A aceleração da transformação digital em África acompanha-se do surgimento de novos modos de consumo digital, exigentes em termos de largura de banda. As autoridades e os operadores apostam nas tecnologias de última geração para responder a esta procura crescente.
As autoridades ruandesas preparam o abandono gradual das tecnologias de telefonia móvel 2G e 3G. A iniciativa visa acelerar o desenvolvimento e a adoção da banda larga no Ruanda, no âmbito da transformação digital atualmente em curso.
Na quinta-feira, 26 de março, Paula Ingabire (foto, à direita), Ministra das TIC e da Inovação, reuniu-se com importadores de equipamentos e atores do setor privado. O objetivo foi discutir de forma inclusiva os métodos práticos desta transição e refletir sobre as formas de facilitar o acesso de todos os ruandeses a dispositivos compatíveis com as tecnologias 4G e 5G.
Uma transição planeada no quadro estratégico nacional
A migração para redes 4G e 5G integra-se no Plano Estratégico do Setor das TIC 2024–2029, que define o quadro para a transformação digital do país. Em novembro de 2024, o governo, em parceria com a Alemanha, lançou um convite à manifestação de interesse para realizar uma avaliação técnica do abandono progressivo das redes 2G e 3G. Este estudo visa principalmente medir o nível de preparação das infraestruturas e do ecossistema tecnológico.
Inclui também a análise das consequências de uma eventual não-transição, tais como o aumento dos custos relacionados com a manutenção das redes antigas, a retirada do suporte dos fabricantes e os riscos de segurança e conformidade. O estudo analisará o impacto na cobertura, nomeadamente nas áreas rurais, e a capacidade das redes 4G e 5G de fornecer conectividade de qualidade, inclusiva e acessível.
A avaliação contempla ainda os aspetos económicos: evolução do ARPU, risco de perda de receita para os operadores, condições de migração dos utilizadores para as novas tecnologias, limitações no acesso a dispositivos 4G e 5G, efeitos nos preços e na concorrência, bem como questões de regulação e eficiência energética.
Preparação dos operadores
Os operadores de telecomunicações ruandeses já começaram a preparar-se para esta transição. A Airtel Ruanda anunciou, em dezembro de 2024, a intenção de abandonar gradualmente a 3G até ao final de 2025 e a 2G até 2026, alinhando-se com as tendências globais e as ambições nacionais em matéria de banda larga. Segundo Emmanuel Hamez, então CEO da filial ruandesa da Airtel Africa, esta evolução é não só necessária como inevitável, sendo o operador responsável pela implementação de uma rede moderna capaz de responder às necessidades de uma sociedade conectada e digital.
Uma transição inevitável face ao crescimento do digital
A procura por conectividade de alta velocidade está a crescer rapidamente, e a 3G já é demasiado lenta para muitas aplicações, sobretudo com o aumento do número de utilizadores e das necessidades de largura de banda. As autoridades ruandesas consideram que esta transição é indispensável para acompanhar as tendências globais e o crescimento das aplicações baseadas em dados, reduzindo progressivamente a dependência dos serviços de voz tradicionais.
O Ruanda pretende aproveitar as novas tecnologias para reduzir a divisão digital, melhorar a qualidade da conectividade em todo o território e impulsionar uma economia digital sustentável e inclusiva. A Estratégia Nacional de Banda Larga sublinha que o acesso melhorado à banda larga pode ser um verdadeiro motor de produtividade, inovação, eficiência e criação de emprego.
Desafios persistentes de inclusão digital
Apesar das vantagens anunciadas, a transição para ultra banda larga levanta questões de inclusão digital. Segundo dados da União Internacional de Telecomunicações (UIT), a 2G e a 3G cobriam já 98,8% da população em 2024, nível comparável ao da 4G. Embora a diferença de cobertura seja limitada, poderá afetar algumas áreas rurais ou periféricas, onde a qualidade e disponibilidade das redes mais recentes ainda são desiguais.
Para além da cobertura, o uso constitui outro desafio. Segundo as autoridades ruandesas, as subscrições de banda larga móvel representavam 54% da população em 2024, sinal de uma adoção ainda incompleta. Um dos principais obstáculos continua a ser o acesso a dispositivos compatíveis. Os smartphones, essenciais para tirar pleno proveito das redes 4G e 5G, eram detidos apenas por 45% da população em 2024. A estes constrangimentos somam-se o custo dos pacotes de dados, o nível de competências digitais e a relevância dos conteúdos disponíveis.
Adicionalmente, a 2G e a 3G continuam a desempenhar um papel em certos usos profissionais, nomeadamente para comunicações máquina a máquina (M2M). São utilizadas por terminais de pagamento eletrónico, caixas automáticas, contadores inteligentes ou alguns equipamentos industriais e de transporte. Surge assim a questão da capacidade dos intervenientes em migrar para soluções alternativas fiáveis.
Isaac K. Kassouwi













Bamako