À medida que os financiamentos concessionais e a ajuda orçamental se tornam mais incertos para muitos países africanos, a Tanzânia procura novas margens de manobra para continuar a financiar os seus projetos de infraestruturas. Num contexto de preços recorde do ouro, o país pretende mobilizar parte das suas reservas de metal precioso.
A Tanzânia prevê vender uma parte das suas reservas de ouro para financiar despesas em infraestruturas. O anúncio foi feito na segunda-feira, 26 de janeiro, em Londres, por Kitila Mkumbo, Ministro de Estado responsável pelo Planeamento e Investimento, após instrução da presidente Samia Suluhu Hassan à banca central.
«Os governos já não estão dispostos a fornecer ajuda a África; estamos a reorganizar-nos», afirmou o ministro.
Segundo a Bloomberg, o Bank of Tanzania foi encarregado de realizar a venda parcial das reservas de ouro do país. Os volumes envolvidos, o calendário da operação e as modalidades de implementação não foram especificados. De acordo com dados publicados na semana passada pela instituição, as reservas de ouro da Tanzânia atingiam o equivalente a cerca de 1,3 mil milhões de dólares no final de dezembro de 2025.
Um ambiente menos favorável à ajuda ao desenvolvimento
A decisão anunciada por Dar es Salaam surge num momento em que a ajuda pública ao desenvolvimento diminui a nível internacional. Vários países ocidentais reduziram recentemente os seus compromissos, privilegiando prioridades orçamentais internas, nomeadamente nas áreas da defesa e segurança.
Nos Estados Unidos, uma iniciativa lançada pelo presidente Donald Trump conduziu ao encerramento da agência USAID, que durante mais de sessenta anos constituiu um dos principais instrumentos de cooperação bilateral do país. No Reino Unido, o governo anunciou no início de 2025 que o orçamento da ajuda seria progressivamente reduzido de 0,5 % para 0,3 % do rendimento nacional bruto até 2027, para financiar um aumento das despesas em defesa e segurança. Ajustamentos semelhantes foram também implementados em França, Suécia, Países Baixos e Alemanha, em proporções variadas, segundo a imprensa internacional.
Para a Tanzânia, este contexto é ainda mais sensível, uma vez que o país foi recentemente alvo de críticas por parte da União Europeia, na sequência da eleição presidencial contestada de outubro de 2025, que reconduziu Samia Suluhu Hassan ao poder. Em novembro de 2025, o Parlamento Europeu adotou uma resolução não vinculativa pedindo a suspensão de um programa de ajuda de 156 milhões de euros. A Comissão Europeia, contudo, indicou continuar o diálogo com as autoridades tanzanianas, sem anunciar uma decisão definitiva.
O ouro, pilar da economia mineira tanzaniana
Enquanto não houver mais detalhes sobre a venda prevista, a iniciativa relembra o papel central do ouro na economia da Tanzânia. O país é um dos principais produtores africanos do metal precioso, com uma produção estimada em 52 toneladas em 2023, segundo o World Gold Council.
Dados do Bank of Tanzania indicam que o ouro representou 22,5 % das exportações nacionais nesse ano, com um valor de cerca de 3,05 mil milhões de dólares. O setor mineiro contribuiu com cerca de 9,9 % do PIB e aproximadamente 15 % das receitas fiscais.
Nos últimos anos, as autoridades reforçaram o enquadramento do setor aurífero. Em setembro de 2023, foi lançado um programa de compra de ouro aos mineiros locais, a favor do banco central, para reforçar as reservas cambiais. Um ano depois, foi adotada uma nova medida, impondo às empresas mineiras e comerciantes a cedência de 20 % das suas exportações de ouro ao Bank of Tanzania.
Louis-Nino Kansoun













Marrakech. Maroc