Principais produtores africanos de cobre, a República Democrática do Congo e a Zâmbia há muito deixaram às empresas estrangeiras o controlo da comercialização dos fluxos de produção. Mas uma transição começa agora a desenhar-se neste elo estratégico.
A ZCCM Investments Holdings, companhia mineira majoritariamente controlada pelo Estado zambiano, pretende agora posicionar-se no comércio de cobre. Segundo o seu diretor-geral, Kakenenwa Muyangwa, citado na terça-feira, 17 de fevereiro, pela Bloomberg, estão em curso discussões com o grupo suíço Mercuria e outros intervenientes para comercializar a parte da produção correspondente às suas participações nas minas do país.
Este anúncio surge poucas semanas depois de a República Democrática do Congo ter dado um passo notável nesta direção. Acionista de minas como Chambishi, Kansanshi ou Konkola, a ZCCM Investments Holdings retirava até agora os seus rendimentos principalmente de dividendos. Segundo Muyangwa, a transição para um modelo em que comercializaria diretamente uma parte da produção correspondente às suas participações «tem uma importância considerável». Até ao momento, nenhum acordo foi, no entanto, anunciado, nem com as empresas mineiras envolvidas, nem com os comerciantes-alvo.
Um passo que a Gécamines, companhia pública detida pelo Estado congolês, já tinha dado desde 2023, anunciando mesmo, no início deste ano, a sua primeira incursão nos mercados. Para o exercício de 2026, a empresa prevê exercer o direito de comercializar a sua parte da produção na mina Tenke Fungurume, onde detém 20 % numa joint venture com a chinesa CMOC.
A parte da produção que lhe cabe, cerca de 100.000 toneladas de cobre, deverá ser exportada para o mercado norte-americano, com o apoio da Mercuria. Paralelamente, a empresa pública congolesa planeia lançar a sua filial Gécamines Trading, com o objetivo de longo prazo de elevar os volumes comercializáveis para 500.000 toneladas de cobre.
Tirar proveito de um mercado em expansão?
Através destas iniciativas, os intervenientes congoleses e zambianos procuram afirmar-se como partes ativas na comercialização do seu cobre. Esta estratégia não se limita à simples venda. Pode sobretudo permitir-lhes controlar os volumes exportados, escolher os mercados de destino e negociar diretamente as condições das transações, em particular os preços.
Esta evolução torna-se ainda mais importante num contexto em que a procura mundial de cobre está a crescer rapidamente. A oferta do metal vermelho, indispensável aos sistemas eletrónicos modernos, corre o risco de não acompanhar o ritmo das necessidades, sobretudo devido à transição energética e ao crescimento das tecnologias ligadas à inteligência artificial.
Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), esta pressão poderá traduzir-se num défice mundial de fornecimento de até 30 % até 2035, reforçando a escassez e a dimensão estratégica do cobre. Neste contexto, retomar o controlo de uma parte da cadeia comercial permitiria à Zâmbia e à RDC captar de forma mais direta os benefícios desta tensão esperada no mercado, ao mesmo tempo que o interesse ocidental pelos seus fluxos se intensifica, nomeadamente por parte dos Estados Unidos.
Resta agora ver como esta transição se concretizará nos próximos meses e, sobretudo, quais serão os impactos económicos efetivos. Embora o movimento traduza uma vontade de retomar o controlo, as capacidades destas entidades de se afirmarem no mercado internacional do comércio de cobre ainda estão por demonstrar. Os parcerias anunciadas com traders como a Mercuria sugerem, aliás, uma progressiva ascensão, mas é necessário que esta estratégia lhes permita reforçar de forma sustentável a sua posição e aumentar os seus rendimentos.
Aurel Sèdjro Houenou













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