Continente passou a emitir mais carbono do que captura por conta de desmatamento massivo.
Relatório publicado na Nature destacou que florestas perderam aproximadamente 106 milhões de toneladas de biomassa por ano.
Até 2010, o continente africano capturava mais carbono do que emitia para a atmosfera graças às suas florestas tropicais. Entretanto, as perdas massivas de cobertura florestal, especialmente na República Democrática do Congo, em Madagascar e em certas regiões da África Ocidental, fizeram a balança pesar para o outro lado.
Antigas aliadas essenciais no combate às mudanças climáticas em escala global, as florestas africanas passaram da condição de armadilhas de carbono para emissores líquidos de carbono devido a um desmatamento crescente causado por atividades humanas, conforme relatório publicado em 28 de novembro de 2025 pela revista científica Nature.
Intitulado "Loss of tropical moist broadleaf forest has turned Africa’s forests from a carbon sink into a source", o relatório se baseia em um acompanhamento das mudanças na biomassa florestal aérea, ou seja, a quantidade de carbono armazenado nas árvores e vegetação lenhosa, durante dez anos, por meio de dados de satélite e de modelos avançados de machine learning.
Esse acompanhamento, realizado por uma equipe de pesquisadores afiliados a várias universidades europeias, inclusive de Leicester, Sheffield e Helsinque, utilizou os dados fornecidos pelo instrumento a laser espacial Global Ecosystem Dynamics Investigation (GEDI) da NASA e os satélites de radar japonês ALOS (Advanced Land Observing Satellite), combinados com milhares de medições florestais feitas em campo. O resultado foi o mapa mais detalhado até o momento das mudanças de biomassa no continente africano, cobrindo uma década, com uma resolução suficientemente precisa para capturar os padrões locais de desmatamento.
Os pesquisadores constataram que a África capturou mais carbono do que emitiu entre 2007 e 2010 graças às suas florestas tropicais. Porém, desde então, o desmatamento generalizado fez com que a balança se inclinasse para o outro lado, fazendo do continente um emissor líquido de CO2 na atmosfera. Entre 2010 e 2017, as florestas africanas perderam cerca de 106 milhões de toneladas de biomassa por ano, o equivalente ao peso de aproximadamente 106 milhões de carros. Em consequência, essas florestas agora liberam mais carbono do que removem.
É urgente tomar uma atitude
As florestas tropicais úmidas de folhas largas da República Democrática do Congo, Madagascar e de certas regiões da África Ocidental foram as mais atingidas. Os ganhos registrados nas regiões de savanas, graças ao crescimento dos arbustos, não foram suficientes para compensar as perdas registradas.
As atividades humanas são a principal causa dessa ruptura. Os agricultores desmatam mais terras para produzir alimentos. Os projetos de infraestrutura e a exploração mineral, por sua vez, agravam a perda de vegetação e, por conseguinte, prejudicam a resiliência dos ecossistemas.
Os autores do relatório enfatizam a necessidade urgente de salvar os grandes estabilizadores climáticos naturais do planeta. Recomendam que os líderes implementem políticas destinadas a acabar com o desmatamento global, como exigido pela "Declaração dos líderes de Glasgow sobre as florestas e o uso da terra", um acordo importante alcançado durante a COP26 em 2021. Também defendem a implementação de novas iniciativas de restauração direcionadas semelhantes ao REDD+ (Redução das emissões resultantes do desmatamento e da degradação florestal nos países em desenvolvimento), um mecanismo internacional criado para reduzir as emissões de gases de efeito estufa provenientes do desmatamento e da degradação florestal em países em desenvolvimento, bem como a revisão das Contribuições Determinadas Nacionalmente (NDCs), previstas no Acordo de Paris sobre o clima, a fim de compensar a perda contínua de armadilhas de carbono naturais.
Walid Kéfi













Marrakech. Maroc