No Quénia, os grandes projetos de infraestruturas levantam questões de acesso à terra e de inclusão das comunidades locais. As ambições de modernização do país continuam a confrontar-se com realidades socioeconómicas complexas.
No Quénia, a fase preliminar do projeto do aeroporto internacional de Turkana arranca num clima de tensões fundiárias com as comunidades locais. Segundo a imprensa local, equipas de topografia já iniciaram levantamentos no local previsto, enquanto o governo planeia a aquisição de cerca de 1.500 hectares para constituir a reserva de terreno da infraestrutura, que deverá também ser associada a uma instalação militar.
Esta decisão é contestada pelas populações locais, maioritariamente compostas por pastores que utilizam estas terras. O conflito evoluiu rapidamente para um impasse, envolvendo também várias organizações da sociedade civil. Como alternativa, os opositores sugerem não a construção de uma nova infraestrutura em Kangatotha, mas antes a reabilitação do aeroporto de Lokichoggio, uma plataforma que no passado assegurava ligações regionais e domésticas.
Nesta fase, poucas informações técnicas sobre o projeto foram divulgadas. As autoridades quenianas destacam, no entanto, o seu potencial para impulsionar o comércio e o turismo numa região ainda pouco explorada, e ambicionam atingir 5 milhões de visitantes internacionais e 5 milhões de turistas nacionais até 2027, contra cerca de 2,4 milhões em 2024. A região alberga o lago Turkana, classificado como Património Mundial da UNESCO e conhecido pelas suas paisagens desérticas e biodiversidade única.
Para além do turismo, Turkana tem também uma importância estratégica crescente devido às reservas de petróleo identificadas na bacia de Lokichar, que poderão atrair investimentos e atividades industriais. Os desafios logísticos reforçam a relevância do projeto, uma vez que a região é uma das mais isoladas do país, com uma rede rodoviária limitada e por vezes intransitável, o que aumenta significativamente os tempos de deslocação até aos principais centros urbanos.
No entanto, a concretização do projeto enfrenta desafios importantes. Para além do conflito fundiário, a mobilização de financiamento, a realização de estudos de impacto ambiental e social e a aceitação local serão etapas determinantes. Numa região marcada pelo isolamento e pela sensibilidade dos ecossistemas, a capacidade das autoridades de conciliar desenvolvimento, inclusão das comunidades e preservação dos recursos naturais será essencial para a viabilidade e sustentabilidade da infraestrutura.
Henoc Dossa













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