Em África, o Marrocos é um dos países mais afetados pelo défice hídrico. Com vários anos consecutivos de seca e os efeitos das alterações climáticas, o governo aposta na construção de novas barragens para reforçar o abastecimento do país em recursos hídricos.
O Marrocos está a reforçar a sua estratégia de adaptação ao stress hídrico com o lançamento de uma nova obra hidráulica no sudeste do país. Segundo informações divulgadas pelos meios de comunicação locais na segunda-feira, 25 de maio, o Ministério do Equipamento e da Água abriu um concurso internacional para a construção da barragem de Falit, na província de Figuig.
Com um custo total estimado em cerca de 428 milhões de dirhams (aproximadamente 46,5 milhões de dólares), as obras desta nova infraestrutura hidráulica deverão arrancar por volta de 2029/2030.
Uma barragem com vários usos
Prevista a norte de Bouarfa, no uádi Mouloudah, a futura barragem terá uma capacidade de armazenamento de 25 milhões de m³. Será construída em betão compactado com rolo (BCR), terá 59 metros de altura e estará equipada com um sistema de evacuação de cheias, bem como uma conduta de descarga capaz de libertar até 28 m³/s, permitindo esvaziar a albufeira em cerca de quinze dias, se necessário.
Segundo as autoridades, a infraestrutura terá três funções principais: abastecimento de água potável, irrigação agrícola e proteção contra cheias, frequentes em zonas áridas durante episódios de chuvas intensas.
A região de Figuig ilustra os paradoxos hidrológicos do leste marroquino, marcado por precipitações raras, mas por vezes violentas e concentradas, gerando períodos prolongados de seca e riscos de cheias súbitas. As estimativas hidrológicas apontam para uma afluência média anual de 10,3 milhões de m³ no local, com picos que podem atingir 40,8 milhões de m³. Neste contexto, a barragem visa captar e regular uma água altamente irregular, muitas vezes perdida por falta de infraestruturas de armazenamento.
Um investimento estratégico face ao stress hídrico
Para além da gestão da água, estes investimentos refletem uma estratégia mais ampla de segurança hídrica e de apoio ao desenvolvimento agrícola em zonas áridas. A agricultura irrigada representa cerca de 45% do valor acrescentado agrícola, 75% do volume das exportações agrícolas e 86% da produção das culturas industriais no país, segundo dados oficiais.
Reforço da capacidade de armazenamento de água
De forma mais ampla, a construção da barragem de Falit irá reforçar a capacidade de retenção de água no país. O Marrocos, que já explora mais de 150 grandes barragens com uma capacidade total de cerca de 20,8 mil milhões de m³, prepara a entrada em funcionamento de cerca de vinte novas infraestruturas até 2027.
Em abril, o ministro do Equipamento e da Água, Nizar Baraka, afirmou que 16 grandes barragens estão em construção em fases avançadas, enquanto outras sete estão programadas para os próximos anos. Esta política faz parte do Programa Nacional de Abastecimento de Água Potável e de Irrigação 2020-2027, que também prevê a dessalinização da água do mar e a reutilização de águas residuais tratadas.
Num país em stress hídrico estrutural, estas infraestruturas tornaram-se um pilar central das políticas públicas, na interseção entre clima, segurança alimentar e desenvolvimento territorial. Em 2020, o Marrocos dispunha de 620 m³ de água por habitante, contra 2 560 m³ em 1960, segundo o Banco Mundial. Este valor poderá cair abaixo dos 500 m³ por habitante até 2030, limiar de escassez absoluta.
Stéphanas Assocle













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