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Corrida mundial pelas terras raras: estes projetos africanos a acompanhar de perto em 2026

Corrida mundial pelas terras raras: estes projetos africanos a acompanhar de perto em 2026
Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2026

De acordo com a Fitch Solutions, a África poderá garantir cerca de 7% da produção mundial de terras raras até 2034. Esta projeção baseia-se essencialmente no portfólio atual de projetos em desenvolvimento no continente, que atualmente não dispõe de nenhuma mina de terras raras em produção.

Em 2025, a corrida global pelas terras raras intensificou-se significativamente, num contexto marcado por anúncios de restrições à exportação da China, que domina a cadeia de valor destes 17 metais estratégicos. Estes sinais levaram os países ocidentais e os seus aliados, liderados pelos Estados Unidos, a estabelecer novas parcerias para assegurar os seus fornecimentos e reduzir a dependência face a Pequim.

Neste cenário de reconfiguração, a África destaca-se como um território de elevado potencial, com vários projetos de terras raras estratégicos a acompanhar ao longo de 2026.

Kangankunde (Malawi)

Desde a suspensão da produção na mina burundesa Gakara, em junho de 2021, a África não possui nenhuma mina industrial de terras raras em atividade. O projeto Kangankunde, no Malawi, poderá mudar esta situação, já que o seu operador australiano Lindian Resources pretende iniciar a produção até ao final de 2026. Neste contexto, anunciou a decisão final de investimento em agosto de 2025, após mobilizar 59 milhões de USD para a construção.

Os trabalhos prosseguem, com a empresa tendo recentemente anunciado a mobilização de equipamentos mineiros no local. A Lindian pretende lançar, a longo prazo, uma mina com capacidade anual de 15.300 toneladas de concentrado de terras raras, expansível até 50.000 toneladas por ano ao longo de 45 anos. Este potencial já desperta interesse em Washington. Em dezembro de 2025, foram comunicadas discussões com o governo dos EUA para avaliar o “potencial do Kangankunde em contribuir para suprir o défice de abastecimento emergente” dos EUA e seus aliados.

Até ao momento, nenhum compromisso vinculativo foi formalizado, mas as negociações deverão continuar nos próximos meses.

Songwe Hill (Malawi)

Songwe Hill é um projeto de terras raras em fase de financiamento, também no Malawi. Segundo um estudo de viabilidade publicado em 2022 pelo operador canadiano Mkango Resources, poderá produzir 8.325 toneladas de carbonato de terras raras por ano durante 18 anos, com um investimento inicial de 277 milhões USD. Em setembro de 2025, a empresa concluiu um acordo com a DFC para um financiamento de 4,6 milhões USD. Para além desta transação, a agência federal norte-americana pondera também um empréstimo potencial de 100 milhões USD para o desenvolvimento do projeto.

Este apoio americano soma-se ao mostrado anteriormente pela União Europeia, que incluiu a Pulawy — uma fábrica de separação de terras raras prevista pela Mkango — na sua lista de projetos estratégicos de minerais críticos. Esta iniciativa implica também acompanhamento europeu para Songwe Hill, cuja produção deverá abastecer a referida fábrica. Para acelerar o desenvolvimento, a Mkango planeia fundir-se com a Crown PropTech Acquisitions, formando uma entidade especializada em terras raras, que reunirá Songwe Hill e Pulawy.

O objetivo desta estrutura é criar, a longo prazo, uma fonte fora da China, capaz de abastecer os mercados da América do Norte, Europa e Ásia. A nova empresa deverá ser cotada no Nasdaq, sujeita à finalização de um relatório técnico atualizado de Songwe Hill destinado a investidores americanos. O impacto desta iniciativa no avanço do projeto será acompanhado nos próximos meses.

Longonjo (Angola)

Apresentado como a futura primeira mina de terras raras de Angola, o projeto Longonjo entrou em fase de construção em maio de 2025. O seu operador britânico, Pensana, anunciou então um investimento de 25 milhões USD do fundo soberano angolano (FSDEA) para apoiar os trabalhos. O custo total do projeto é estimado em 217 milhões USD, com início de produção previsto para 2027, e uma capacidade inicial de 20.000 toneladas por ano de MREC, um concentrado de terras raras destinado à fabricação de ímanes permanentes.

