Afastar o perigo de os 125 bilhões de barris de petróleo sob o solo africano se transformarem em "ativos encalhados" (recursos sem valor econômico explotável) deve ser uma prioridade, alerta o Instituto de Treinamento em Petróleo (PTI) da Nigéria.
A dependência da África das empresas estrangeiras e a falta de investimento suficiente em institutos técnicos impedem um progresso significativo rumo à autonomia tecnológica.
À medida que a transição para o baixo carbono se impõe em todo o mundo, vários países africanos defendem a exploração de seus recursos fósseis em nome da justiça climática, mas os progressos rumo à verdadeira autonomia tecnológica continuam limitados.
Se a África não recuperar rapidamente seu atraso tecnológico, há um risco de que os 125 bilhões de barris de petróleo que estão em seu subsolo se tornem "ativos encalhados", ou seja, recursos sem valor econômico explotável. Essa é a advertência emitida pelo Petroleum Training Institute (PTI), uma instituição pública nigeriana especializada em formação técnica e profissional para a indústria do petróleo e gás.
Na segunda-feira, 20 de outubro, Samuel Onoji, diretor do PTI, falou sobre o tema, enfatizando que esses recursos podem perder seu valor econômico à medida que o mundo acelera sua transição para energias menos carbonizadas. Para ele, o desafio não é mais a quantidade de petróleo disponível, mas a capacidade da África de explorá-lo de forma limpa, eficiente e a um custo competitivo, caso contrário, essas reservas podem permanecer sob a terra.
Este posicionamento surge em um contexto em que, perante a riqueza de seus depósitos, a África continua amplamente dependente de empresas estrangeiras para a exploração, produção e refino. Institutos técnicos, como o PTI, não têm investimento suficiente para formar o número suficiente de engenheiros capazes de desenvolver tecnologias de extração e processamento de baixo carbono.
Citando o exemplo de Gana, um estudo publicado em fevereiro de 2025 na revista Humanities and Social Sciences Communications (grupo Nature), mostra que as políticas de conteúdo local implementadas no setor petrolífero ainda têm dificuldades em produzir transferências tecnológicas reais.
Os autores enfatizam que "há poucas evidências concretas mostrando como as necessidades de habilidades e tecnologias são efetivamente abordadas". Uma constatação que ecoa o alerta do PTI sobre a persistente dependência tecnológica do continente.
Essa dependência aumenta a vulnerabilidade do continente à redução dos investimentos globais em hidrocarbonetos, à medida que as multinacionais redirecionam seus capitais para áreas mais lucrativas. O risco de as reservas africanas perderem o seu valor de mercado já tinha sido identificado pelo Climate Action Tracker em 2022, que alertava sobre a possibilidade de "ativos encalhados" nos fósseis africanos.
Em uma entrevista à Anadolu Agency em junho passado, o secretário-geral da Organização dos Produtores de Petróleo Africanos (APPO), Omar Farouk Ibrahim, alertou para a progressiva exclusão dos produtores africanos dos mercados internacionais, em falta de ferramentas para reduzir as emissões ou valorizar o gás associado.
Para evitar esse cenário, vários especialistas pedem uma recuperação rápida da inovação local. Eles recomendam o fortalecimento dos centros de pesquisa de petróleo africanos, a criação de sinergias regionais entre países como Nigéria, Angola ou Gabão, e a integração de tecnologias digitais nas operações de produção.
Abdel-Latif Boureima












