O governo do Chade pretende generalizar o acesso aos serviços de telecomunicações no âmbito das suas ambições de transformação digital. Segundo dados da União Internacional das Telecomunicações, 87% da população não utilizava a Internet em 2024.
As autoridades chadianas pretendem reforçar a cooperação com o Banco Mundial para acelerar a inclusão digital do país, nomeadamente através da cobertura das chamadas «zonas brancas» (áreas sem acesso a serviços de telecomunicações). O objetivo é reduzir a fratura digital que continua a afetar várias regiões.
Esta ambição foi discutida durante uma missão de trabalho de uma delegação do Banco Mundial, em visita ao Chade entre 1 e 5 de junho. Os encontros centraram-se no estado de avanço do Projeto de Apoio à Transformação Digital (PATN) e nas expectativas do Ministério das Telecomunicações para garantir o sucesso da iniciativa. O Programa Regional de Integração Digital da África Central (CARDIP) também esteve na agenda.
Durante as discussões, Ibangolo Maïna Manga Abel indicou que cerca de 500 localidades sem conectividade ou sem acesso a serviços digitais foram identificadas em todo o país. No entanto, o comunicado do Ministério da Economia Digital, publicado a 1 de junho, não especifica a localização dessas localidades nem o calendário previsto para a sua ligação à rede.
Uma fratura digital ainda muito acentuada
Esta iniciativa surge num contexto em que a exclusão digital continua a ser significativa no Chade. Segundo a UIT, as redes 2G e 3G cobriam respetivamente 86,9% e 84,5% da população em 2024, numa altura em que alguns países africanos já estudam o abandono gradual destas tecnologias.
A rede 4G cobria apenas 60% da população, estimada em cerca de 25 milhões de habitantes. Em termos de utilização, a UIT estima uma taxa de penetração da telefonia móvel de 44,3%, contra apenas 12,6% para a Internet móvel.
Para além da cobertura, o desafio da adoção
Embora a expansão da cobertura para as zonas brancas possa contribuir para reduzir a fratura digital, persistem vários desafios estruturais. O principal continua a ser o isolamento digital do país, que limita o acesso às capacidades internacionais necessárias para o fornecimento de Internet.
O Chade dispõe atualmente de apenas uma ligação internacional de fibra ótica através dos Camarões, uma dependência que fragiliza o abastecimento de largura de banda e afeta a qualidade dos serviços. Estão previstas interligações com a Argélia, Nigéria, Níger, Líbia e Egito, mas estes projetos ainda não foram concretizados.
Além disso, a qualidade dos serviços continua insuficiente. A 15.ª auditoria da ARCEP, realizada entre setembro e outubro de 2025, identificou várias falhas, incluindo equipamentos obsoletos, manutenção insuficiente, problemas de fornecimento elétrico e estações fora de serviço em determinadas zonas. O vandalismo das infraestruturas continua igualmente a afetar o desempenho global da rede.
Para além destas limitações, a adoção dos serviços digitais nas zonas brancas, geralmente localizadas em áreas rurais, depende de vários outros fatores. Entre eles estão a acessibilidade dos equipamentos (smartphones, tablets e computadores), as competências digitais básicas da população, o custo dos serviços e a disponibilidade de conteúdos relevantes adaptados às necessidades locais.
Segundo dados do Banco Mundial, apenas 8,6% dos chadianos com mais de 15 anos possuíam um smartphone em 2024. No que diz respeito à acessibilidade financeira dos serviços, a UIT indica que o cabaz básico de Internet, SMS e voz representava 9,84% do rendimento nacional bruto (RNB) per capita em 2024. Este valor é muito superior à média africana (4%), à média mundial (1,3%) e ao limiar de acessibilidade de 2% definido pela organização. Além disso, um pacote de 5 GB de Internet móvel representava, por si só, 11,8% do rendimento mensal per capita.
Estes indicadores mostram que a melhoria da cobertura de rede, embora essencial, não será suficiente para eliminar a fratura digital no Chade. As autoridades terão igualmente de atuar sobre a qualidade das infraestruturas, a acessibilidade económica dos serviços e dos equipamentos, bem como sobre o desenvolvimento das competências digitais, para transformar o acesso potencial à rede numa utilização efetiva.
Isaac K. Kassouwi













Dakar, Senegal