Enquanto a inteligência artificial e a automação transformam o mercado de trabalho, a África continua em atraso, com menos de um em cada quatro estudantes matriculados em ciências e tecnologias. No Quénia, um interveniente privado pretende inverter esta tendência, reforçando a formação e as infraestruturas.
A Strathmore University ambiciona tornar-se uma referência continental na formação da próxima geração de cientistas, engenheiros e inovadores africanos. Na terça-feira, 24 de março, a instituição privada iniciou a construção de um complexo STEM de grande dimensão, marcando uma nova etapa na sua estratégia de expansão académica e tecnológica.
A cerimónia da primeira pedra reuniu representantes dos sectores académico, industrial e institucional. Baptizado de “Kevin O’Byrne STEM Complex”, o projeto envolve um investimento de 2,75 mil milhões de xelins quenianos, cerca de 21 milhões de dólares, e visa dotar a universidade de infraestruturas modernas capazes de apoiar a investigação aplicada e a inovação.
O vice-reitor, reverendo Silvano Ochuodho, destacou o alcance estratégico da iniciativa: «Posicionamo-nos na vanguarda do futuro STEM de África, não como observadores, mas como construtores que moldam ideias, inovações e talentos que definirão o próximo capítulo do continente».
Para Kihara Maina, diretor-geral regional do I&M Bank Group, «as economias mais competitivas assentam em bases sólidas em STEM». Sublinha a necessidade de reforçar as parcerias entre universidades e empresas, de modo a transformar competências em oportunidades concretas no mercado de trabalho.
Segundo as informações divulgadas, o futuro complexo integrará laboratórios de ponta dedicados à inteligência artificial e ciência de dados, polos de engenharia, centros de inovação, espaços colaborativos e plataformas de incubação. O objetivo é aproximar formação e indústria em soluções aplicadas a setores estratégicos como saúde, energia e finanças.
Um motor central das reformas educativas quenianas
Esta iniciativa insere-se na transformação em curso do sistema educativo do Quénia. Segundo a UNESCO, o país implementa progressivamente uma abordagem baseada em competências, centrada nas aptidões práticas, resolução de problemas e inovação, onde os cursos STEM ocupam um papel estratégico no desenvolvimento das competências nacionais.
O Quénia apresenta já uma dinâmica encorajadora, impulsionada por um ecossistema tecnológico em expansão, frequentemente apelidado de “Silicon Savannah”. O país multiplica hubs de inovação e vê surgir uma nova geração de programadores, engenheiros e empreendedores tecnológicos, embora os desafios continuem reais.
Como em grande parte da África subsaariana, as matrículas universitárias em cursos STEM permanecem limitadas face às ciências sociais e humanidades. O relatório Mapping Research and Innovation in the Republic of Kenya, publicado em 2023 pela UNESCO, indica que cerca de 25 % dos estudantes de licenciatura estão matriculados em STEM, com concentrações ainda mais baixas em algumas disciplinas: apenas 5,3 % em tecnologias de informação e comunicação e 4,2 % em engenharia.
A nível continental, o atraso é ainda mais evidente. Dados das Nações Unidas mostram que a África gera apenas 2 % da produção científica mundial, mobiliza 1,3 % das despesas em investigação e desenvolvimento e representa apenas 0,7 % dos pedidos de patente. O continente conta com cerca de 79 cientistas por milhão de habitantes, contra 4.500 nos Estados Unidos, um desfasamento que sublinha a dimensão do investimento necessário.
Félicien Houindo Lokossou













Bamako