A cooperação energética na África Oriental está a intensificar-se em torno das infraestruturas petrolíferas, impulsionada por participações cruzadas que visam estruturar uma cadeia de valor regional mais integrada.
O Presidente William Ruto anunciou, na quinta-feira, 23 de abril, em Nairobi, que o Quénia irá investir no projeto da refinaria de petróleo de Hoima, no Uganda. Intervindo no Africa We Build Summit 2026, apresentou este compromisso como uma resposta à participação ugandesa no capital da Kenya Pipeline Company (KPC). “O Quénia investirá na vossa refinaria, da mesma forma que o Uganda investiu no nosso oleoduto, para construirmos juntos o futuro dos nossos recursos”, afirmou.
O Presidente Yoweri Museveni saudou uma iniciativa destinada a reforçar a transformação local dos recursos petrolíferos e a cooperação regional.
Uma cadeia petrolífera regional em construção
O anúncio surge na sequência da introdução em bolsa da KPC, que permitiu angariar mais de 825 milhões de dólares. Os investidores quenianos adquiriram 7,9 mil milhões de ações, enquanto os investidores regionais, incluindo o Uganda e o Ruanda, compraram cerca de 3,8 mil milhões. O Uganda passou a deter uma participação de 20,15% na KPC, reforçando a sua posição numa infraestrutura que assegura mais de 95% das suas importações de produtos petrolíferos.
No total, os investidores da Comunidade da África Oriental detêm 21,22% do capital da KPC, enquanto o Estado queniano mantém 35%. Estas participações cruzadas entre transporte e refinação refletem uma estruturação progressiva de uma cadeia de valor regional, baseada na articulação entre infraestruturas logísticas quenianas e capacidades industriais ugandesas, com interesses cada vez mais interligados entre Estados vizinhos.
Uma refinaria no centro da ambição petrolífera ugandesa
Avaliado em 4 mil milhões de dólares, o projeto da refinaria de Hoima é um pilar da estratégia energética de Kampala. A infraestrutura deverá atingir uma capacidade de 60.000 barris por dia e produzir combustíveis, querosene e produtos petroquímicos, integrando também o processamento de gás. A entrada em funcionamento está prevista entre o quarto trimestre de 2029 e o primeiro trimestre de 2030.
O projeto insere-se num plano de monetização de reservas petrolíferas estimadas em 6,5 mil milhões de barris, numa altura em que o Uganda se prepara para se tornar produtor. O objetivo é cobrir uma procura interna estimada em 36.000 barris por dia e gerar exportações regionais, nomeadamente para a Tanzânia e a República Democrática do Congo. Segundo as autoridades, a refinaria poderá permitir poupanças superiores a 1,23 mil milhões de dólares por ano em importações de produtos refinados.
Um projeto estratégico num contexto financeiro restritivo
Esta iniciativa insere-se num contexto continental marcado por um défice de capacidade de refinação. África produz cerca de 10 milhões de barris de petróleo por dia, mas importa cerca de 90 mil milhões de dólares em produtos petrolíferos por ano. Este desequilíbrio limita a criação de valor local e mantém a dependência dos mercados externos.
Neste contexto, os projetos de refinação surgem como uma alavanca para a transformação industrial e para a soberania energética. No entanto, o seu financiamento torna-se mais complexo num ambiente marcado pelos compromissos da transição energética, que travam investimentos em hidrocarbonetos. O recurso a financiamento em capitais próprios e a parcerias regionais, como a prevista entre o Quénia e o Uganda, tende a impor-se como alternativa.
Paralelamente, o Quénia desenvolve as suas próprias ambições a montante com o projeto South Lokichar, cuja produção é esperada até dezembro de 2026, com um potencial estimado em 585 milhões de barris recuperáveis. A concretização desta dinâmica dependerá da capacidade dos Estados para garantir o abastecimento de crude, estruturar os mercados de escoamento e manter o compromisso dos investidores num setor em transformação.
Olivier de Souza












