Enquanto África deverá concentrar a maior parte do crescimento demográfico mundial nas próximas décadas, os grandes exportadores de cereais estão a multiplicar iniciativas para assegurar os seus mercados no continente. Um dos pesos-pesados da América do Norte, o Canadá, já manifesta ambições claras.
O Canadá considera a África como um dos principais motores de crescimento para as exportações de trigo nos próximos anos. Foi o que afirmou Leif Carlson, vice-presidente responsável pelos mercados e pelo comércio da associação Cereals Canada, que representa os principais intervenientes da fileira cerealífera do país norte-americano, no dia 22 de maio, ao meio de comunicação Canada Cattleman.
«Consideramos a África como uma oportunidade. Já estamos presentes, mas acreditamos que é possível ir muito mais longe», afirmou. Segundo ele, o crescimento demográfico, a urbanização e o aumento dos rendimentos deverão continuar a impulsionar a procura de produtos à base de trigo no continente.
Uma procura em forte expansão
Segundo projeções demográficas das Nações Unidas, a população africana poderá atingir cerca de 2,5 mil milhões de habitantes em 2050, contra aproximadamente 1,5 mil milhões em 2025, enquanto o continente se afirma atualmente como a segunda região importadora de trigo, logo a seguir à Ásia.
Dados compilados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) mostram que o continente importou em média 52,8 milhões de toneladas de trigo por ano entre as campanhas de comercialização de 2021/2022 e 2023/2024, evidenciando o potencial de crescimento da procura.
Uma quota ainda limitada
Embora o Canadá já exporte trigo para vários mercados africanos importantes, sobretudo no Norte e na África Ocidental, a sua presença continua relativamente modesta à escala continental. Segundo dados da plataforma Trade Map, o país exportou cerca de 5 milhões de toneladas de trigo para África em 2025, um recorde dos últimos cinco anos.
A Argélia representa cerca de metade dessas compras, seguida por Marrocos, Nigéria, Gana e Moçambique. No total, o Canadá fornece cerca de 11% do trigo importado pelo continente africano. As importações africanas totais de trigo atingiram 45,9 milhões de toneladas em 2025, o que abre espaço para crescimento dos exportadores canadianos.
Neste contexto, a Cereals Canada identifica o Quénia, o Camarões e Moçambique como mercados com potencial de expansão. O Quénia importa mais de 2 milhões de toneladas por ano, o Camarões ultrapassa 1 milhão de toneladas e Moçambique importa mais de 700 mil toneladas anuais.
Intensificação da concorrência internacional
As ambições canadianas inserem-se num contexto de concorrência crescente entre grandes exportadores de cereais para aceder ao mercado africano em expansão. A Rússia, atualmente um dos principais fornecedores de trigo em vários países africanos, procura reforçar ainda mais a sua presença no continente.
Durante o quinto Fórum Russo dos Cereais, realizado em Sochi entre 20 e 23 de maio, Moscovo anunciou negociações com o Egito, maior importador mundial de trigo, para a criação de um hub regional de comércio e armazenamento de cereais nos portos do país.
Esta iniciativa reflete a estratégia russa de consolidar a sua posição no mercado egípcio, onde já é líder, e de reforçar a sua presença no Norte de África, principal região importadora do continente.
Mais cedo, em abril, a Ucrânia inaugurou no Gana o seu primeiro hub agrícola em África, com o objetivo de facilitar a ajuda humanitária e expandir a sua presença comercial na África Ocidental.
Além destes dois países da região do mar Negro, fornecedores tradicionais como a França, a Austrália e os Estados Unidos também procuram reforçar a sua posição no mercado africano. Neste contexto, a concorrência deverá intensificar-se à medida que a procura africana aumenta.
Stéphanas Assocle













Londres - Royaume-Uni - Sommet réunissant l'écosystème tech africain et les investisseurs internationaux à Londres.