Paralelamente à construção, a Pensana procura completar o financiamento do projeto, anunciando uma colocação de ações de 100 milhões USD em dezembro de 2025. Também negocia um financiamento de 160 milhões USD junto do Banco de Exportação e Importação dos EUA (EXIM), num contexto de crescente interesse de Washington pelo Longonjo. A Pensana assinou um protocolo com a alemã Vacuumschmelze GmbH & Co. KG (VAC) para criar nos EUA uma “cadeia de fornecimento da mina ao íman” a partir da futura produção do projeto.

Iniciativas semelhantes direcionadas para o mercado americano foram anunciadas, incluindo com a ReElement. A Pensana também planeia cotar os seus títulos no Nasdaq em 2026, para reforçar a visibilidade do Longonjo junto de investidores americanos. No entanto, como nos outros projetos, esta operação ainda está em fase de planeamento, sem calendário definido.

Ngualla (Tanzânia)

O projeto Ngualla está entre os projetos de terras raras mais avançados em África. Em desenvolvimento na Tanzânia, necessita de um investimento estimado de cerca de 320 milhões USD, e deverá permitir uma produção anual de 37.200 toneladas de MREC durante 20 anos. Antes do início da construção, o operador australiano Peak Rare Earths foi alvo de aquisição pelo grupo chinês Shenghe Resources em maio de 2025.

Shenghe, já acionista de 19,7%, propôs cerca de 97 milhões USD para adquirir as restantes participações. Apesar de uma oferta concorrente da americana General Innovation Capital Partners, a proposta chinesa foi aceite após aprovação regulatória em setembro, com finalização prevista para outubro.

Pouco se sabe sobre a estratégia da Shenghe para a Peak Rare Earths e o calendário do Ngualla. Até ao momento, não foi anunciada qualquer data para início da construção ou produção.

Phalaborwa (África do Sul)

O projeto Phalaborwa coloca a África do Sul no centro da dinâmica global de fornecimento de terras raras. Segundo a Rainbow Rare Earths, o desenvolvimento do ativo exigiria 326 milhões USD, para produzir 1.900 toneladas anuais de óxidos de terras raras para ímanes durante 16 anos. A DFS deverá ser concluída em 2026, etapa chave para atualizar os parâmetros e mobilizar financiamento para a construção.

O projeto já conta com apoio dos EUA. Em 2023, a Development Finance Corporation (DFC) comprometeu-se a investir 50 milhões USD via TechMet para “desenvolver cadeias de fornecimento de minerais críticos mais diversificadas”.

Outros projetos estratégicos

Outros projetos em África despertam interesse das potências económicas, como o Zandkopsdrift (África do Sul) na lista estratégica da UE, e o Makuutu (Uganda) da Ionic Rare Earths, que procura assegurar 120,8 milhões USD com membros do Minerals Security Partnership (MSP). O projeto Lofdal (Namíbia), 40% detido pela japonesa JOGMEC, permanece sob observação, com novas análises previstas para otimizar a produção.

Perspetivas para os Estados africanos

À medida que estes projetos avançam para a produção, os países anfitriões encontram-se num ponto estratégico. Estas iniciativas oferecem oportunidade de aumentar receitas de exportação, atrair investimento estrangeiro e reforçar a cadeia de valor local, incluindo refinação e transformação. O sucesso dependerá da capacidade dos governos em garantir um quadro regulatório claro, gerir questões ambientais e sociais e assegurar a aceitação local dos projetos.

A situação da mina Gakara no Burundi, suspensa devido a disputa comercial entre o Estado e a Rainbow Rare Earths, ilustra a importância destes fatores. A atenção crescente das potências e investidores privados pode impulsionar o desenvolvimento, mas exige vigilância para proteger interesses locais. O ano de 2026 poderá ser decisivo para observar como os países africanos tirarão partido deste potencial estratégico e se afirmarão no mapa mundial das terras raras e minerais críticos.

Aurel Sèdjro Houenou

 

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