Enquanto mais de dois milhões de crianças malianas permanecem fora do sistema escolar e o ensino superior enfrenta dificuldades de modernização, Bamako aposta numa parceria público-privada com a Orange Mali para acelerar a transformação digital das suas universidades.
Durante uma audiência concedida na sexta-feira, 13 de março, ao novo diretor-geral da Orange Mali, Sr. Leyti N’Diaye, o ministro do Ensino Superior e da Investigação Científica, Sr. Bouréma Kansaye, reafirmou a vontade do governo de aprofundar a colaboração com a operadora de telecomunicações. Segundo o comunicado oficial do governo maliano, quatro eixos estruturaram as discussões: conectividade das universidades, digitalização do ensino, desenvolvimento de bibliotecas digitais e criação de uma Universidade Digital. Este último projeto, considerado prioritário, visa “modernizar e ampliar o acesso ao ensino superior no Mali”.
O ministro destacou a importância estratégica da Orange Mali no desenvolvimento digital do país, elogiando a qualidade da parceria existente entre a operadora e o seu ministério. O diretor-geral apresentou a visita como uma iniciativa de contacto destinada a consolidar essa cooperação. Para além do protocolo, a ambição é mais ampla: a conectividade dos campi, os recursos documentais online e o ensino à distância deverão, em conjunto, reduzir a falta de acesso, a obsolescência pedagógica e a persistente desconexão entre formação e emprego.
Um investimento no futuro num contexto educativo sob pressão
Esta iniciativa surge num contexto marcado por profundas fragilidades. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), mais de dois milhões de crianças malianas entre 5 e 17 anos ainda não frequentam a escola, e mais de metade dos jovens entre 15 e 24 anos são analfabetos. A situação agravou-se com a insegurança: de acordo com dados da Célula de Planeamento e Estatística do setor da educação, 2.036 escolas estavam fechadas em junho de 2025, privando de escolarização cerca de 610.800 crianças.
No ensino universitário, a pressão é igualmente forte. Segundo o Boletim Estatístico da Direção-Geral do Ensino Superior e da Investigação Científica (DGESRS), o número de estudantes em instituições públicas passou de 88.379 em 2019-2020 para 147.855 em 2021-2022, uma progressão de quase 39 % em dois anos. Um crescimento rápido, mas ainda pouco inclusivo. A proporção de mulheres no ensino superior, embora em aumento, não ultrapassava 37,98 % em 2021-2022.
A taxa bruta de matrícula no ensino superior no Mali permanece entre as mais baixas do continente. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) estimava em 2019, últimos dados disponíveis, 3 % para mulheres e 6 % para homens. Para comparação, esta taxa atingia 9 % na África Subsaariana e 42 % a nível global em 2024. Este desnível evidencia o tamanho do desafio. Os Estados Gerais da Educação, realizados em janeiro de 2024, já concluíram sobre a necessidade de uma transformação profunda do sistema, incluindo qualidade do ensino, integração tecnológica e formação docente.
A parceria com a Orange Mali, caso se concretize, poderá representar um primeiro passo nesta direção. Apesar do impulso ser real, os detalhes concretos, prazos e orçamentos ainda precisam ser definidos; será a formalização de um quadro operacional que determinará se este acordo de princípio se traduzirá em ações efetivas.
Félicien Houindo Lokossou













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