À medida que as reivindicações africanas pela restituição dos tesouros coloniais se intensificam, um museu britânico prepara-se para devolver ao Botswana objetos culturais levados durante a colonização e conservados longe das suas raízes.
Um século e meio após a sua deslocação, 45 tesouros culturais botswaneses estão prestes a regressar ao país. A rede Brighton & Hove Museums, um conjunto de museus e espaços culturais de referência em Inglaterra, confirmou a notícia na segunda-feira, 27 de abril. Vestuário, acessórios, ferramentas de caça e objetos do quotidiano compõem esta coleção.
Reunidas na década de 1890 pelo reverendo William Charles Willoughby na região de Gammangwato, estas peças têm uma história singular. Este missionário britânico, conselheiro e tradutor do chefe Khama III, confiou-as ao Brighton Museum em 1899, em plena época do protetorado britânico do Bechuanaland. Nunca mais saíram de lá.
Em 2022, o Khama III Memorial Museum, em Serowe, solicitou formalmente a sua restituição. Prevista para abril de 2026, esta devolução será a primeira desta dimensão entre um museu britânico e o Botswana. Uma exposição permanente, preparada conjuntamente pelas equipas das duas instituições, abrirá ao público a partir de 27 de maio de 2026, em Serowe.
Uma investigação conjunta que mudou tudo
A iniciativa insere-se num projeto colaborativo. Entre 2019 e 2021, as duas instituições conduziram em conjunto o estudo «Making African Connections», coordenado pela Universidade de Sussex, cujos resultados foram publicados no site oficial de Brighton & Hove Museums.
Este trabalho permitiu determinar a proveniência exata de cada objeto e abriu caminho ao pedido oficial de restituição por parte de Serowe. O «James Henry Green Charitable Trust» financia a operação e contribui também para a exposição permanente.
Um festival cultural acompanhará a inauguração. Portia Tremlett, conservadora em Brighton, considera tratar-se de «um passo importante para reconectar estes artefactos às comunidades e aos saberes que lhes dão sentido».
Objetos que recuperam finalmente o seu lugar e utilidade
As investigações indicam que os artefactos botswaneses terão sido adquiridos a artesãos locais ou cedidos num contexto de conversão religiosa. No entanto, afastados do seu contexto original, perderam o seu significado profundo nas vitrinas britânicas.
Ambos os museus concordam sobre a necessidade da sua restituição. Gase Kediseng, conservador do Khama III Memorial Museum, afirma que esta devolução «representa mais do que uma simples relocalização física; é um ato de restauração que devolve aos Batswana a capacidade de contar a sua própria história através de objetos que representam quem eram».
Está igualmente previsto um encontro internacional, coorganizado com as universidades de Sussex e do Botswana, aquando da abertura da exposição.
Um anúncio no contexto das grandes reivindicações africanas
Este regresso insere-se numa dinâmica continental. A Nigéria reclama há décadas o retorno dos Bronzes de Benin City, levados pelos britânicos em 1897. Em fevereiro de 2026, a Universidade de Cambridge anunciou a restituição da propriedade legal de 116 dessas peças a Abuja. O Horniman Museum, em Londres, já tinha aberto caminho em 2022 ao transferir 72 objetos para a Nigéria. Na África do Sul, o governo tem multiplicado os pedidos formais junto de museus europeus.
No Botswana, o contexto é igualmente favorável à restituição. Desde 2012, quatro elementos estão inscritos no património cultural imaterial da UNESCO, incluindo o ritual Wosana em 2024. Com cerca de 2,6 milhões de habitantes e uma idade média de 24 anos, segundo dados da Worldometers, o país pretende agora transmitir o seu património vivo às novas gerações. A restituição por parte de Brighton surge como um sinal forte nesse sentido.
Félicien Houindo Lokossou













Landmark Centre, Victoria Island Lagos, Nigeria