A Galp está a implementar uma recomposição estratégica significativa do seu modelo industrial. Ao separar a área de downstream, o grupo aposta no crescimento da sua produção petrolífera no Brasil e na Namíbia, que se tornaram pilares das suas atividades no segmento upstream.
O grupo energético português Galp vai concentrar a sua estratégia de crescimento no desenvolvimento das suas atividades de exploração e produção de petróleo na Namíbia e no Brasil. Esta orientação foi confirmada na terça-feira, 20 de janeiro, pelo co-diretor-geral do grupo, João Diogo Marques da Silva, que indicou que o upstream permaneceria excluído do projeto de reorganização industrial em curso. Ao mesmo tempo, o gigante português não exclui a eventual introdução em bolsa, a médio prazo, de uma parte das suas atividades de downstream resultantes desta reestruturação.
Cisão industrial e foco em ativos de alto valor
No início de janeiro, a Galp anunciou estar em negociações com a Moeve, uma empresa apoiada por fundos de capital de risco, para agrupar as suas atividades de refinação e distribuição em duas novas entidades. Uma seria dedicada à distribuição de combustíveis e a outra à refinação. Caso a operação se concretize, daria origem a um dos maiores complexos de refinação da Europa, com uma capacidade de processamento total de cerca de 700.000 barris por dia.
Neste esquema, a Galp manteria cerca de 20% das novas entidades, ao lado da Moeve, do fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, Mubadala, e do grupo norte-americano Carlyle. O acordo permanece, nesta fase, não vinculativo. Segundo a direção, uma decisão final poderá ocorrer em meados de 2026, uma vez clarificadas as valorizações. Uma eventual cotação em bolsa só seria considerada após a consolidação dos ativos, a clarificação das questões regulatórias, especialmente na distribuição, e a conclusão dos investimentos industriais.
Este reposicionamento estratégico visa preservar e valorizar um portfólio upstream que a Galp considera um motor de crescimento a longo prazo. Após o anúncio do projeto com a Moeve, alguns observadores tinham sugerido a possível alienação dos ativos upstream. A direção rejeitou essa hipótese, destacando a solidez e o potencial das suas posições em exploração e produção.
Brasil e Namíbia no centro da estratégia de crescimento
No Brasil, a Galp iniciou recentemente a produção no seu grande campo Bacalhau. O grupo antecipa um aumento de cerca de 10% da sua produção de petróleo no país em 2026, confirmando o papel central deste ativo na sua trajetória de crescimento. Na Namíbia, detém participações em blocos offshore do Orange Basin, onde recentes descobertas despertaram maior interesse da indústria petrolífera mundial. Estes ativos ainda não desenvolvidos são acompanhados de perto e constituem um pilar estratégico do grupo.
Para além destes dois mercados-chave, a Galp mantém uma abordagem seletiva na sua expansão internacional. O grupo indicou que continua atento a eventuais oportunidades em Angola, ao mesmo tempo que prossegue as suas atividades de exploração em São Tomé e Príncipe, consideradas opções de crescimento a mais longo prazo. Paralelamente, procedeu a retiradas seletivas, nomeadamente em Moçambique e na Guiné-Bissau, refletindo uma estratégia de otimização do portfólio.
Esta estratégia insere-se num contexto energético marcado por uma transição mais lenta do que o previsto. A Galp estima que a Europa continuará a depender dos hidrocarbonetos durante vários anos, justificando a manutenção de investimentos direcionados no upstream, paralelamente a uma racionalização das atividades de downstream. A médio prazo, o sucesso da cisão, a evolução da parceria com a Moeve e o fortalecimento dos ativos brasileiros e namibianos serão determinantes para a capacidade do grupo criar valor.
Olivier de Souza












