A Agência Internacional de Energia (AIE) faz um apelo por uma mudança de escala no financiamento da eletrificação em África. O seu mais recente relatório sobre o continente destaca a necessidade de um esforço coletivo para ligar todos os lares africanos à rede elétrica ou a soluções descentralizadas até 2035.
No relatório “Financing Electricity Access in Africa”, publicado na segunda-feira, 20 de outubro, a AIE estima em 150 mil milhões de dólares o volume de investimentos necessários para alcançar o acesso universal à eletricidade em África até 2035, com base no cenário Accelerating Clean Cooking and Electricity Services (ACCESS).
Baseado nos melhores desempenhos históricos do continente, este cenário prevê um aumento progressivo dos investimentos, com uma triplicação das despesas até 2030, seguida de um novo triplo entre 2031 e 2035. A AIE estima que 45% das novas ligações advenham da expansão das redes elétricas, enquanto 55% virão de soluções descentralizadas. O objetivo é garantir uma cobertura completa, priorizando as opções mais rentáveis conforme as realidades locais.
As redes elétricas
As redes elétricas continuam no centro das estratégias nacionais de abastecimento energético. Segundo a AIE, elas representam a solução mais econômica para as zonas urbanas e periurbanas próximas de linhas já existentes. Os investimentos anuais em redes deverão atingir 3 mil milhões de dólares por ano até 2030, e cerca de 10 mil milhões por ano entre 2030 e 2035, à medida que os projetos de extensão se intensificam.
Os fundos deverão cobrir produção, transporte e distribuição, no quadro de uma abordagem integrada promovida pelo Plano Diretor Continental da União Africana. Essa visão de interconexão visa reforçar a confiabilidade do fornecimento, reduzir custos e adaptar as infraestruturas à integração de mais fontes descentralizadas. A AIE destaca ainda que o planeamento energético se apoia em previsões de aumento da procura, impulsionado pelo crescimento económico e pela elevação da renda das famílias.
As soluções descentralizadas
As soluções descentralizadas são vistas como as mais adequadas para zonas afastadas mais de 30 km das redes elétricas, geralmente rurais. Os investimentos necessários para os mini-redes deverão rondar 6 mil milhões de dólares por ano até 2035, e 5 mil milhões para sistemas solares domésticos. O custo médio de instalação por kWc caiu 35% nos últimos cinco anos, impulsionado pela redução dos preços dos painéis fotovoltaicos e das baterias de íon-lítio.
De acordo com os dados da AIE, mais de 90% dos mini-redes já utilizam essa tecnologia de baterias, contra 15% em 2017. Essas evoluções devem acelerar a expansão das soluções descentralizadas em áreas de baixa densidade populacional, favorecendo uma padronização crescente dos modelos de produção e financiamento.
Uma coordenação necessária entre Estados, parceiros de desenvolvimento e setor privado
A AIE considera que alcançar o acesso universal até 2035 exige uma mobilização equilibrada entre capitais públicos e privados. O setor privado deverá contribuir com cerca de 45% do total necessário, principalmente nos sistemas solares domésticos, onde os modelos de negócio já se encontram consolidados. O restante será coberto pelos governos e parceiros internacionais, por meio de financiamentos concessionais.
A Agência recomenda aumentar a participação de capital próprio nos projetos — dos atuais 20% para cerca de um terço até 2035. Sugere também mobilizar fundos de pensão nacionais, reforçar o acesso ao crédito local e desenvolver capital paciente para apoiar as soluções descentralizadas. As projeções da AIE inserem-se numa dinâmica de compromissos e ações coordenadas já em curso no continente.
Vários governos africanos já adotaram planos nacionais para expandir o acesso à eletricidade e atrair investimentos. No âmbito da Missão 300, vinte e nove países já apresentaram os seus Energy Compacts, que combinam reformas, investimentos em redes e implantação de soluções descentralizadas. Esses compromissos refletem uma convergência com o cenário ACCESS da AIE, em que a combinação entre infraestruturas centralizadas e fora da rede se afirma como o principal motor para concretizar o acesso universal à eletricidade.
Abdoullah Diop












