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Depois do petróleo, o espectro de uma crise mundial dos fertilizantes em Ormuz

Depois do petróleo, o espectro de uma crise mundial dos fertilizantes em Ormuz
Quarta-feira, 18 de Março de 2026

Quatro anos após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, o mercado dos fertilizantes enfrenta um novo choque com a escalada militar entre o Irão, Israel e os Estados Unidos. Este conflito provocou perturbações no comércio ao nível do estreito de Ormuz. Eis o que é preciso compreender sobre as implicações desta crise para a indústria global dos fertilizantes e para os países africanos.

O estreito de Ormuz, passagem marítima entre o Golfo Pérsico e o Mar da Arábia, não é estratégico apenas para o petróleo, do qual assegura cerca de um quarto do transporte marítimo mundial. É também crucial para o mercado de fertilizantes e para a segurança alimentar global.

Segundo um estudo publicado a 10 de março pela CNUCED, cerca de um terço do transporte marítimo mundial de fertilizantes (ou seja, quase 16 milhões de toneladas) passa por este estreito. Este volume inclui 67% de ureia, o fertilizante azotado mais utilizado no mundo, e 20% de fosfato diamónico (DAP), o fertilizante fosfatado mais comum.

Uma nova fonte de tensão nos preços globais

Se os preços do petróleo reagiram fortemente, os dos fertilizantes também foram impulsionados por esta crise. Com a escalada neste corredor estratégico, o banco neerlandês Rabobank indicou, numa nota publicada a 6 de março, que os preços da ureia no Norte de África subiram cerca de 20%, enquanto o preço do gás natural na Europa aumentou aproximadamente 45% nas 48 horas seguintes ao primeiro ataque contra o Irão.

Num contexto em que o gás natural representa mais de 50% do custo de produção dos fertilizantes azotados, a situação atual faz lembrar o cenário de há quatro anos. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022, a subida dos preços da energia — especialmente do gás natural e do carvão — penalizou a produção de amoníaco (NH3), componente essencial dos fertilizantes azotados, levando ao encerramento de fábricas na Europa e à disparada dos preços.

Atualmente, o mercado continua sensível a perturbações. A China mantém restrições às exportações de fertilizantes azotados para garantir o abastecimento interno e reduz as vendas de fosfatos para favorecer a produção de baterias de fosfato de ferro e lítio. A Bielorrússia, grande fornecedora de potássio, continua sob sanções da União Europeia, enquanto a Rússia enfrenta tarifas europeias sobre fertilizantes.

A duração da crise será determinante, mas já há preocupações de que o aumento dos preços da ureia e do amoníaco leve os agricultores a reduzir o uso de fertilizantes, afetando a produção de cereais e a segurança alimentar. Segundo a ONU, cerca de 50% da população mundial depende de produtos agrícolas que utilizam fertilizantes minerais (NPK).

Impactos contrastantes para exportadores africanos

Nem todos os países africanos são afetados da mesma forma. A redução dos fluxos no estreito de Ormuz e a subida dos preços podem reforçar o papel estratégico de produtores do Norte de África, como Marrocos, Argélia e Egito, que abastecem a Europa com fertilizantes fosfatados e azotados.

Segundo a Rabobank, os preços da ureia no Egito subiram rapidamente de cerca de 500 dólares por tonelada para mais de 600 dólares, enquanto na Argélia atingiram cerca de 631 dólares por tonelada, impulsionados pela procura de rotas de abastecimento mais seguras.

Na Nigéria, exportador líquido de ureia, a procura também aumentou. O grupo Dangote registou um crescimento das encomendas devido à escassez global. No entanto, estes ganhos podem ser parcialmente anulados pelo aumento dos custos de insumos importados, como amoníaco, enxofre e gás.

Alguns produtores africanos permanecem vulneráveis, especialmente devido à subida dos preços do enxofre — essencial para fertilizantes fosfatados — e do amoníaco, que aumentaram entre 15% e 28% nos últimos dias. O grupo marroquino OCP, por exemplo, é particularmente exposto às variações do preço do enxofre, do qual importa grandes volumes.

No Egito, perturbações no fornecimento de gás podem limitar a produção de fertilizantes, como já aconteceu em 2025, quando a escassez de combustível levou à suspensão temporária das atividades industriais.

Impacto direto nos países importadores africanos

Os países africanos mais vulneráveis são os que dependem do Golfo para o abastecimento de fertilizantes. Segundo a ONU Comércio, o Sudão é o mais dependente, com 54% das suas importações provenientes da região, seguido pela Tanzânia (31%), Somália (30%), Quénia (26%) e Moçambique (22%).

De forma geral, todo o continente será afetado pelo aumento dos preços e pelas perturbações logísticas. Este cenário constitui um novo teste à resiliência dos sistemas agrícolas africanos.

Durante o choque de 2022, muitos países conseguiram mitigar os impactos através de subsídios, negociações de preços e financiamentos concessionais. Instituições como o Banco Africano de Desenvolvimento implementaram mecanismos de emergência, como o African Emergency Food Production Facility, dotado de 1,5 mil milhões de dólares, para apoiar a aquisição de fertilizantes e outros insumos.

Espoir Olodo

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