de milhões de pessoas”, indica a Helios Towers no seu site.
Tecnicamente, a expansão da rede pode favorecer uma maior adoção dos serviços de telecomunicações ao melhorar a disponibilidade e a qualidade da conectividade. Ao ampliar a cobertura para zonas rurais e mal servidas, novas populações podem aceder pela primeira vez a serviços de telefonia e Internet. Paralelamente, a densificação da rede nas áreas já cobertas reduz a congestão e melhora a qualidade do sinal, tornando os serviços mais fiáveis e atraentes.
Um modelo central na estratégia pública
Este modelo conta ainda com o apoio das autoridades congolesas. Está no centro da nova estratégia do Fundo de Desenvolvimento do Serviço Universal (FDSU) para o período 2026-2035. Chamado “TowerCo Lead”, destaca fornecedores de torres que financiam e implementam infraestruturas passivas (torres, energia, backhaul) em acesso aberto, enquanto os operadores móveis instalam os equipamentos ativos para fornecer os serviços. A meta é conectar cerca de 68 milhões de pessoas, principalmente em zonas rurais.
A opção por esta abordagem justifica-se pelo seu benefício económico, dada a magnitude da lacuna digital. Segundo a Associação Global de Operadores de Telecomunicações (GSMA), a RDC apresenta uma das maiores diferenças de cobertura do mundo: 46% da população não tem cobertura móvel de alta velocidade e 25% não têm acesso a nenhuma rede móvel, incluindo 2G.
A GSMA sublinha que expandir a rede em zonas sem cobertura exige um número crescente de sites e, portanto, investimentos cada vez mais elevados. Por exemplo, passar de 75% para 80% da população coberta requer cerca de 150 novos sites, enquanto alcançar 95% exige cerca de 5.700, e para passar de 98% a 99% são necessários mais de 2.000 sites. Esta dinâmica complica fortemente a cobertura das áreas mais isoladas, devido à baixa densidade populacional e aos elevados custos associados.
Isaac K. Kassouwi













Bamako