Com a recuperação dos preços do urânio e uma procura em crescimento, o projeto Dasa da Global Atomic pode ajudar o Níger a recuperar terreno após uma década de queda da produção. No entanto, para a empresa canadiana, os desafios para colocar a mina em operação continuam significativos.
No Níger, a Global Atomic anunciou na quarta-feira, 13 de maio, que a sua futura mina de urânio Dasa deverá entregar os primeiros carregamentos de concentrado (yellowcake) no primeiro semestre de 2028. Embora esta nova mina seja esperada num contexto de aumento da procura e dos preços do urânio, a empresa canadiana terá de enfrentar outros desafios para cumprir um calendário de produção já várias vezes revisto desde 2023.
Localizado na região de Agadez, o jazigo de Dasa é operado pela SOMIDA, uma empresa de direito nigerino detida em 80% pela Global Atomic e em 20% pelo Estado do Níger. Autorizado em 2020 e em desenvolvimento ativo desde novembro de 2022, o projeto poderá produzir 68,1 milhões de libras ao longo de cerca de 24 anos, segundo um estudo de viabilidade publicado em 2024.
Mercado favorável e posição estratégica
O projeto beneficia de um ambiente de preços estruturalmente favorável. Segundo dados divulgados pela Cameco, o preço à vista do urânio situava-se em 86,35 dólares por libra em abril de 2026, contra cerca de 51 dólares no final do primeiro semestre de 2023. Os preços a longo prazo chegaram mesmo a cerca de 90 dólares por libra no primeiro trimestre de 2026, impulsionados por perspetivas de procura global claramente em alta.
Ignorado ao longo da última década, na sequência do desastre de Fukushima no Japão em 2011, a energia nuclear civil voltou a ganhar relevância. Desde a COP28 realizada no Dubai em 2023, cerca de trinta países comprometeram-se a triplicar a capacidade nuclear instalada no mundo até 2050, elevando-a para 1 200 gigawatts. Segundo a World Nuclear Association (WNA), isso poderá aumentar as necessidades anuais de urânio para 250 000 toneladas, contra cerca de 60 000 toneladas atualmente produzidas no mundo.
No Níger, o projeto Dasa afirma-se como um pilar essencial neste contexto. O país, outrora o 8.º maior produtor mundial de urânio, viu a sua produção cair para 962 toneladas em 2024, segundo a WNA, contra mais de 4 100 toneladas em 2015. O encerramento da Cominak em 2021 e, posteriormente, a nacionalização em 2025 da Somaïr, a única mina ainda em atividade e até então gerida pela francesa Orano, contribuíram para a redução da produção. Dasa tornou-se, assim, um dos principais instrumentos da estratégia nacional, garantindo-lhe o apoio de Niamey.
Financiamento e logística, dois desafios persistentes
Apesar das vantagens do projeto nigerino da Global Atomic, a empresa ainda não eliminou definitivamente as restrições que atrasaram a entrada em produção da mina, inicialmente prevista para 2025 e depois adiada para o segundo semestre de 2026. A maior parte dos fundos deverá vir de um empréstimo de um banco norte-americano, cujo processo de aprovação já passou uma primeira etapa formal, tendo sido atrasado pelo golpe de Estado de julho de 2023 no Níger. Ainda não existe um acordo final.
Em paralelo, a Global Atomic explora outras opções, incluindo uma parceria de joint-venture que prevê a cedência de uma participação minoritária na SOMIDA. A empresa indicou ainda que a entrada em funcionamento da unidade de processamento, prevista para o quarto trimestre de 2027, e o início das exportações dependem da garantia do financiamento.
A logística constitui outro desafio importante. Inicialmente encerrada por Cotonou após o golpe de 2023, a fronteira entre o Níger e o Benim continua fechada por decisão de Niamey. Isto obriga a Global Atomic a recorrer a rotas alternativas, nomeadamente através do porto de Lomé, no Togo, um percurso mais longo e mais dispendioso do que a rota natural via Benim para importação e exportação. A eleição do novo presidente beninense Romuald Wadagni, em abril de 2026, abre uma janela de diálogo com Niamey, podendo simplificar no futuro as condições logísticas do projeto. Para a Global Atomic, 2028 continua a ser mais um objetivo — a questão é saber se as condições estarão finalmente reunidas para o cumprir.
Emiliano Tossou













Nairobi. Kenya