Maior produtor mundial de mandioca, a Nigéria dispõe de uma indústria agroalimentar entre as mais desenvolvidas de África. As autoridades pretendem reforçar a fileira através do desenvolvimento da produção de bioetanol, com o objetivo de aumentar o valor acrescentado e diversificar os mercados de escoamento do tubérculo.
O governo nigeriano anunciou, na semana passada, o início de ações destinadas a integrar 14 milhões de pequenos agricultores na cadeia de valor do bioetanol à base de mandioca. Liderada pelo Ministério do Orçamento e do Planeamento Económico, a iniciativa insere-se na fase operacional do Projeto de Desenvolvimento da Cadeia de Valor do Bioetanol de Mandioca.
Para mobilizar os produtores em torno desta nova dinâmica, as autoridades nigerianas apostam no chamado modelo da tríplice hélice, no qual universidades, indústria e Estado são chamados a cooperar para difundir variedades de mandioca de alto rendimento, atrair capitais privados, facilitar o acesso às tecnologias e melhorar o ambiente produtivo. Esta parceria de transferência de conhecimentos visa transformar a fileira num verdadeiro motor de inovação e de criação de valor.
Segundo o governo, o bioetanol derivado da mandioca destina-se prioritariamente ao mercado interno, como combustível. No âmbito da Política Nacional de Biocombustíveis, adotada em 2007, Abuja prevê, a prazo, a incorporação de 10 % de etanol na gasolina (combustível PMS) nos stocks nacionais. Esta orientação visa criar um mercado industrial doméstico estruturado, contribuindo simultaneamente para a redução das importações de combustíveis.
De acordo com a Autoridade Nigeriana de Regulação do Setor Petrolífero Intermédio e a Jusante (NMDPRA), o consumo interno de gasolina atingiu, em média, 56,74 milhões de litros por dia em outubro de 2025, dos quais cerca de 49 % provinham das importações. Neste contexto, o Ministério do Orçamento e do Planeamento Económico estima que a implementação do Projeto de Desenvolvimento da Cadeia de Valor do Bioetanol de Mandioca poderá permitir à Nigéria realizar mais de 3.000 mil milhões de nairas (cerca de 2,1 mil milhões de dólares) em poupanças anuais de divisas, graças à incorporação do bioetanol na gasolina (PMS). O suficiente para reduzir a dependência do país em relação às importações de produtos petrolíferos.
Importa notar que, em 2020, a consultora PwC estimava as necessidades industriais de etanol na Nigéria em mais de 400 milhões de litros por ano. Para além da utilização energética como combustível, este produto é igualmente usado na indústria química e farmacêutica como solvente na produção de tintas, vernizes, tintas de impressão, produtos químicos, bem como matéria-prima para desinfetantes, géis hidroalcoólicos e produtos farmacêuticos. É também utilizado na indústria agroalimentar para a produção de bebidas alcoólicas e espirituosas.
Uma dinâmica de estruturação iniciada em 2023
Foi a 19 de abril de 2023 que o Conselho Executivo Federal deu luz verde a um projeto de 11,9 mil milhões de nairas, destinado a desenvolver a cadeia de valor da mandioca e do bioetanol no período 2023-2028. Liderado pela Comissão de Regulação das Concessões de Infraestruturas (ICRC), este programa inscreve-se numa estratégia nacional que visa reduzir a dependência das importações de combustível, estimular a agricultura e gerar novas receitas.
Na fase piloto, o projeto prevê a criação de um parque industrial biotecnológico com 20 hectares, repartidos entre universidades e centros de investigação, com a plantação de variedades híbridas de mandioca (TME 419), reconhecidas pelo seu elevado rendimento, resistência às doenças e elevado teor de amido, o que as torna estratégicas tanto para a alimentação como para a indústria.
Segundo as autoridades, o principal objetivo deste projeto piloto é demonstrar a eficácia de uma abordagem liderada pelo setor privado para promover o investimento em biomassa renovável, criar riqueza, gerar empregos, reduzir a pobreza, melhorar a segurança alimentar e nutricional, fornecer energia renovável e reduzir a pegada de carbono.
Espera-se igualmente que esta iniciativa permita duplicar a produção nacional de mandioca, passando de 62 para 120 milhões de toneladas em cinco anos, graças à mecanização, à biotecnologia e a uma mobilização acrescida de recursos para assegurar a disponibilidade, em quantidade suficiente, da matéria-prima necessária à produção de bioetanol.
Desafios à vista
Ao contrário dos produtos tradicionais derivados da mandioca (farinha, gari, fufu, etc.) destinados à alimentação, o bioetanol impõe exigências industriais elevadas, nomeadamente grandes volumes de matéria-prima, qualidade homogénea das raízes, uma logística estruturada e investimentos significativos em infraestruturas de transformação. Estas restrições conduzem a uma organização mais integrada da fileira, desde o fornecimento de estacas melhoradas até à valorização dos coprodutos, em particular os alimentos para animais provenientes dos resíduos da destilação.
As ambições são elevadas, e o sucesso do projeto dependerá de vários fatores, incluindo a capacidade de assegurar o abastecimento de mandioca a custos competitivos, a implementação de infraestruturas logísticas adequadas, bem como a estabilidade do quadro regulamentar que rege a incorporação do bioetanol nos combustíveis. Além disso, sendo a mandioca simultaneamente uma cultura alimentar essencial e uma matéria-prima estratégica para a indústria, a sua valorização não alimentar cria uma tensão entre dois usos, levantando o risco de que a procura industrial faça subir os preços e reduza o acesso das famílias ao tubérculo.
Com a anunciada integração dos agricultores na cadeia de valor do bioetanol, o desafio para as autoridades será, portanto, garantir a expansão industrial do projeto sem fragilizar o acesso alimentar.
Stéphanas Assocle













Marrakech. Maroc