No Nigéria, a generalização da inteligência artificial (IA) nas fintechs revela menos uma corrida à inovação e mais uma resposta pragmática à explosão dos riscos. Os atores do setor utilizam-na agora sobretudo para combater fraudes. Contudo, persistem alguns obstáculos.
Cerca de 87,5% das fintechs nigerianas recorrem à inteligência artificial (IA) para detetar fraudes, segundo um inquérito publicado pelo Banco Central da Nigéria (CBN).
Estes dados constam do Fintech Report 2025, publicado na segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026, no âmbito da série Policy Insight do Banco Central. O relatório baseia-se num inquérito nacional realizado junto dos atores do setor, num workshop fechado realizado em junho de 2025 e numa mesa-redonda realizada em outubro.
A deteção de fraudes surge como o principal caso de utilização da IA, muito à frente de outras aplicações, como o atendimento ao cliente ou a avaliação de risco de crédito.
De acordo com o relatório, 62,5% das fintechs inquiridas utilizam chatbots alimentados por IA para a relação com clientes, enquanto 37,5% recorrem à IA para scoring de crédito e modelação de riscos. A mesma proporção aplica a IA aos processos de integração e de conhecimento do cliente (KYC). 12,5% das empresas inquiridas afirmam não utilizar IA nesta fase.
“A IA é amplamente adotada nas fintechs nigerianas, principalmente para gestão de riscos e eficiência operacional. A fraude constitui um problema central para o setor”, sublinha o relatório, que qualifica este fenómeno como “um grande desafio industrial” durante os diálogos entre reguladores e operadores.
Crescimento rápido sob pressão
Estas conclusões surgem num contexto de forte expansão dos serviços financeiros digitais. No Nigéria, as instituições financeiras processaram cerca de 11 mil milhões de transações de pagamento instantâneo em 2024, mais do que o dobro do volume registado em 2022, colocando o mercado entre os mais ativos do mundo em pagamentos em tempo real.
No entanto, o Banco Central alerta que esta digitalização acelerada amplia a superfície de risco do sistema financeiro. Fraudes, insuficiência de controlos internos em algumas empresas em rápido crescimento e criminalidade financeira transfronteiriça continuam a ser preocupações, apesar do reforço dos mecanismos de combate ao branqueamento de capitais e da recente saída do país da lista cinzenta do Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI).
Interesse numa IA regulamentada
Apesar do foco na luta contra a fraude, segundo o documento, as fintechs mostram um forte interesse num maior uso da IA, desde que beneficiem de um quadro regulamentar mais claro.
Cerca de 62,5% dos inquiridos manifestaram grande interesse em participar num sandbox regulatório dedicado à IA, enquanto 75% priorizam o uso ético e transparente destas tecnologias em decisões de crédito e gestão de risco.
O relatório estima que, à medida que a IA se tornar uma ferramenta central nos serviços financeiros, as capacidades de supervisão e governação terão de evoluir em paralelo.
Obstáculos persistentes
As fintechs identificam, contudo, vários obstáculos à adoção em larga escala da IA. A falta de talento técnico e a incerteza regulatória são apontadas por 37,5% das empresas como barreiras principais.
Além disso, 50% dos respondentes consideram que o acesso a dados de qualidade e a infraestruturas adequadas é a condição mais crítica para desenvolver a IA, destacando o papel das infraestruturas públicas digitais, como a identidade digital e os quadros de partilha de dados.
Fiacre E. Kakpo













Marrakech. Maroc