Enquanto as nações africanas procuram alavancas de soberania económica e cultural, o Burkina Faso aposta na literatura local para formar e enraizar uma juventude diplomada, mas subempregada.
No Burkina Faso, a universidade está a tornar-se um vetor de difusão da literatura nacional. É esta a orientação que resulta do lançamento oficial das atividades «Temas e Literatura» da 22.ª edição da Semana Nacional da Cultura (SNC), na segunda-feira, 27 de abril. O ministro do Ensino Superior, Adjima Thiombiano, presidiu à cerimónia na Universidade Nazi Boni, em Bobo-Dioulasso.
A escolha do local não é inocente. Pela primeira vez, a exposição de livros sai da direção regional da Câmara de Comércio para se instalar no coração de uma instituição universitária. Um sinal forte da ambição das autoridades.
A universidade como novo templo do livro burkinabê
O dispositivo assenta numa parceria inédita entre a SNC e a Universidade Nazi Boni. O ministro Thiombiano instruiu os presidentes das universidades a garantir que os livros burkinabês estejam disponíveis em cada biblioteca. O objetivo declarado é que «cada estudante burkinabê aprenda a cultura através destas obras».
A visão não se fica por aqui. O governo pretende alargar a iniciativa a todas as instituições de ensino superior e de investigação do país. Cada estabelecimento organizaria, por sua vez, atividades literárias com a SNC ao longo das edições. Os atores do livro apoiam este impulso e apelam a uma melhor valorização da produção local, convencidos de que os burkinabês escrevem e produzem conteúdos de qualidade.
Até 2 de maio de 2026, painéis, cafés literários e exposições animarão o espaço. Uma conferência inaugural definiu o enquadramento intelectual ao interrogar os meios para transmitir, preservar e reinventar os valores tradicionais na era contemporânea.
A cultura como resposta a uma juventude sem oportunidades
O desafio vai além da dimensão cultural. O presidente da Universidade Nazi Boni, Hassan Bismarck Nacro, afirmou-o de forma clara. Para ele, «a literatura ilumina e constrói consciências, alimenta debates úteis ao desenvolvimento da nação». O presidente da comissão «Temas e Literatura», Salaka Sanou, recordou por sua vez o alcance simbólico do local: «A evocação do nome de Nazi Boni no meio literário é, por si só, a evocação de mérito, talento, visão e inspiração».
Integrar obras burkinabês nas bibliotecas cria uma procura institucional direta. É também uma saída económica concreta para os autores locais. Para esta edição de 2026, 112 obras já estão em competição no grande prémio nacional das artes e letras, prova de que a produção nacional existe e aguarda um mercado organizado.
Esta dinâmica insere-se, no entanto, num contexto social e económico sob pressão. Segundo dados citados pela Revue française d’économie et de gestion em 2023, a taxa de desemprego atinge 34,5% entre os jovens burkinabês com nível superior, contra 17,2% entre os que têm ensino secundário. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Demografia (INSD), no segundo semestre de 2024, 13,8% dos jovens entre 15 e 24 anos não estavam nem a estudar, nem a trabalhar, nem em formação.
O potencial económico da cultura é, contudo, real. A contribuição das indústrias culturais e criativas para o PIB passou de 3,78% em 2021 para 3,01% em 2022, apesar de uma taxa de crescimento das empresas culturais formais de 13,57% em 2023. Um setor em expansão, mas ainda insuficientemente estruturado.
Perante este paradoxo, o governo burquinabê colocou a 9.ª edição das jornadas de promoção das indústrias culturais e criativas, realizada em julho de 2025, sob o tema do empreendedorismo cultural como catalisador do desenvolvimento. Enraizar a literatura nas universidades insere-se nesta mesma lógica. Resta transformar este impulso em empregos formais e duradouros para a juventude burkinabê.
Félicien Houindo Lokossou













Landmark Centre, Victoria Island Lagos, Nigeria